O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE JOSÉ SÓCRATES

1. Na extensa entrevista ao Expresso, o antigo primeiro-ministro revela a sua cosmovisão, a propósito da tese de mestrado que apresentou em Paris sobre a tortura nos regimes democráticos.
A cada página transborda o pedantismo chulo e arrogante. Os adversários da merda da política [sic] são corridos de trastes, estupores, pulhas, bandalhos e filhos da mãe. Além dos impropérios, rastilha na peça uma filosofia postiça. A cada virar de folha, agoniza o verdadeiro amor da sabedoria.
Vale a pena examinar essa weltanschauung adquirida em quatro semestres na Sciences Po.


2. Afirma José Sócrates (JS) que sempre se filiou "nas correntes do consequencialismo e do utilitarismo, o utilitarismo de Bentham e de Stuart Mill".
A filosofia do homem, dizia Fichte, depende da espécie de homem que ele é. O homem JS havia de escolher um sistema acorde com o seu timbre moral. Deparou-se-lhe a estrada de Damasco no utilitarismo, que é um positivismo de raiz hedonista.
Como um utilitarista estrito tivesse por força de admitir a tortura em certos casos, por exemplo para obter a confissão de um prisioneiro e evitar um ataque terrorista, JS refugia-se no chamado utilitarismo das regras. É a posição adoptada modernamente pelo filósofo australiano John Jamieson Smart, que JS deve ter lido em Paris. A questão é saber se o chamado utilitarismo das regras representa ainda verdadeiro utilitarismo, sobretudo para alguém que diz filiar-se directamente em Bentham e Stuart Mill.

3. JS reconhece o problema: "Aqui, entro em divergência (...) filio-me no imperativo categórico prático do Kant: nunca utilizar uma pessoa como um meio e sim como um fim em si mesmo".
O modo como fala de utilitarismo e kantismo revela que não domina nem um nem outro. Como pode um utilitarista à Bentham agir segundo o imperativo categórico de Kant?
Mas há mais. Por um lado, JS encara o imperativo categórico como a última palavra da doutrina kantiana. Nada mais inexacto. Ele constitui apenas uma formulação mais precisa do próprio problema, que é procurar como é possível um imperativo categórico. Seria de lhe recomendar, agora que domina o francês, as obras de alguns especialistas, como Victor Delbos: por exemplo, La philosophie Practique de Kant e De Kant aux Postkantiens.
Por outro lado, quando Kant proclama o homem um fim em si mesmo está a referir-se ao homo noumenon, que para ele é sinónimo da universalidade da razão, e não ao homem tout court. Escreve o filósofo de Königsberg: "o homem e, em geral, todo o ser racional existe como fim em si mesmo (…) o imperativo prático será, pois, como se segue: age de tal modo que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de outrem, como fim em si mesmo". E mais adiante fala no "princípio da humanidade e de toda a natureza racional em geral como fim em si mesmo".
Os passos citados são da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, livrinho que Sócrates diz que já leu "umas dez vezes", mas que pelo exposto ainda não assimilou por completo.

4. A afirmação de que "não existe pensamento sem acção e vice-versa" mete-o em fofas e afasta-o dos seus mestres. Aproxima-o estranhamente de outras escolas, como o idealismo italiano ou o próprio pragmatismo, na linha de William James.

5. Para JS a tortura é sempre de repelir, mesmo que o direito a institua (como na "tortura legalmente assumida" nos Estados Unidos, após o 11 de Setembro). A tese é pacífica e parece não ter hoje contraditores no mundo civilizado. O problema é que José Sócrates assenta a sua cosmovisão num positivismo, mas para repelir a tortura alega um dever moral, uma ética que supera esse positivismo.
A questão é esta: entende José Sócrates que o direito é apenas o direito positivo, ou seja, o direito vigente numa determina época? Se responde que não, contradiz abertamente a escola em que se diz filiado; se responde que sim, incorre noutra contradição porque não se compreende que tanto a como não-a possam ser igualmente direito.
Os direitos do homem, não os direitos deste ou daquele homem em particular, baseiam-se na natureza do homem, rigorosamente fundamentada, valendo em todos os tempos e lugares. Isto é, só podem ter uma fundamentação jusnaturalista.
Os direitos do homem são, pois, direitos naturais, não estando ad libitum nas mãos de um desenvolvimento histórico que o direito positivo consagre.

6. JS diz que escreveu a tese sob a influência do filósofo Frédéric Gros, "um tipo novo e muito interessante", que foi seu professor. Gros é discípulo de Michel Foucault e tributário do estruturalismo.
Recomeça aqui a porca de torcer o rabo. Como pode um utilitarista das regras, um entusiasta da dignidade humana, conciliar as suas posições com o estruturalismo, que sustenta que o homem é uma invenção recente e com fim anunciado. Leia-se, significativamente, Michel Foucault: "O homem é uma invenção, e uma invenção recente, tal como a arqueologia do nosso pensamento o mostra facilmente. E talvez ela nos indique também o seu próximo fim". (As Palavras e as Coisas, Edições 70, 1991, p. 421).
Sem homem, não há direitos do homem. Não pode haver dignidade humana lá onde se proclama a negação do homem. Seguir este trilho para defender a dignidade intrínseca a cada homem representa um absurdo.
Já agora, é curioso verificar que, em Foucault, o homem é uma invenção perecível, mas a "liberdade humana" representa o motor da história (A Arqueologia do Saber, Almedina, 2005).

7. De tudo isto se extrai que o conhecimento filosófico de JS é ainda incipiente e limitado. A tese, a avaliar pela entrevista, será uma trapalhada igual ao exame domingueiro de Inglês Técnico ou à licenciatura na Universidade Independente. O prefácio é de Lula da Silva, conhecido intelectual brasileiro. Depois do mensalão, o mestradão. Os amigos servem para as ocasiões.
O leitor atento percebe que o ex-governante charla apenas meia dúzia de conceitos lidos à pressa e enfiados a martelo na entrevista. A ignorância e a sandice incutiram-lhe uma filosofia para uso próprio. Não precisa de outra. Quando versa sobre o utilitarismo, o pensamento de Kant, o deontologismo ou a ética da responsabilidade, não são poucas nem pequenas as contradições em que se embrenha.
Tem ainda largos anos pela frente, muito livro, muita noitada, muita directa de estudo árduo, até poder apresentar um sistema coerente e sistematizado. Por enquanto, o seu elo à filosofia consiste apenas no apelido histórico. E já não é mau.

CEM ANOS DE VINICIUS

Faz hoje cem anos que nasceu Vinicius de Moraes. Viciado em boémia e mulheres, aferrou-se à farra e casou-se nove vezes. (Os poetas nunca aprendem à primeira). Foi também um grande apreciador de whisky, o seu melhor amigo — uma espécie de cãozinho engarrafado.
A parceria que firmou com Tom Jobim constituiu, no seu registo próprio, uma das grandes duplas criadoras da música contemporânea. Eu, que nem sou dado à bossa nova, reconheço no letrista de Chega de Saudade ou Pela Luz dos Olhos Teus um compositor de excepção. A Garota de Ipanema foi cantada em várias línguas e por vários intérpretes, de Frank Sinatra a Amy Winehouse, passando por Ella Fitzgerald (que transformou a garota em garoto: The Boy from Ipanema).
Os jovens poetas d'aquém e d'além-mar só teriam a lucrar se frequentassem Vinicius, mesmo que adiram a outras correntes da expressão literária. Ele é o poeta do ritmo e do sentido plástico da palavra. Os seus sonetos denotam o influxo de Camões. Como dizia Manuel Bandeira, há nele o fôlego dos românticos e a liberdade dos modernos. Devido a combinações fónicas e amplos recursos estilísticos, como aliterações e iterações, a poesia de Vinicius, sobre ser cantabile, saía já do papel em notas musicais. Era logo registada como música na maternidade das letras.
 Por isso, foi único.

GAROTA DE IPANEMA


COMO O TEMPO PASSA


Se tivesse de eleger o meu romance de juventude, a escolha seria o extraordinário Comme le Temps Passe, de Robert Brasillach. (Edição portuguesa: Como o Tempo Passa, ed. Ulisseia. A tradução de Paulo Santa Rita, bem que aceitável, apresenta expressões de mau gosto e não verte a grandeza de todos os passos e imagens do original francês).
Trata-se da narrativa admirável das vidas de René e Florence, uma história de juventude e aventura, desejo e tentação, na idade em que tais palavras não assumem outros significados. Comme le Temps Passe é o romance da juventude que foge e simultaneamente renasce
e também o de dois seres que podem procurar-se, perder-se, encontrar-se, sem nunca deixarem de ser feitos um para o outro.
Robert Brasillach compreendeu bem a beleza da juventude
e a melancolia dos que a vêem afastar-se inexoravelmente. Foi fuzilado a 6 de Fevereiro de 1945 por colaboracionismo. Tinha 35 anos. Como o soubessem poeta e romancista da juventude, não lhe permitiram atingir aquela idade em que os homens se costumam tornar velhos. No derradeiro dia, já depois de saber que o indulto fora recusado, terminou o seu ensaio sobre Chénier e as últimas composições dos Poèmes de Fresnes. Releu a narrativa da Paixão em cada um dos quatro Evangelhos. Trouxe à memória, num relance, todas as pessoas que amava. Pensou, com desgosto, no desgosto delas. Aceitou o destino sem um queixume ou fraqueza. E, ao troar da rajada, uniu na sua vida e obra duas chaves da poesia intemporal: a juventude e a morte.

AINDA O ANO LECTIVO (PARA ACABAR)

A professor is a man whose job is to tell students how to solve the problems of life which he himself has tried to avoid by becoming a professor.

[Sujeito que não se quer identificar, mas de propensão cínica]

AINDA O ANO LECTIVO

More often than not the only thing a man gets out of college is himself.

[Anónimo, de tendência pessimista]

MEA CULPA

Os antigos governantes, transmudados em comentadores, acertam quase sempre no diagnóstico, mas enxotam de si qualquer responsabilidade. Parecem aqueles católicos que fazem o mea culpa batendo convictamente no peito dos outros.

LIVROS & MULHERES (V)


VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Talvez por reflexo condicionado, quando ouço falar de violência doméstica lembro-me logo da televisão. É uma das mais eficazes formas de tortura, com a vantagem de ser servida ao domicílio e dispor de uma ampla lista de jogos sádicos. Os aparelhos modernos até já trazem comando.
Depois, meio desiludido, alcanço que a expressão quer significar apenas a violência não consentida do marido sobre a mulher. Ora, o problema da violência, no seu todo, não pode ser parcelado. E, por isso, assaltam-me certas dúvidas. A violência doméstica também inclui a brutalidade das parelhas gay? Os maus-tratos a crianças? A violência dos mais espigadotes contra os pais, avós e vizinhos? E os velhos, maltratados por homens e mulheres, subnutridos, espancados, abandonados — os velhos também podem ser considerados como vítimas de violência doméstica?

O assunto ultrapassa as paredes da casa. No fundo, a violência doméstica é a nossa forma de regime: o povinho a apanhar pela medida grande, sem ter sequer uma linha de apoio à vítima que o console.

CAROLINE SAYS II


 
Caroline says
as she gets up off the floor
Why is it that you beat me
it isn't any fun
 

Caroline says

as she makes up her eyes
You ought to learn more about yourself
think more than just I

But she's not afraid to die
all her friends call her Alaska
When she takes speed, they laugh and ask her

What is in her mind

what is in her mind  

Caroline says
as she gets up from the floor
You can hit me all you want to
but I don't love you anymore
 

Caroline says
while biting her lip
Life is meant to be more than this
and this is a bum trip


But she's not afraid to die

all her friends call her Alaska
When she takes speed, they laugh and ask her
What is in her mind
what is in her mind

She put her fist through the window pane
It was such a funny feeling

It's so cold in Alaska
it's so cold in Alaska
It's so cold in Alaska
 

[Lou Reed]

LIVROS & MULHERES (IV)


SINGELA PROPOSTA

Andou bem a Antígona ao editar Singela Proposta e Outros Textos Satíricos, de Jonathan Swift. O autor de As Viagens de Gulliver foi um satirista de mão cheia. O texto principal merece ser lido nestes tempos de austeridade e tróica. Escrito em 1729, quando Swift contava já 62 anos, retrata uma Irlanda de miséria e fome ante a indiferença das autoridades britânicas. O paralelo com a actual situação portuguesa é flagrante: os irlandeses forçados à emigração para a ilha de Barbados, como os lusos para Angola e outras paragens; impedidos também de cultivar livremente o solo, porque a Inglaterra impunha restrições severas, tal como Bruxelas nos impõe hoje as quotas.
A poder de ironia e mordacidade vibrante, Swift engendra uma solução para as crianças que se convertem num fardo difícil de carregar: "Foi-me garantido em Londres por um americano dos meus conhecimentos, homem muito instruído, que uma criança saudável e bem alimentada constitui, com um ano de idade, alimento delicioso, nutritivo e saudável, quer estufada, quer assada, quer cozida no forno, quer escalfada; e não tenho dúvidas de que também será possível cozinhá-la em fricassé ou em guisado".
As vantagens do projecto são expostas em termos que agradariam aos nossos credores: "(…) sabendo que o sustento de cem mil crianças de dois anos de idade ou mais velhas não poderá custar menos de dois xelins por cabeça e por ano, a riqueza da nação será assim aumentada em cinquenta mil libras anuais".
Um bom livro, não recomendável a membros da tróica e do Governo, pessoas sensíveis, grávidas e, last but not least, ingleses. 

PREPARADO PARA O ANO LECTIVO

Assumo a robustez física como condição de sobrevivência na sala de aula. Por outro lado, ser negro é uma grande vantagem para lidar com minorias. A maioria do corpo docente são mulheres de etnia portuguesa. Se alguém estiver interessado em perceber o que é a violência sobre as mulheres é entrar numa sala de aula. Combater a violência contra as mulheres é combater a indisciplina nas escolas. Mas o que temos é um discurso académico politicamente correcto que, ao mesmo tempo que defende a condição da mulher, defende exageradamente a condição do aluno que massacra essa mulher. Os governos passam e este problema arrasta-se. Devíamos ter vergonha disso.
 
[Gabriel Mithá Ribeiro, professor de História, em entrevista ao i]

ANO LECTIVO

Education is an admirable thing, but it is well to remember from time to time that nothing that is worth knowing can be taught.

[Oscar Wilde]

O NAMORADO DE OSCAR WILDE

Em Londres, Oscar Wilde apaixonou-se por Alfred Douglas, filho do Marquês de Queensberry, dezasseis anos mais novo, um adolescente que o via como um velhadas anafado. O namorado de Wilde é a adolescência assexuada, a tentação loira dos homens indefinidos: uma antecipação real do jovem Tadzio, personagem de Thomas Mann.  
A Inglaterra vitoriana condena-o ao cárcere. Mas o irlandês não esquece o amante. Na longa carta que lhe envia da prisão de Reading, escreve: "Não tenhas medo do passado: se te disserem que é irrevogável, não acredites". Podem as palavras ter um significado volúvel consoante a tendência sexual do autor? Eu não sei e Wilde nunca o explicou. Morreu logo depois para ser enterrado no Père Lachaise, o verdadeiro clube dos poetas mortos. 

LIVROS & MULHERES (III)

ALICE MUNRO

Este blogue, que nasceu há três dias sob o signo dos livros e das mulheres, congratula-se com a atribuição do Nobel da Literatura a uma senhora.

O NOBEL DE MOIMENTA

O Nobel da Literatura é um prémio político e comercial. Como método de aferir a qualidade dos laureados, emparelha com o Concurso Literário de Moimenta da Beira.
Este ano bacoreja-se em alguns meios o nome de Haruki Murakami para vencedor, a anunciar amanhã. Tenho as minhas dúvidas. Já não me surpreenderia a atribuição do prémio a qualquer destes: o israelita Amos Oz, o italiano Claudio Magris, o húngaro Péter Nádas e até mesmo o dramaturgo norueguês Jon Fosse, aos quais acrescento o autocarro norte-americano: Don DeLillo, Philip Roth, Joyce Carol Oates, Thomas Pynchon, Cormac McCarthy, John Ashbery, o Bob Dylan, o motorista e o mecânico.
Se o júri quiser a surpresa política pode chamar à Academia a jornalista bielorussa Svetlana Alexievich ou o poeta sírio Adonis. Se optar pela surpresa literária ou estilística, convoca o holandês Cees Nooteboom, o italiano Umberto Eco, o albanês Ismail Kadaré ou a canadense Alice Munro, autora de contos, género literário que seria distinguido pela primeira vez.
Pelas minhas contas, que podem sair furadas pelos lóbis, será com as obras de um destes autores que os empregados das livrarias vão decorar amanhã as montras.

ANALISTAS

Entre os raros profissionais que têm medrado entre nós nos últimos anos acha-se o analista político. É geralmente um sujeito dado ao pensamento especulativo, cruzamento de rábula e Professor Bambo, com um fundo de parapsicologia e técnicas modernas de adivinhação. Uma espécie de "pensador assalariado", como dizia um amigo meu já desaparecido. Tem avultado também a curiosa figura do politólogo (lá está: político + astrólogo).
Acotovelam-se uns aos outros nas televisões, rádios e jornais. E por cada medida do governo, avançam "convulsões sociais gravíssimas" com a mesma certeza com que o Bruxo de Sanguedo garante o fim do mundo em 2014.
Em que horta estrumada irão desenterrar tantos nabos?

LIVROS & MULHERES (II)

 

DICIONÁRIO

Biblioteca
[do grego bibliothéke]
s.f.
1. Colecção de livros ou manuscritos possuídos por um particular ou para leitura pública.
2. Sala ou edifício onde está essa colecção.
3. Conjunto de estantes ou armários ocupados por livros.
3. Blogue de Bruno Oliveira Santos, um sujeito do piorio e perigoso reincidente na blogosfera.

LIVROS & MULHERES (I)

REGRESSO

A pedido de várias famílias e mães solteiras, regresso à blogosfera. Depois de alimentar um blogue entre 2003 e 2009, sinto-me agora desimpedido de começar outro pela lei da limitação dos mandatos blogosféricos.