
A CIGARRA E A FORMIGA
A cigarra passou o Verão a divertir-se
Sempre em bares de strip, a vestir-se, a despir-se,
O cigarro na boca e um copo na mão
— E mais cem euros na conta por cada actuação.
Ofereceu a si mesma um jipe no aniversário
E cinco assoalhadas em regime hipotecário.
Vestia da Versace
E da Sonia Rykiel;
Sempre à la page,
Rescendia a Chanel.
A formiga, ao invés, era uma desgraçada:
Não tinha carro, não tinha tecto, não tinha nada.
Conseguiu o mestrado com basta canseira;
Ficou desempregada sem eira nem beira...
Um dia, após tanto penar,
A casa da outra quis ir desabafar:
"Ouve, cigarra,
O mundo é cão:
Tu na farra,
Eu sem tostão;
Tanta dor, tanto estudo
E estafa...
E depois disto tudo,
Nada...
Sinto que há na minha alma um vácuo imenso e fundo,
Já pensei suicidar-me, afastar-me do mundo..."
"Não chores a tristeza e menos a amargura,
O mundo é mesmo assim, a vida é sempre dura",
Explicou-lhe a cigarra em tom de afectuosa amizade
Como se fora um conto dos mil e um de Xerazade.
"Bem me pareceu no fim do 9.º ano
Que o ideal seria um futuro menos espartano...!
Perfilha o meu divino exemplo
E faz da noite um Templo.
Acredita, formiga:
Deus, quando abre à mulher as portas desta vida,
Ampara-a dia-a-dia, fá-la sua protegida,
Porque todas temos um dom"
(E aqui discretamente passou-lhe o bâton).
"Comecei no Ano Novo e, desde Janeiro,
Iluminou-me sempre o luar do dinheiro.
Antes quero ir assim construindo o meu Céu
Do que esperar pelo modelo social europeu.
Às vezes, é preciso olhar por cima do umbigo;
Se precisas de ajuda, podes vir comigo".
Dirigiram-se as duas para uma casa de alterne
E o primeiro cliente foi o senhor La Fontaine.
Sempre em bares de strip, a vestir-se, a despir-se,
O cigarro na boca e um copo na mão
— E mais cem euros na conta por cada actuação.
Ofereceu a si mesma um jipe no aniversário
E cinco assoalhadas em regime hipotecário.
Vestia da Versace
E da Sonia Rykiel;
Sempre à la page,
Rescendia a Chanel.
A formiga, ao invés, era uma desgraçada:
Não tinha carro, não tinha tecto, não tinha nada.
Conseguiu o mestrado com basta canseira;
Ficou desempregada sem eira nem beira...
Um dia, após tanto penar,
A casa da outra quis ir desabafar:
"Ouve, cigarra,
O mundo é cão:
Tu na farra,
Eu sem tostão;
Tanta dor, tanto estudo
E estafa...
E depois disto tudo,
Nada...
Sinto que há na minha alma um vácuo imenso e fundo,
Já pensei suicidar-me, afastar-me do mundo..."
"Não chores a tristeza e menos a amargura,
O mundo é mesmo assim, a vida é sempre dura",
Explicou-lhe a cigarra em tom de afectuosa amizade
Como se fora um conto dos mil e um de Xerazade.
"Bem me pareceu no fim do 9.º ano
Que o ideal seria um futuro menos espartano...!
Perfilha o meu divino exemplo
E faz da noite um Templo.
Acredita, formiga:
Deus, quando abre à mulher as portas desta vida,
Ampara-a dia-a-dia, fá-la sua protegida,
Porque todas temos um dom"
(E aqui discretamente passou-lhe o bâton).
"Comecei no Ano Novo e, desde Janeiro,
Iluminou-me sempre o luar do dinheiro.
Antes quero ir assim construindo o meu Céu
Do que esperar pelo modelo social europeu.
Às vezes, é preciso olhar por cima do umbigo;
Se precisas de ajuda, podes vir comigo".
Dirigiram-se as duas para uma casa de alterne
E o primeiro cliente foi o senhor La Fontaine.
A CRISE EXPLICADA AOS INSECTOS
Num
dia de inverno uma Cigarra esfomeada pediu a uma Formiga um pouco de comida que
esta tinha armazenado.
— O quê? — disse a Formiga — Não trataste de armazenar alguma comida para ti, em vez de estares sempre a cantar?
— Assim fiz — respondeu a Cigarra —, assim fiz; mas as tuas amigas entraram por minha casa adentro e levaram-ma toda.
— O quê? — disse a Formiga — Não trataste de armazenar alguma comida para ti, em vez de estares sempre a cantar?
— Assim fiz — respondeu a Cigarra —, assim fiz; mas as tuas amigas entraram por minha casa adentro e levaram-ma toda.
[Ambrose Bierce, Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas]
AMBROSE BIERCE
O escritor Ambrose Bierce, émulo de Mark Twain e H.L.
Mencken, foi um mestre do humor e do pessimismo.
As suas fábulas apresentam simultaneamente um carácter alegórico, moral e cínico. Polemista brilhante, desapareceu sem deixar rasto em 1914. Escreveu
o célebre Dicionário do Diabo, mas tem outras obras traduzidas para português,
como Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek e Esopo Emendado & Outras
Fábulas Fantásticas. É um autor para revisitar nos nossos dias.
OS BUFOS
O bobo
medieval bracejou em tanta cópia que foi preciso dar nome às espécies. Surgiram
o jogral, o truão, o arlequim, o palhaço e, por derradeiro, o humorista — um
sujeito que, dotado de talento motejador, faz rir o público e é aplaudido à
gargalhada. Tais qualidades não o distinguem hoje do comum dos políticos e é
decerto por isso que muito aspirante a humorista, para ganhar a vida, preferiu
a política ao chiste.
Bruno
Nogueira e Ricardo Araújo Pereira são exemplo dos que optaram pela política. A
escolha é legítima mas deve prevenir-se o consumidor para que não compre gato
por lebre. Os dois rapazes alapardaram-se em rubricas ditas de humor para esguichar o fel da ideologia. A
diatribe do granjola de barba intonsa contra Margarida Rebelo Pinto é uma
canalhice sem nome. Nem sequer humor fraquinho, mas apenas chuva de
impropérios, cuspidos de enfiada e com voz irritante e
desnatural. Ao denunciar a opinião da senhora, num burlesco de fundo
ideológico, alcança um dos significados de bobo: o de bufo ou bufão. Raio
de país em que os humoristas se dedicam à política e os políticos é que nos
fazem rir.
Já
Ricardo Araújo Pereira e os outros gatos andam calados de humor porque se lhes
deve ter esgotado o saco de piadas roubadas na estranja. Falsários geniais da
piada postiça, montaram tenda de contrabando nos órgãos de comunicação. Dos
genéricos aos textos, tudo lhes chega à socapa lá de fora. As piadas que aviam
ao público português chegam já ressessas, em segunda mão, impróprias para
consumo, entesouradas à sorrelfa do repertório alheio.
Humoristas
oficiais do regime, são também eles um dos rostos da crise.
Se tivessem consciência capaz de rebates, há muito teriam largado o ofício
e, envergonhados, para se desemburrarem nas noções elementares do mister, deitavam-se
a ver os vídeos do melhor humor contemporâneo, dos Monty Python ao Seinfeld e às criações de Ricky Gervais. E
estudariam também a história do humor luso, que vem de Mestre Gil e Tomás de Noronha, visita o Eça e o André Brun e, por este andar, não há-de passar por eles. As próprias anotações de Leite de Vasconcelos sobre a matéria na sua Etnografia Portuguesa ainda agora merecem ser lidas.
Um
humorista travestido de político é sempre um falhado. Se é político e
plagiário, pior. De toda a fancaria que grava hão-de ficar apenas os perdigotos
gosmados pelo ódio ideológico. Dá vontade de chorar, não de rir.
NORMA E NORMAN
Faz hoje seis anos que morreu Norman Mailer. Nunca percebi o menosprezo a que foi votado por alguns críticos. Certo que o homem era antipático e um tanto doidivanas. Casou-se cinco vezes, teve nove filhos, bebeu álcool e consumiu drogas à farta — e ainda esfaqueou uma das ex-mulheres numa discussão. Tinha obsessões despropositadas e maníacas. Mas esse era o maluquinho fichado das biografias sensacionalistas. O Norman literário revela-se mais importante.
Boa parte da literatura norte-americana não é bem literatura,
mas jornalismo vendido em livros. Norman Mailer insere-se na tendência, mas
pelo menos escreve bom jornalismo, dentro da chamada não-ficção criativa, o
new journalism, em que se distinguiram igualmente Truman Capote e
Tom Wolfe. E, atrevo-me a dizê-lo, o próprio David Foster Wallace, não o dos
contos e romances, mas o dos ensaios sobre David Lynch e sobre a língua inglesa, por exemplo.
É neste quadro que Mailer merece ser estudado. A sua biografia de Marilyn Monroe, publicada em 1973, inculpa o FBI e a CIA na morte da actriz, devido ao suposto romance com o senador Robert Kennedy. A tese pode parecer arrevesada, mas se pensarmos que a CIA, por essa altura, elaborou planos para matar Patrice Lumumba, do Congo, Fidel Castro, de Cuba, Abdul Kassem, do Iraque, Rafael Trujillo, da República Dominicana, Ngo Dinh, do Vietname, e René Schneider, do Chile, não custa acreditar que também tivesse despachado uma loura frágil de 36 anos, encafuada a barbitúricos. Eu, nestas matérias, já de nada pasmo, tudo acho possível — e quanto mais absurdo, mais de acreditar.
Em O Fantasma de Harlot, já Mailer se tinha entranhado nos labirintos da CIA, uma teia de ambições, ardis, crimes e violência. Foi, no mínimo, um bom jornalista que escreveu bons livros. Merece ser lido.
É neste quadro que Mailer merece ser estudado. A sua biografia de Marilyn Monroe, publicada em 1973, inculpa o FBI e a CIA na morte da actriz, devido ao suposto romance com o senador Robert Kennedy. A tese pode parecer arrevesada, mas se pensarmos que a CIA, por essa altura, elaborou planos para matar Patrice Lumumba, do Congo, Fidel Castro, de Cuba, Abdul Kassem, do Iraque, Rafael Trujillo, da República Dominicana, Ngo Dinh, do Vietname, e René Schneider, do Chile, não custa acreditar que também tivesse despachado uma loura frágil de 36 anos, encafuada a barbitúricos. Eu, nestas matérias, já de nada pasmo, tudo acho possível — e quanto mais absurdo, mais de acreditar.
Em O Fantasma de Harlot, já Mailer se tinha entranhado nos labirintos da CIA, uma teia de ambições, ardis, crimes e violência. Foi, no mínimo, um bom jornalista que escreveu bons livros. Merece ser lido.
AZAR
Precisou de 20 anos para descobrir que lhe faltava talento literário. Mas já era tarde: tinha-se tornado um escritor célebre.
MARX, FREUD E ERICA FONTES
Dois profetas dos tempos modernos, Marx e Freud, deixaram rasto não apenas no
campo económico e clínico, mas também na área da literatura. Marxismo e
freudismo apoderaram-se de tal modo da ficção que, por anos e anos, custou descobrir
um romance em que as personagens não fossem vítimas da exploração económica ou
da opressão da libido. Em certos volumes, acumulavam. O prosador sabia que, para
obter a aprovação geral, preciso era apresentar a protagonista sob as
garras do patrão explorador ou debaixo de um marmanjo lascivo.
Como o tema neo-realista passou um tanto de moda, perdurou o sexo. O problema é que não é fácil escrever sobre sexo. Por via de regra, as descrições são foleiras. Os brasileiros superam-nos de largo. Não encontro na literatura lusa a obscenidade estilística de um João Ubaldo Ribeiro ou a sensualidade matizada de um Rubem Fonseca. Por cá, abunda um registo de exageros e lugares-comuns. Os homens têm sempre "erecções gigantescas", "erecções colossais", por vezes ao primeiro olhar, e as mulheres, todos os dias "insinuantes" e "insaciáveis", atingem "orgasmos sucessivos" e "violentos".
Por isso mergulhei com esperança na autobiografia de Erica Fontes, a nossa pornstar emigrada em Los Angeles. Não esperava dela, ou de quem escreveu o livro, um estilo elegante e primoroso, mas pelo menos algum realismo fisiológico e de costumes. Uma desilusão. Descobri logo, ao fim das primeiras páginas, que a miúda está é apaixonada pelo namorado. Há por ali passos melosos e quase poéticos da sua relação com o rapaz. Ora, para essas melopeias da paixão já tínhamos a Maria Teresa Horta. De uma actriz pornográfica, galardoada com um prémio XBIZ, que é uma espécie de óscar do género, esperava mais. A sério que esperava.
Como o tema neo-realista passou um tanto de moda, perdurou o sexo. O problema é que não é fácil escrever sobre sexo. Por via de regra, as descrições são foleiras. Os brasileiros superam-nos de largo. Não encontro na literatura lusa a obscenidade estilística de um João Ubaldo Ribeiro ou a sensualidade matizada de um Rubem Fonseca. Por cá, abunda um registo de exageros e lugares-comuns. Os homens têm sempre "erecções gigantescas", "erecções colossais", por vezes ao primeiro olhar, e as mulheres, todos os dias "insinuantes" e "insaciáveis", atingem "orgasmos sucessivos" e "violentos".
Por isso mergulhei com esperança na autobiografia de Erica Fontes, a nossa pornstar emigrada em Los Angeles. Não esperava dela, ou de quem escreveu o livro, um estilo elegante e primoroso, mas pelo menos algum realismo fisiológico e de costumes. Uma desilusão. Descobri logo, ao fim das primeiras páginas, que a miúda está é apaixonada pelo namorado. Há por ali passos melosos e quase poéticos da sua relação com o rapaz. Ora, para essas melopeias da paixão já tínhamos a Maria Teresa Horta. De uma actriz pornográfica, galardoada com um prémio XBIZ, que é uma espécie de óscar do género, esperava mais. A sério que esperava.
UMA AGULHA NO PALHEIRO
Se elegi Comme le Temps Passe como romance da juventude, dou lugar de relevo dentro do género a Uma Agulha no Palheiro [The Catcher in the Rye, no original, também traduzido como À Espera no Centeio], de J. D. Salinger. Um livro admirável, um grande romance, que começou por ser proibido nas bibliotecas públicas e acabou como leitura obrigatória nos currículos de liceu.
Sem atingir a dimensão mítica de Brasillach, o escritor norte-americano criou Holden Caulfield, uma personagem extraordinária de perspicácia e rebeldia: um herói juvenil que, depois de expulso do colégio caro que frequenta, expressa o seu desprezo pelo mundo falso e burguês dos adultos, enquanto vagueia por Nova Iorque.
O sucesso de Uma Agulha no Palheiro fez que J. D. Salinger se mudasse de Manhattan para uma casa de campo no New Hampshire, onde viveu até à morte. Quando ia aos restaurantes locais, comia na cozinha, para evitar o contacto com as pessoas. Em vez de enfrentar o mundo, como o herói da sua ficção, escondeu-se do mundo. Há revoltas que só funcionam na literatura.
CURSO DE NOIVOS
Nelson Mandela esteve preso quase 30 anos. Foi condenado a trabalhos forçados.
Parece que chegou a ser torturado. Aguentou esse regime, década após década, sem um queixume ou fraqueza.
Em 1990, é libertado. Regressa a casa. E ao fim de seis meses com a mulher, diz: "I can't take this shit no more!"
Em 1990, é libertado. Regressa a casa. E ao fim de seis meses com a mulher, diz: "I can't take this shit no more!"
Era deste modo que eu começaria aqueles cursos de noivos ministrados nas paróquias.
Suporta-se o cárcere porque se vai já preparado para o sofrimento. De um
sistema prisional espera-se sempre o pior. Mas o que condena
irremediavelmente os homens livres é a ilusão da felicidade.
SAIA UM RENAUDOT PARA GABRIEL MATZNEFF
O escritor francês Gabriel
Matzneff, de 76 anos, ganhou ontem o prestigiado Prémio Renaudot, na categoria
de ensaio, com o livro Séraphin, c'est la fin! — que reúne artigos e crónicas que
escreveu em várias publicações de 1964 a 2012.
Amigo de Hergé e Cioran, conviveu também com o grande Henry de Montherlant, de quem espalhou as cinzas em 1972. Defendeu à outrance o mérito do Les Deux Étendards, de Lucien Rebatet, afastado das estantes por motivos pouco literários. Meio anarquista, dá-se bem com Alain de Benoist e colabora na revista Éléments.
Os editores portugueses não o conhecem, mas Matzneff é um dos mais originais escritores da actualidade, com uma obra própria de cunho exclusivo, bem diferente daqueles recidivistas marcados da pirataria literária.
Amigo de Hergé e Cioran, conviveu também com o grande Henry de Montherlant, de quem espalhou as cinzas em 1972. Defendeu à outrance o mérito do Les Deux Étendards, de Lucien Rebatet, afastado das estantes por motivos pouco literários. Meio anarquista, dá-se bem com Alain de Benoist e colabora na revista Éléments.
Os editores portugueses não o conhecem, mas Matzneff é um dos mais originais escritores da actualidade, com uma obra própria de cunho exclusivo, bem diferente daqueles recidivistas marcados da pirataria literária.
Mas a atribuição do
prémio pode gerar polémica. É da sabença geral: no melhor pano cai a nódoa. Matzneff
é um pedófilo notório, como se topa em obras como Les Moins de Seize Ans ou Mes
Amours Décomposés — e ainda nas páginas
dos seus diários, que narram aventuras de turismo sexual nas Filipinas, com
jovens de 14 e 15 anos. Não perfilo na ala dos moralistas, criaturas sempre exigentes
no cumprimento da virtude alheia, mas confesso não vou tão longe na
liberalidade. Matzneff enfrenta o tema e diz que é precioso distinguir a
violação de uma criança de 8 anos, que ele condena, do acto consentido de um
jovem de 15. Haveria que distinguir entre pedofilia e efebofilia. Creio que,
nestes ou noutros termos, a questão vai ser uma causa fracturante a ser
debatida proximamente. A obra do francês serve de introdução ao tema.
A mancha não apeou André
Gide ou Oscar Wilde do panteão da literatura. Nabokov continua a vender que nem
ginjas. E a Matzneff é de conceder pelo menos o benefício da dúvida literária. Provocador,
iconoclasta, grande estilista, talvez o maior entre os polígrafos franceses
vivos, não merece que a obra seja empanada pelos vícios privados. Cuspir-lhe-ão
decerto os epítetos infamantes, mas
nisto da literatura os críticos ladram e o génio passa.
UMA ESPÉCIE DE POSTAL DE SÉTIMO DIA
MORANGOS COM AÇÚCAR
O sucesso das
séries juvenis tem uma explicação medicinal. As novas gerações não imaginam como
era, há 30 anos, a pele da juventude portuguesa. Hoje, o acne desapareceu, não
direi da crosta terrestre, mas pelo menos da epiderme lusa. Já não se vê, na
cara de ninguém, uma única espinha. Ao primeiro sinal de inflamação, as mães
levam as crias ao dermatologista, que lhes alisa a pele a poder de
isotretinoína e outras drogas. Não há nada mais repelente do que beijar uma
cara cheia de acne, com espinhas que rebentam ao contacto dos lábios
apaixonados.
Esses êxitos televisivos com actores de 16 anos devem-se aos dermatologistas e às multinacionais farmacêuticas.
O BISTURI, LÍDER FILOSÓFICO
Acaba de ser publicado entre nós o romance inacabado Tudo
Passa, de Vassili Grossman, considerado com algum exagero um novo
Tolstói, mas escritor de fôlego na arte de narrar a mediocridade e o
sofrimento entre os homens.
O livro conta a história de um ex-preso político que regressa a Moscovo ao fim de trinta anos de trabalhos forçados na Sibéria. Na página 185, Grossman interroga-se se era verdadeiramente o amor à humanidade que movia os socialistas e responde que não:
O livro conta a história de um ex-preso político que regressa a Moscovo ao fim de trinta anos de trabalhos forçados na Sibéria. Na página 185, Grossman interroga-se se era verdadeiramente o amor à humanidade que movia os socialistas e responde que não:
"Um carácter assim comporta-se no meio da humanidade como um
cirurgião nas enfermarias da clínica — o seu interesse pelos doentes, pelos
seus pais, mulheres e mães, as suas brincadeiras, a sua luta contra o fenómeno
da infância desamparada, a sua preocupação com os operários que chegaram à
idade da reforma, tudo isso são insignificâncias, treta, casca. A alma do
cirurgião está no seu bisturi.
A essência de semelhantes pessoas assenta na fé fanática na
omnipotência da faca cirúrgica. O bisturi cirúrgico é um grande teórico, um
líder filosófico do século vinte".
TOMÁS
Se o soubessem ler, Tomás de Figueiredo seria um escritor para o nosso tempo. A
sua obra é flagrante de actualidade. Os sujeitos que fazem hoje as capas dos
jornais estão lá todos, os banqueiros, os oportunistas, os burgueses hipócritas
com suas "esposas sem par" a abichar cargos e dinheiro, administradores de não
sei quantas empresas públicas, sempre disponíveis para mais um arranjinho.
No magnífico A Gata Borralheira, de 1961, avulta o Dr. Silvério Carvalhal, dilatado na sua mediocridade, com a estúpida da filha em redor: "Agora que o pai já estava em quatro companhias e bancos, director de todos, e que, assim, passava a ter mais tempo livre, menos obrigações e ralações, menos processos a ver à noite, iam finalmente comprar um automóvel (...)"
No magnífico A Gata Borralheira, de 1961, avulta o Dr. Silvério Carvalhal, dilatado na sua mediocridade, com a estúpida da filha em redor: "Agora que o pai já estava em quatro companhias e bancos, director de todos, e que, assim, passava a ter mais tempo livre, menos obrigações e ralações, menos processos a ver à noite, iam finalmente comprar um automóvel (...)"
Se o soubessem ler,
disse. Tomás apresenta um vocabulário opulento e castiço, uma prosa a vários
títulos inovadora. É um grande mestre da língua, que renovou como poucos, um
estilista primoroso, bem diferente da fancaria que por aí se vende agora e recebe
prémios. Ele próprio, corrosivo, indicava a regra a seguir pelo romancista
português, se pretende imprimir uns milheiros de exemplares e apurar uns cobres:
"fuja da Língua Portuguesa, e fuja a toque de caixa". Melhor ainda será que
saiba o menos possível do idioma. Não deve pretender que até ele suba o leitor;
deve, sim, descer humildemente até às letras gordas do público.
Num tempo de escritores de reduzido vocabulário, resvés do básico, que se amanham com umas dúzias de expressões preguiçosas e já puídas, Tomás brilha e brilha. Ele sabia que escrever é mais do que contar uma história. É fazer do velho novo, esmerilhar a palavra certa, pesá-la sílaba a sílaba, compor vivo e nas quatro dimensões. Exige oficina e custa dezenas de anos.
Possível que um dia se estude a obra de Tomás como ela merece. Por enquanto, ainda é a hora dos promissores talentos analfabetos, dos que tropeçam nas preposições e concordâncias — e dos que, num arremedo de consciência, grafam o nome em minúsculas para que fique proporcionado à dimensão literária da obra.
Num tempo de escritores de reduzido vocabulário, resvés do básico, que se amanham com umas dúzias de expressões preguiçosas e já puídas, Tomás brilha e brilha. Ele sabia que escrever é mais do que contar uma história. É fazer do velho novo, esmerilhar a palavra certa, pesá-la sílaba a sílaba, compor vivo e nas quatro dimensões. Exige oficina e custa dezenas de anos.
Possível que um dia se estude a obra de Tomás como ela merece. Por enquanto, ainda é a hora dos promissores talentos analfabetos, dos que tropeçam nas preposições e concordâncias — e dos que, num arremedo de consciência, grafam o nome em minúsculas para que fique proporcionado à dimensão literária da obra.
ALMA DO MUNDO
[Schopenhauer e Atma, por Wilhelm Busch]
O limite,
que o Governo quer impor, de dois cães por apartamento constitui um ataque soez
à família tradicional. Há muito que os casais portugueses substituíram os
filhos pelos cãezinhos. Com a limitação da prole a dois chihuahuas, extinguem-se por decreto as
famílias numerosas.
Do mesmo modo que antigamente se desejavam três varões e três moçoilas, em igualdade de género, subsistiu até hoje o direito a ter três perdigueiros e três pastores alemães — todos registados e com fotografia na sala de jantar.
Afinal, num país com reduzidíssima taxa de natalidade, quem senão os cães vai herdar a casota e a dívida ao banco? Quem senão eles, pobres bichos da cidade, encafuados em traseiras de dez metros quadrados, que só quando a Lua passa à perpendicular do pátio à Lua podem ladrar... Pobres e desgraçados bichos que, nos raros minutos de rua, sempre presos à trela, nunca hão-de saber o que seja andar de amores com leviana cadela; como dizia o Tomás de Figueiredo, nunca hão-de conquistá-la em sarrafuscas de onde tornem esbofados com uma orelha rasgada e focinhos a sangrar, mas gloriosos vencedores da refrega.
A ideia do animal como membro da família tem uma ampla tradição na cultura do Ocidente. Schopenhauer, que morreu em 1860, legou todos os bens ao seu cão, um caniche chamado Atma, "alma do mundo". Rendo aqui a minha homenagem ao filósofo e ao cãozinho.
Do mesmo modo que antigamente se desejavam três varões e três moçoilas, em igualdade de género, subsistiu até hoje o direito a ter três perdigueiros e três pastores alemães — todos registados e com fotografia na sala de jantar.
Afinal, num país com reduzidíssima taxa de natalidade, quem senão os cães vai herdar a casota e a dívida ao banco? Quem senão eles, pobres bichos da cidade, encafuados em traseiras de dez metros quadrados, que só quando a Lua passa à perpendicular do pátio à Lua podem ladrar... Pobres e desgraçados bichos que, nos raros minutos de rua, sempre presos à trela, nunca hão-de saber o que seja andar de amores com leviana cadela; como dizia o Tomás de Figueiredo, nunca hão-de conquistá-la em sarrafuscas de onde tornem esbofados com uma orelha rasgada e focinhos a sangrar, mas gloriosos vencedores da refrega.
A ideia do animal como membro da família tem uma ampla tradição na cultura do Ocidente. Schopenhauer, que morreu em 1860, legou todos os bens ao seu cão, um caniche chamado Atma, "alma do mundo". Rendo aqui a minha homenagem ao filósofo e ao cãozinho.
O VERDUGO NOSTÁLGICO
Todo o estudante que escreve sobre carrascos e torturadores deve ler umas dez vezes aquele capítulo do verdugo nostálgico, que o génio de Papini conta no seu livro Gog. Um pobre homem, Tiapa, que
durante quarenta anos a fio exercera de verdugo para acabar miseravelmente no desemprego e talvez sem direitos sociais. O seu adágio favorito era: "As costas foram feitas para pancadas e
as árvores para forcas".
Diz ele, profundo: "A Europa perdeu o segredo de matar. A adopção dos processos mecânicos é um sintoma da decadência da arte. A guilhotina é rápida, mas muito geométrica e impessoal. O fuzilamento é uma vitória do supérfluo: um esbanjamento inútil (...) Os Estados Unidos, com a cadeira eléctrica, caíram no máximo da abjecção. A electricidade, a força mais espiritual da Natureza, a que dá luz e asas, aviltada a ponto de liquidar assassinos".
Tiapa, sempre compreensivo, no fundo um coração mole, admitia o garrote e o empalamento, métodos apesar de tudo aceitáveis, bem que pálidos em comparação com os tradicionais. O fogo era para ele um dos mais perfeitos instrumentos de justiça: "Tem qualquer coisa de clássico, de poético, de grandioso, que apraz aos olhos e à fantasia". O machado também apresenta os seus méritos. E lamenta-se: "Não compreendo porque há já tanto tempo se não usa a crucificação: era um suplício longo, doloroso e, sobretudo, estético. Hoje, a estética é tida em bem escassa conta".
O pobre carrasco, assim desprezado, despedido, arrumado para um canto, sem que uma manif lhe velasse os direitos adquiridos, sente-se mal, indisposto com o mundo: "Não compreendo o preconceito dos homens civilizados contra o verdugo".
Acaba por desabafar: "Fazem-me falta as cabeças, como o barro e as palhetas ao escultor paralítico; sofro como um violinista cujas mãos tivessem sido decepadas. O meu mal-estar é a prova do amor inextinguível que sempre senti pela arte. Mas os puros artistas sempre foram mal compreendidos e caluniados". E uma lágrima, uma lágrima verdadeira, rolou pela primeira vez do seu olho direito.
Diz ele, profundo: "A Europa perdeu o segredo de matar. A adopção dos processos mecânicos é um sintoma da decadência da arte. A guilhotina é rápida, mas muito geométrica e impessoal. O fuzilamento é uma vitória do supérfluo: um esbanjamento inútil (...) Os Estados Unidos, com a cadeira eléctrica, caíram no máximo da abjecção. A electricidade, a força mais espiritual da Natureza, a que dá luz e asas, aviltada a ponto de liquidar assassinos".
Tiapa, sempre compreensivo, no fundo um coração mole, admitia o garrote e o empalamento, métodos apesar de tudo aceitáveis, bem que pálidos em comparação com os tradicionais. O fogo era para ele um dos mais perfeitos instrumentos de justiça: "Tem qualquer coisa de clássico, de poético, de grandioso, que apraz aos olhos e à fantasia". O machado também apresenta os seus méritos. E lamenta-se: "Não compreendo porque há já tanto tempo se não usa a crucificação: era um suplício longo, doloroso e, sobretudo, estético. Hoje, a estética é tida em bem escassa conta".
O pobre carrasco, assim desprezado, despedido, arrumado para um canto, sem que uma manif lhe velasse os direitos adquiridos, sente-se mal, indisposto com o mundo: "Não compreendo o preconceito dos homens civilizados contra o verdugo".
Acaba por desabafar: "Fazem-me falta as cabeças, como o barro e as palhetas ao escultor paralítico; sofro como um violinista cujas mãos tivessem sido decepadas. O meu mal-estar é a prova do amor inextinguível que sempre senti pela arte. Mas os puros artistas sempre foram mal compreendidos e caluniados". E uma lágrima, uma lágrima verdadeira, rolou pela primeira vez do seu olho direito.
NOUVELLES OPPORTUNITÉS
Carrego em mim um lado masoquista que me inquieta. Sim, li a tese. Confesso que perdi a confiança, não direi no mundo, mas pelo menos no ensino superior francês. Mestre, aquilo? Mestre a quilo, talvez.
O modo como despacha em três ou quatro parágrafos a história da tortura é ridículo.
Na entrevista ao Expresso, dissera que sempre se filiou nas "correntes do consequencialismo"; no livro trata o consequencialismo como adversário (p. 108).
Na entrevista e no livro, abunda no filósofo de Königsberg, Kant para cima, Kant para baixo, mas na bibliografia da tese chapa apenas a Fundamentação da Metafísica dos Costumes, o tal livro que leu "uma dez vezes". Em vez de ler dez livros de Kant, leu o mesmo livro "umas dez vezes".
Cita Carl Schmitt em diversos passos, mas não apresenta uma única obra do jurista alemão. Todas as citações são apud, vertidas de livros de autores franceses. Qualquer estudante sabe que este tipo de citação é de evitar, ainda para mais numa tese académica.
Encurtando razões: a chamada tese é um trabalhinho menor, nem de licenciatura, repleto de asneiras e lugares-comuns, já muito mastigados e digeridos. Parece ter sido feita à pressa, com omissão de autores que o assunto abordado e a própria linha defendida exigiriam, como Elizabeth Anscombe, Alasdair MacIntyre e John McDowell.
O modo como despacha em três ou quatro parágrafos a história da tortura é ridículo.
Na entrevista ao Expresso, dissera que sempre se filiou nas "correntes do consequencialismo"; no livro trata o consequencialismo como adversário (p. 108).
Na entrevista e no livro, abunda no filósofo de Königsberg, Kant para cima, Kant para baixo, mas na bibliografia da tese chapa apenas a Fundamentação da Metafísica dos Costumes, o tal livro que leu "uma dez vezes". Em vez de ler dez livros de Kant, leu o mesmo livro "umas dez vezes".
Cita Carl Schmitt em diversos passos, mas não apresenta uma única obra do jurista alemão. Todas as citações são apud, vertidas de livros de autores franceses. Qualquer estudante sabe que este tipo de citação é de evitar, ainda para mais numa tese académica.
Encurtando razões: a chamada tese é um trabalhinho menor, nem de licenciatura, repleto de asneiras e lugares-comuns, já muito mastigados e digeridos. Parece ter sido feita à pressa, com omissão de autores que o assunto abordado e a própria linha defendida exigiriam, como Elizabeth Anscombe, Alasdair MacIntyre e John McDowell.
LOU REED (1942-2013)
Compôs algumas das melhores canções da pop. Tanto na fase dos Velvet Underground
como a solo. Assisti a concertos dele um par de vezes, primeiro na Expo 98, em
Lisboa, por coincidência no dia do meu aniversário, e dois anos depois em
Málaga. Além de compositor e guitarrista dotado, revelava um invulgar
talento poético, com centelha de génio. Tinha, demais disso, uma característica
que aprecio nos grandes inovadores: as suas criações afirmavam-se logo desde a nascença como verdadeiros clássicos. E isso não é para todos.
HOMENS LIVRES
Numa época de manifs sectárias e interesseiras, vale a pena lembrar a génese da revista Homens Livres. Corria o ano de 1923 e, diante da grave crise nacional, as principais figuras do Integralismo Lusitano e da Seara Nova decidiram fundar uma publicação conjunta.
Como mar que unisse e já não separasse, o projecto juntou Antonio Sérgio e António Sardinha, Raul Proença e Pequito Rebelo, Jaime Cortesão e Afonso Lopes Vieira: enfim, republicanos e monárquicos, adeptos da laicização da sociedade e fervorosos católicos, democratas e antidemocratas, revolucionários e contra-revolucionários. No subtítulo todos se afirmaram "livres da finança e dos partidos".
António Sérgio, na nota de abertura, justifica a união de todos aqueles homens de tão diferentes e opostos quadrantes, escrevendo que "a grande linha divisória, nestes nossos dias, não é a que separa as 'direitas' das 'esquerdas'; é, sim, a que distingue (...) os homens do século XX dos homens do século XIX, os vivos dos mortos".
E Sardinha, com nobreza de carácter, adianta: "É lógica, portanto, a nossa aproximação, e com honra o digo, porque, descontadas as divergências, não de pessoas, mas de finalidade, António Sérgio e os seus companheiros marcam na podridão ambiente uma notável reserva de saúde e bravura moral".
Nos momentos de desgraça colectiva, sobretudo nestes, o essencial deve prevalecer sobre o acessório. E o essencial é o que nos une, a memória, o desejo de liberdade, a comunidade de destino. Há 90 anos, integralistas e seareiros deram ao país dividido um exemplo notável de resistência e conciliação.
A FILOSOFIA E O MATRIMÓNIO
A filosofia e o matrimónio são incompatíveis. Os grandes filósofos foram misóginos. Cada um à sua maneira. Ou eunucos, como Orígenes, ou virgens, como S. Tomás de Aquino, ou celibatários maiores da marca, como Platão, Espinoza, Kant, Schopenhauer e Nietzsche. Ou até onanistas, como Kierkegaard e Leopardi. A epistemologia não suporta cônjuges nem o choro das criancinhas. Um filósofo casado é um filósofo acabado.
Giovanni Papini explicava esta incompatibilidade do seguinte modo: a mulher representa a vida enquanto a filosofia vem a ser uma espécie de morte. Por outras palavras: a mulher é o primado do sentimento e das sensações, ao passo que a filosofia quer ser racionalismo puro.
Perdurou em Portugal por um decénio mal medido um desses case studies, como agora se diz. O pensador cinquentão cede ao casamento e, assim diminuído no contacto com a vida familiar, deixa imediatamente de produzir e escrever. Uma verdadeira desgraça. Já lhe não lampejam novos raciocínios e ideias. Mas, quando tudo parece perdido, o destino amerceia-se do homem, que lá consegue encarrilhar de volta à razão e ao pensamento especulativo. Ainda há finais felizes.
FALAS DE CIVILIZAÇÃO, E DE NÃO DEVER SER
Falas de civilização, e de não dever ser.
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos os que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
[Fernando Pessoa, disfarçado de Alberto Caeiro]
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos os que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
[Fernando Pessoa, disfarçado de Alberto Caeiro]
ESCREVER DE PÉ
Num dia (...) — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida (...) E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre.
[Carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, de 13 de Janeiro de 1935]
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