O BISTURI, LÍDER FILOSÓFICO

Acaba de ser publicado entre nós o romance inacabado Tudo Passa, de Vassili Grossman, considerado com algum exagero um novo Tolstói, mas escritor de fôlego na arte de narrar a mediocridade e o sofrimento entre os homens.
O livro conta a história de um ex-preso político que regressa a Moscovo ao fim de trinta anos de trabalhos forçados na Sibéria. Na página 185, Grossman interroga-se se era verdadeiramente o amor à humanidade que movia os socialistas e responde que não:
"Um carácter assim comporta-se no meio da humanidade como um cirurgião nas enfermarias da clínica — o seu interesse pelos doentes, pelos seus pais, mulheres e mães, as suas brincadeiras, a sua luta contra o fenómeno da infância desamparada, a sua preocupação com os operários que chegaram à idade da reforma, tudo isso são insignificâncias, treta, casca. A alma do cirurgião está no seu bisturi.
A essência de semelhantes pessoas assenta na fé fanática na omnipotência da faca cirúrgica. O bisturi cirúrgico é um grande teórico, um líder filosófico do século vinte".

TOMÁS

Se o soubessem ler, Tomás de Figueiredo seria um escritor para o nosso tempo. A sua obra é flagrante de actualidade. Os sujeitos que fazem hoje as capas dos jornais estão lá todos, os banqueiros, os oportunistas, os burgueses hipócritas com suas "esposas sem par" a abichar cargos e dinheiro, administradores de não sei quantas empresas públicas, sempre disponíveis para mais um arranjinho.
No magnífico A Gata Borralheira, de 1961, avulta o Dr. Silvério Carvalhal, dilatado na sua mediocridade, com a estúpida da filha em redor: "Agora que o pai já estava em quatro companhias e bancos, director de todos, e que, assim, passava a ter mais tempo livre, menos obrigações e ralações, menos processos a ver à noite, iam finalmente comprar um automóvel (...)"
Se o soubessem ler, disse. Tomás apresenta um vocabulário opulento e castiço, uma prosa a vários títulos inovadora. É um grande mestre da língua, que renovou como poucos, um estilista primoroso, bem diferente da fancaria que por aí se vende agora e recebe prémios. Ele próprio, corrosivo, indicava a regra a seguir pelo romancista português, se pretende imprimir uns milheiros de exemplares e apurar uns cobres: "fuja da Língua Portuguesa, e fuja a toque de caixa". Melhor ainda será que saiba o menos possível do idioma. Não deve pretender que até ele suba o leitor; deve, sim, descer humildemente até às letras gordas do público.
Num tempo de escritores de reduzido vocabulário, resvés do básico, que se amanham com umas dúzias de expressões preguiçosas e já puídas, Tomás brilha e brilha. Ele sabia que escrever é mais do que contar uma história. É fazer do velho novo, esmerilhar a palavra certa, pesá-la sílaba a sílaba, compor vivo e nas quatro dimensões. Exige oficina e custa dezenas de anos.
Possível que um dia se estude a obra de Tomás como ela merece. Por enquanto, ainda é a hora dos promissores talentos analfabetos, dos que tropeçam nas preposições e concordâncias e dos que, num arremedo de consciência, grafam o nome em minúsculas para que fique proporcionado à dimensão literária da obra. 

LIVROS & MULHERES (VIII)

ALMA DO MUNDO


 
[Schopenhauer e Atma, por Wilhelm Busch]
O limite, que o Governo quer impor, de dois cães por apartamento constitui um ataque soez à família tradicional. Há muito que os casais portugueses substituíram os filhos pelos cãezinhos. Com a limitação da prole a dois chihuahuas, extinguem-se por decreto as famílias numerosas.
Do mesmo modo que antigamente se desejavam três varões e três moçoilas, em igualdade de género, subsistiu até hoje o direito a ter três perdigueiros e três pastores alemães todos registados e com fotografia na sala de jantar.
Afinal, num país com reduzidíssima taxa de natalidade, quem senão os cães vai herdar a casota e a dívida ao banco? Quem senão eles, pobres bichos da cidade, encafuados em traseiras de dez metros quadrados, que só quando a Lua passa à perpendicular do pátio à Lua podem ladrar... Pobres e desgraçados bichos que, nos raros minutos de rua, sempre presos à trela, nunca hão-de saber o que seja andar de amores com leviana cadela; como dizia o Tomás de Figueiredo, nunca hão-de conquistá-la em sarrafuscas de onde tornem esbofados com uma orelha rasgada e focinhos a sangrar, mas gloriosos vencedores da refrega.
A ideia do animal como membro da família tem uma ampla tradição na cultura do Ocidente. Schopenhauer, que morreu em 1860, legou todos os bens ao seu cão, um caniche chamado Atma, "alma do mundo". Rendo aqui a minha homenagem ao filósofo e ao cãozinho.

O VERDUGO NOSTÁLGICO


Todo o estudante que escreve sobre carrascos e torturadores deve ler umas dez vezes aquele capítulo do verdugo nostálgico, que o génio de Papini conta no seu livro Gog. Um pobre homem, Tiapa, que durante quarenta anos a fio exercera de verdugo para acabar miseravelmente no desemprego e talvez sem direitos sociais. O seu adágio favorito era: "As costas foram feitas para pancadas e as árvores para forcas".
Diz ele, profundo: "A Europa perdeu o segredo de matar. A adopção dos processos mecânicos é um sintoma da decadência da arte. A guilhotina é rápida, mas muito geométrica e impessoal. O fuzilamento é uma vitória do supérfluo: um esbanjamento inútil (...) Os Estados Unidos, com a cadeira eléctrica, caíram no máximo da abjecção. A electricidade, a força mais espiritual da Natureza, a que dá luz e asas, aviltada a ponto de liquidar assassinos".
Tiapa, sempre compreensivo, no fundo um coração mole, admitia o garrote e o empalamento, métodos apesar de tudo aceitáveis, bem que pálidos em comparação com os tradicionais. O fogo era para ele um dos mais perfeitos instrumentos de justiça: "Tem qualquer coisa de clássico, de poético, de grandioso, que apraz aos olhos e à fantasia". O machado também apresenta os seus méritos. E lamenta-se: "Não compreendo porque há já tanto tempo se não usa a crucificação: era um suplício longo, doloroso e, sobretudo, estético. Hoje, a estética é tida em bem escassa conta".
O pobre carrasco, assim desprezado, despedido, arrumado para um canto, sem que uma manif lhe velasse os direitos adquiridos, sente-se mal, indisposto com o mundo: "Não compreendo o preconceito dos homens civilizados contra o verdugo".

Acaba por desabafar: "Fazem-me falta as cabeças, como o barro e as palhetas ao escultor paralítico; sofro como um violinista cujas mãos tivessem sido decepadas. O meu mal-estar é a prova do amor inextinguível que sempre senti pela arte. Mas os puros artistas sempre foram mal compreendidos e caluniados". E uma lágrima, uma lágrima verdadeira, rolou pela primeira vez do seu olho direito.

NOUVELLES OPPORTUNITÉS

Carrego em mim um lado masoquista que me inquieta. Sim, li a tese. Confesso que perdi a confiança, não direi no mundo, mas pelo menos no ensino superior francês. Mestre, aquilo? Mestre a quilo, talvez.
O modo como despacha em três ou quatro parágrafos a história da tortura é ridículo. 
Na entrevista ao Expresso, dissera que sempre se filiou nas "correntes do consequencialismo"; no livro trata o consequencialismo como adversário (p. 108). 
Na entrevista e no livro, abunda no filósofo de Königsberg, Kant para cima, Kant para baixo, mas na bibliografia da tese chapa apenas a Fundamentação da Metafísica dos Costumes, o tal livro que leu "uma dez vezes". Em vez de ler dez livros de Kant, leu o mesmo livro "umas dez vezes"
Cita Carl Schmitt em diversos passos, mas não apresenta uma única obra do jurista alemão. Todas as citações são apud, vertidas de livros de autores franceses. Qualquer estudante sabe que este tipo de citação é de evitar, ainda para mais numa tese académica.
Encurtando razões: a chamada tese é um trabalhinho menor, nem de licenciatura, repleto de asneiras e lugares-comuns, já muito mastigados e digeridos. Parece ter sido feita à pressa, com omissão de autores que o assunto abordado e a própria linha defendida exigiriam, como Elizabeth Anscombe, Alasdair MacIntyre e John McDowell.

LOU REED (1942-2013)


Compôs algumas das melhores canções da pop. Tanto na fase dos Velvet Underground como a solo. Assisti a concertos dele um par de vezes, primeiro na Expo 98, em Lisboa, por coincidência no dia do meu aniversário, e dois anos depois em Málaga. Além de compositor e guitarrista dotado, revelava um invulgar talento poético, com centelha de génio. Tinha, demais disso, uma característica que aprecio nos grandes inovadores: as suas criações afirmavam-se logo desde a nascença como verdadeiros clássicos. E isso não é para todos.

HOMENS LIVRES

Numa época de manifs sectárias e interesseiras, vale a pena lembrar a génese da revista Homens Livres. Corria o ano de 1923 e, diante da grave crise nacional, as principais figuras do Integralismo Lusitano e da Seara Nova decidiram fundar uma publicação conjunta.
Como mar que unisse e já não separasse, o projecto juntou Antonio Sérgio e António Sardinha, Raul Proença e Pequito Rebelo, Jaime Cortesão e Afonso Lopes Vieira: enfim, republicanos e monárquicos, adeptos da laicização da sociedade e fervorosos católicos, democratas e antidemocratas, revolucionários e contra-revolucionários. No subtítulo todos se afirmaram "livres da finança e dos partidos"
António Sérgio, na nota de abertura, justifica a união de todos aqueles homens de tão diferentes e opostos quadrantes, escrevendo que "a grande linha divisória, nestes nossos dias, não é a que separa as 'direitas' das 'esquerdas'; é, sim, a que distingue (...) os homens do século XX dos homens do século XIX, os vivos dos mortos".
E Sardinha, com nobreza de carácter, adianta: "É lógica, portanto, a nossa aproximação, e com honra o digo, porque, descontadas as divergências, não de pessoas, mas de finalidade, António Sérgio e os seus companheiros marcam na podridão ambiente uma notável reserva de saúde e bravura moral"
Nos momentos de desgraça colectiva, sobretudo nestes, o essencial deve prevalecer sobre o acessório. E o essencial é o que nos une, a memória, o desejo de liberdade, a comunidade de destino. Há 90 anos, integralistas e seareiros deram ao país dividido um exemplo notável de resistência e conciliação. 

A FILOSOFIA E O MATRIMÓNIO

A filosofia e o matrimónio são incompatíveis. Os grandes filósofos foram misóginos. Cada um à sua maneira. Ou eunucos, como Orígenes, ou virgens, como S. Tomás de Aquino, ou celibatários maiores da marca, como Platão, Espinoza, Kant, Schopenhauer e Nietzsche. Ou até onanistas, como Kierkegaard e Leopardi. A epistemologia não suporta cônjuges nem o choro das criancinhas. Um filósofo casado é um filósofo acabado.
Giovanni Papini explicava esta incompatibilidade do seguinte modo: a mulher representa a vida enquanto a filosofia vem a ser uma espécie de morte. Por outras palavras: a mulher é o primado do sentimento e das sensações, ao passo que a filosofia quer ser racionalismo puro.
Perdurou em Portugal por um decénio mal medido um desses case studies, como agora se diz. O pensador cinquentão cede ao casamento e, assim diminuído no contacto com a vida familiar, deixa imediatamente de produzir e escrever. Uma verdadeira desgraça. Já lhe não lampejam novos raciocínios e ideias. Mas, quando tudo parece perdido, o destino amerceia-se do homem, que lá consegue encarrilhar de volta à razão e ao pensamento especulativo. Ainda há finais felizes.

FALAS DE CIVILIZAÇÃO, E DE NÃO DEVER SER

Falas de civilização, e de não dever ser.
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos os que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

[Fernando Pessoa, disfarçado de Alberto Caeiro]

ESCREVER DE PÉ

Num dia (...) — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida (...) E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.

[Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935]

O PENSAMENTO FILOSÓFICO DE JOSÉ SÓCRATES

1. Na extensa entrevista ao Expresso, o antigo primeiro-ministro revela a sua cosmovisão, a propósito da tese de mestrado que apresentou em Paris sobre a tortura nos regimes democráticos.
A cada página transborda o pedantismo chulo e arrogante. Os adversários da merda da política [sic] são corridos de trastes, estupores, pulhas, bandalhos e filhos da mãe. Além dos impropérios, rastilha na peça uma filosofia postiça. A cada virar de folha, agoniza o verdadeiro amor da sabedoria.
Vale a pena examinar essa weltanschauung adquirida em quatro semestres na Sciences Po.


2. Afirma José Sócrates (JS) que sempre se filiou "nas correntes do consequencialismo e do utilitarismo, o utilitarismo de Bentham e de Stuart Mill".
A filosofia do homem, dizia Fichte, depende da espécie de homem que ele é. O homem JS havia de escolher um sistema acorde com o seu timbre moral. Deparou-se-lhe a estrada de Damasco no utilitarismo, que é um positivismo de raiz hedonista.
Como um utilitarista estrito tivesse por força de admitir a tortura em certos casos, por exemplo para obter a confissão de um prisioneiro e evitar um ataque terrorista, JS refugia-se no chamado utilitarismo das regras. É a posição adoptada modernamente pelo filósofo australiano John Jamieson Smart, que JS deve ter lido em Paris. A questão é saber se o chamado utilitarismo das regras representa ainda verdadeiro utilitarismo, sobretudo para alguém que diz filiar-se directamente em Bentham e Stuart Mill.

3. JS reconhece o problema: "Aqui, entro em divergência (...) filio-me no imperativo categórico prático do Kant: nunca utilizar uma pessoa como um meio e sim como um fim em si mesmo".
O modo como fala de utilitarismo e kantismo revela que não domina nem um nem outro. Como pode um utilitarista à Bentham agir segundo o imperativo categórico de Kant?
Mas há mais. Por um lado, JS encara o imperativo categórico como a última palavra da doutrina kantiana. Nada mais inexacto. Ele constitui apenas uma formulação mais precisa do próprio problema, que é procurar como é possível um imperativo categórico. Seria de lhe recomendar, agora que domina o francês, as obras de alguns especialistas, como Victor Delbos: por exemplo, La philosophie Practique de Kant e De Kant aux Postkantiens.
Por outro lado, quando Kant proclama o homem um fim em si mesmo está a referir-se ao homo noumenon, que para ele é sinónimo da universalidade da razão, e não ao homem tout court. Escreve o filósofo de Königsberg: "o homem e, em geral, todo o ser racional existe como fim em si mesmo (…) o imperativo prático será, pois, como se segue: age de tal modo que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na pessoa de outrem, como fim em si mesmo". E mais adiante fala no "princípio da humanidade e de toda a natureza racional em geral como fim em si mesmo".
Os passos citados são da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, livrinho que Sócrates diz que já leu "umas dez vezes", mas que pelo exposto ainda não assimilou por completo.

4. A afirmação de que "não existe pensamento sem acção e vice-versa" mete-o em fofas e afasta-o dos seus mestres. Aproxima-o estranhamente de outras escolas, como o idealismo italiano ou o próprio pragmatismo, na linha de William James.

5. Para JS a tortura é sempre de repelir, mesmo que o direito a institua (como na "tortura legalmente assumida" nos Estados Unidos, após o 11 de Setembro). A tese é pacífica e parece não ter hoje contraditores no mundo civilizado. O problema é que José Sócrates assenta a sua cosmovisão num positivismo, mas para repelir a tortura alega um dever moral, uma ética que supera esse positivismo.
A questão é esta: entende José Sócrates que o direito é apenas o direito positivo, ou seja, o direito vigente numa determina época? Se responde que não, contradiz abertamente a escola em que se diz filiado; se responde que sim, incorre noutra contradição porque não se compreende que tanto a como não-a possam ser igualmente direito.
Os direitos do homem, não os direitos deste ou daquele homem em particular, baseiam-se na natureza do homem, rigorosamente fundamentada, valendo em todos os tempos e lugares. Isto é, só podem ter uma fundamentação jusnaturalista.
Os direitos do homem são, pois, direitos naturais, não estando ad libitum nas mãos de um desenvolvimento histórico que o direito positivo consagre.

6. JS diz que escreveu a tese sob a influência do filósofo Frédéric Gros, "um tipo novo e muito interessante", que foi seu professor. Gros é discípulo de Michel Foucault e tributário do estruturalismo.
Recomeça aqui a porca de torcer o rabo. Como pode um utilitarista das regras, um entusiasta da dignidade humana, conciliar as suas posições com o estruturalismo, que sustenta que o homem é uma invenção recente e com fim anunciado. Leia-se, significativamente, Michel Foucault: "O homem é uma invenção, e uma invenção recente, tal como a arqueologia do nosso pensamento o mostra facilmente. E talvez ela nos indique também o seu próximo fim". (As Palavras e as Coisas, Edições 70, 1991, p. 421).
Sem homem, não há direitos do homem. Não pode haver dignidade humana lá onde se proclama a negação do homem. Seguir este trilho para defender a dignidade intrínseca a cada homem representa um absurdo.
Já agora, é curioso verificar que, em Foucault, o homem é uma invenção perecível, mas a "liberdade humana" representa o motor da história (A Arqueologia do Saber, Almedina, 2005).

7. De tudo isto se extrai que o conhecimento filosófico de JS é ainda incipiente e limitado. A tese, a avaliar pela entrevista, será uma trapalhada igual ao exame domingueiro de Inglês Técnico ou à licenciatura na Universidade Independente. O prefácio é de Lula da Silva, conhecido intelectual brasileiro. Depois do mensalão, o mestradão. Os amigos servem para as ocasiões.
O leitor atento percebe que o ex-governante charla apenas meia dúzia de conceitos lidos à pressa e enfiados a martelo na entrevista. A ignorância e a sandice incutiram-lhe uma filosofia para uso próprio. Não precisa de outra. Quando versa sobre o utilitarismo, o pensamento de Kant, o deontologismo ou a ética da responsabilidade, não são poucas nem pequenas as contradições em que se embrenha.
Tem ainda largos anos pela frente, muito livro, muita noitada, muita directa de estudo árduo, até poder apresentar um sistema coerente e sistematizado. Por enquanto, o seu elo à filosofia consiste apenas no apelido histórico. E já não é mau.

CEM ANOS DE VINICIUS

Faz hoje cem anos que nasceu Vinicius de Moraes. Viciado em boémia e mulheres, aferrou-se à farra e casou-se nove vezes. (Os poetas nunca aprendem à primeira). Foi também um grande apreciador de whisky, o seu melhor amigo — uma espécie de cãozinho engarrafado.
A parceria que firmou com Tom Jobim constituiu, no seu registo próprio, uma das grandes duplas criadoras da música contemporânea. Eu, que nem sou dado à bossa nova, reconheço no letrista de Chega de Saudade ou Pela Luz dos Olhos Teus um compositor de excepção. A Garota de Ipanema foi cantada em várias línguas e por vários intérpretes, de Frank Sinatra a Amy Winehouse, passando por Ella Fitzgerald (que transformou a garota em garoto: The Boy from Ipanema).
Os jovens poetas d'aquém e d'além-mar só teriam a lucrar se frequentassem Vinicius, mesmo que adiram a outras correntes da expressão literária. Ele é o poeta do ritmo e do sentido plástico da palavra. Os seus sonetos denotam o influxo de Camões. Como dizia Manuel Bandeira, há nele o fôlego dos românticos e a liberdade dos modernos. Devido a combinações fónicas e amplos recursos estilísticos, como aliterações e iterações, a poesia de Vinicius, sobre ser cantabile, saía já do papel em notas musicais. Era logo registada como música na maternidade das letras.
 Por isso, foi único.

GAROTA DE IPANEMA


COMO O TEMPO PASSA


Se tivesse de eleger o meu romance de juventude, a escolha seria o extraordinário Comme le Temps Passe, de Robert Brasillach. (Edição portuguesa: Como o Tempo Passa, ed. Ulisseia. A tradução de Paulo Santa Rita, bem que aceitável, apresenta expressões de mau gosto e não verte a grandeza de todos os passos e imagens do original francês).
Trata-se da narrativa admirável das vidas de René e Florence, uma história de juventude e aventura, desejo e tentação, na idade em que tais palavras não assumem outros significados. Comme le Temps Passe é o romance da juventude que foge e simultaneamente renasce
e também o de dois seres que podem procurar-se, perder-se, encontrar-se, sem nunca deixarem de ser feitos um para o outro.
Robert Brasillach compreendeu bem a beleza da juventude
e a melancolia dos que a vêem afastar-se inexoravelmente. Foi fuzilado a 6 de Fevereiro de 1945 por colaboracionismo. Tinha 35 anos. Como o soubessem poeta e romancista da juventude, não lhe permitiram atingir aquela idade em que os homens se costumam tornar velhos. No derradeiro dia, já depois de saber que o indulto fora recusado, terminou o seu ensaio sobre Chénier e as últimas composições dos Poèmes de Fresnes. Releu a narrativa da Paixão em cada um dos quatro Evangelhos. Trouxe à memória, num relance, todas as pessoas que amava. Pensou, com desgosto, no desgosto delas. Aceitou o destino sem um queixume ou fraqueza. E, ao troar da rajada, uniu na sua vida e obra duas chaves da poesia intemporal: a juventude e a morte.

AINDA O ANO LECTIVO (PARA ACABAR)

A professor is a man whose job is to tell students how to solve the problems of life which he himself has tried to avoid by becoming a professor.

[Sujeito que não se quer identificar, mas de propensão cínica]

AINDA O ANO LECTIVO

More often than not the only thing a man gets out of college is himself.

[Anónimo, de tendência pessimista]

MEA CULPA

Os antigos governantes, transmudados em comentadores, acertam quase sempre no diagnóstico, mas enxotam de si qualquer responsabilidade. Parecem aqueles católicos que fazem o mea culpa batendo convictamente no peito dos outros.

LIVROS & MULHERES (V)


VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Talvez por reflexo condicionado, quando ouço falar de violência doméstica lembro-me logo da televisão. É uma das mais eficazes formas de tortura, com a vantagem de ser servida ao domicílio e dispor de uma ampla lista de jogos sádicos. Os aparelhos modernos até já trazem comando.
Depois, meio desiludido, alcanço que a expressão quer significar apenas a violência não consentida do marido sobre a mulher. Ora, o problema da violência, no seu todo, não pode ser parcelado. E, por isso, assaltam-me certas dúvidas. A violência doméstica também inclui a brutalidade das parelhas gay? Os maus-tratos a crianças? A violência dos mais espigadotes contra os pais, avós e vizinhos? E os velhos, maltratados por homens e mulheres, subnutridos, espancados, abandonados — os velhos também podem ser considerados como vítimas de violência doméstica?

O assunto ultrapassa as paredes da casa. No fundo, a violência doméstica é a nossa forma de regime: o povinho a apanhar pela medida grande, sem ter sequer uma linha de apoio à vítima que o console.

CAROLINE SAYS II


 
Caroline says
as she gets up off the floor
Why is it that you beat me
it isn't any fun
 

Caroline says

as she makes up her eyes
You ought to learn more about yourself
think more than just I

But she's not afraid to die
all her friends call her Alaska
When she takes speed, they laugh and ask her

What is in her mind

what is in her mind  

Caroline says
as she gets up from the floor
You can hit me all you want to
but I don't love you anymore
 

Caroline says
while biting her lip
Life is meant to be more than this
and this is a bum trip


But she's not afraid to die

all her friends call her Alaska
When she takes speed, they laugh and ask her
What is in her mind
what is in her mind

She put her fist through the window pane
It was such a funny feeling

It's so cold in Alaska
it's so cold in Alaska
It's so cold in Alaska
 

[Lou Reed]

LIVROS & MULHERES (IV)


SINGELA PROPOSTA

Andou bem a Antígona ao editar Singela Proposta e Outros Textos Satíricos, de Jonathan Swift. O autor de As Viagens de Gulliver foi um satirista de mão cheia. O texto principal merece ser lido nestes tempos de austeridade e tróica. Escrito em 1729, quando Swift contava já 62 anos, retrata uma Irlanda de miséria e fome ante a indiferença das autoridades britânicas. O paralelo com a actual situação portuguesa é flagrante: os irlandeses forçados à emigração para a ilha de Barbados, como os lusos para Angola e outras paragens; impedidos também de cultivar livremente o solo, porque a Inglaterra impunha restrições severas, tal como Bruxelas nos impõe hoje as quotas.
A poder de ironia e mordacidade vibrante, Swift engendra uma solução para as crianças que se convertem num fardo difícil de carregar: "Foi-me garantido em Londres por um americano dos meus conhecimentos, homem muito instruído, que uma criança saudável e bem alimentada constitui, com um ano de idade, alimento delicioso, nutritivo e saudável, quer estufada, quer assada, quer cozida no forno, quer escalfada; e não tenho dúvidas de que também será possível cozinhá-la em fricassé ou em guisado".
As vantagens do projecto são expostas em termos que agradariam aos nossos credores: "(…) sabendo que o sustento de cem mil crianças de dois anos de idade ou mais velhas não poderá custar menos de dois xelins por cabeça e por ano, a riqueza da nação será assim aumentada em cinquenta mil libras anuais".
Um bom livro, não recomendável a membros da tróica e do Governo, pessoas sensíveis, grávidas e, last but not least, ingleses. 

PREPARADO PARA O ANO LECTIVO

Assumo a robustez física como condição de sobrevivência na sala de aula. Por outro lado, ser negro é uma grande vantagem para lidar com minorias. A maioria do corpo docente são mulheres de etnia portuguesa. Se alguém estiver interessado em perceber o que é a violência sobre as mulheres é entrar numa sala de aula. Combater a violência contra as mulheres é combater a indisciplina nas escolas. Mas o que temos é um discurso académico politicamente correcto que, ao mesmo tempo que defende a condição da mulher, defende exageradamente a condição do aluno que massacra essa mulher. Os governos passam e este problema arrasta-se. Devíamos ter vergonha disso.
 
[Gabriel Mithá Ribeiro, professor de História, em entrevista ao i]

ANO LECTIVO

Education is an admirable thing, but it is well to remember from time to time that nothing that is worth knowing can be taught.

[Oscar Wilde]