NA VASSOURA PARA AS CARROÇAS

Neste país só faz estrondo o escândalo ou a chalaça. Um livro bem pensado e bem composto apenas impressiona os dez literatos inteligentes que por aí vivem lurados na sua obscuridade. O restante é a malta dos noticiaristas, gentio que os porteiros de Paris levariam na vassoura para as carroças.
 
[Camilo Castelo Branco, em carta para J. C. Vieira de Castro]

DO ATRASO PORTUGUÊS


O naturalista suíço Merveilleux, nas Memoires instructifs pour un voyageur dans les divers États de l'Europe, de 1738, conta que perguntou ao Marquês de Fronteira, Intendente-Geral da Moeda, da Fazenda e da Marinha, por que razão os teares da Covilhã estavam parados — e se desprezava tanto a indústria. Respondeu-lhe o velho político: Deus fez-nos donos do ouro que extraímos do Brasil sem quase ser necessário cavar.

ESCRITA CRIATIVA: LIÇÃO N.º 1 (POESIA)

Desde que os poetas trocaram a música pela metáfora, contra a recomendação de Verlaine,  toda a gente pode produzir poesia pós-experimental. E da boa. A primeira noção a assimilar é que o metaforismo em voga não transmite propriamente ideias e as composições raro se organizam em torno de uma mensagem.
Aviso prévio à turma: nada de estudar as leis da metrificação, da elisão rítmica ou da partição acentual. Esta cerrada matéria, sobre ser perda de tempo, pode dar cabo de uma carreira.
Assim, o poeta deve começar por seleccionar um conjunto de palavras, as suas palavras, uma espécie de vocabulário próprio que defina o seu registo. Por exemplo: espaço, árvore, voz, pedra, memória, murmúrio, vórtice, folhagem, frescura, azul, raiz, imagem, água, construção, nuvem, corpo. Dez a vinte palavras chegam e sobram para apontar às antologias contemporâneas. Como veremos adiante, todos os poemas do livro vão girar à volta dos vocábulos da lista.
A seguir, é preciso ligar as palavras seleccionadas de qualquer forma ou nem sequer as ligar mas aproximar apenas. Nunca, porém, no sentido comum ou corrente.
Aqui vai o início de um poema, com a lista de palavras mencionada:
 
A voz da pedra é nuvem
Construção do murmúrio no espaço
No vórtice da frescura onde a imagem treme
A água desta pedra na folhagem do azul
E a árvore do teu corpo na raiz da memória

Reparem que a ordem das palavras é secundária. O último verso, por exemplo, pode ser grafado de distintas maneiras: e a raiz do teu corpo na árvore da memória, ou e a memória do teu corpo na raiz da árvore, e assim por diante.
Há versos que podem transitar de um poema para outro sem deslustre. Se um esboço estiver a ficar comprido, extraem-se os versos demasiados, que se enxertam noutro poema.
Finalmente, após o lançamento, a opinião impressa há-de escrever qualquer coisa deste feitio: "Revelação do ano, a essência da sua poesia manifesta-se numa metalinguagem de herméticas metáforas, nimbadas de sensualidade expressiva. A liberdade na moderna linguagem poética exerce-se num espaço de arbitrariedade e pluralismo. A univocidade é asséptica, mas na sua poesia retorna a si mesma, à plenitude do significante". Ou seja, o crítico também não entendeu patavina. E isto, meus amigos, é essencial: que o público, a crítica e o próprio autor permaneçam nas trevas do entendimento é meio caminho andado para a glória literária. O resto é cunhas e contactos.

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Pediram-lhe um slogan para o Facebook e ele, quase sem pensar, respondeu: "Idiotas de todos os países, uni-vos!" Como recusassem a proposta, ele avançou com outro mais moderado: "Mil milhões de parvos não podem deixar de ter razão!"

OUTRO HOMEM

Havia um sujeito falho de orgulho próprio, inseguro, sempre hesitante, que dizia qualquer coisa assim: "Alguns homens, quando estão com uma mulher, pensam noutra mulher. Eu, quando estou com uma mulher, penso que sou outro homem".

LIVROS & MULHERES (XII)

OS CAFÉS


Parece que foi há 200 anos. Os cafés bem no centro da cidade, largos e luminosos, com mesas de tampo de mármore. Ainda não pegara a moda do mobiliário de plástico oferecido pelas marcas de bebidas, a troco de fidelização. Os empregados solenes, calças pretas, colete preto, camisa branca, a manejar bandejas numa perícia de décadas.
Os cafés e os clientes receberam ordem de despejo, ala que se faz tarde rumo ao progresso: os estabelecimentos banquerizados, alguns convertidos em supermercados, outros demolidos para construção de apartamentos. Desapareceu com eles um estilo de viver e conviver, de tertuliar e de passar o tempo: as conversas fúteis, os estudantes, os namorados, o engraxador, o pedinte, os malucos, sempre os malucos  e aquelas velhas sabidas que montavam na cadeira posto avançado de observação e presumiam a vida íntima da cidade. Era um zoo humano que servia torradas e galões, mais do que bichos. 

Nos dias de invernia, quando a chuva zimbrava às varreiradas sobre os passeios alagados, entravam ligeiros os clientes, como a acabar uma corrida. Depois de uma esfregadela de sapatos no tapete, enfiavam no bengaleiro o guarda-chuva, que ali ficava a chorar para o chão.
Esses "cafés da minha preguiça", como dizia o Mário de Sá-Carneiro, é que eram as verdadeiras redes sociais, ainda o doido do Zuckerberg não tinha nascido. Parece que foi há 200 anos. 

É DEMASIADO, DE FACTO


Proust explique beaucoup pour mon goût — 300 pages pour nous faire comprendre que Tutur encule Tatave c'est trop.
 
[Céline]

GANHAR A VIDA

Quando ouço os jovens escritores a falar das vendas, lembro-me sempre de Bernard Shaw: "Só porque sou um homem de letras, não se deve supor que nunca tentei ganhar a vida honestamente".

POSSE

Mato o que te prender, sem mim, à vida.
Sou a luz que te entrega e rouba a cor,
Exército, violências, investida,
Amar-te é destruir-te, meu amor.

 
Tua língua se estorce em minha boca
E o meu corpo raivoso esmaga o teu.
Numa esfera de sombra, imensa e oca,
Giramos, na loucura que nos deu.

 
Enrodilhados, somos um chicote
Silvando, pela noite, e a voar.
Um silêncio expectante. Um holofote,
Súbito, irrompe, descobrindo o mar.

 
Um instante: no espasmo, nós tocamos
A Morte, os astros, a unidade. Eleitos,
Vemos a face à Vida e ali ficamos
Suspensos, intangíveis e perfeitos.

 
Conheço que o teu corpo é, nesta luta,
Nossa realidade encarcerada.
E a voz do mar se esconde e espreita e escuta
Na gruta da tua carne e do teu nada
.


Teu corpo é o Absoluto estilhaçado
E, para o libertar e recompor,
Preciso de incluí-lo, renovado.
Amar-te é destruir-te, meu amor.
 

 
[Goulart Nogueira]

GOULART

A Gisela João, talvez a revelação discográfica do ano, gravou Madrugada sem Sono, um belíssimo poema de Goulart Nogueira. O lance merece desenvolvimento. Goulart Nogueira é um dos milagres da poesia portuguesa na segunda metade do século XX. A sua obra poética permanece em grande parte inédita, visto que só editou um livro de poesia, Barco Vazio em Rio de Sombra, em 1951.
Algumas wikipédias dão-no por morto. Está vivo, a caminho dos 90 anos, embora acamado e sem consciência de si há mais de uma década. Em 2008, pediram-me que ajudasse a coligir e organizar os seus inéditos, dispersos por mil e um papéis, envelopes e até pacotes de açúcar, tarefa que realizei com a paixão da descoberta. 
Sobressai na poesia de Goulart um talento chispante, revulsivo, com perscrutações semânticas, ontológicas e metafísicas, mas sempre numa linguagem pura além do escândalo da sua originalidade e dos temas. Jorge de Sena escreveu que "um amoralismo subterrâneo e dramático deu-lhe, todavia, sob a versificação brilhante, uma perturbadora vibração". Oxalá seja editado e depressa. 

MADRUGADA SEM SONO

 
Na solidão a esperar-te
Meu amor fora da lei
Mordi meus lábios sem beijos
Tive ciúmes, chorei

Despedi-me do teu corpo
E por orgulho fugi
Andei dum corpo a outro corpo
Só p'ra me esquecer de ti

Embriaguei-me, cantei
E busquei estrelas na lama
Naufraguei meu coração
Nas ondas loucas da cama

Ai abraços frios de raiva
Ai beijos de nojo e fome
Ai nomes que murmurei
Com a febre do teu nome

De madrugada sem sono
Sem luz, nem amor, nem lei
Mordi os brancos lençóis
Tive saudades, chorei

[Goulart Nogueira]

LIVROS & MULHERES (XI)

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra passou o Verão a divertir-se
Sempre em bares de strip, a vestir-se, a despir-se,
O cigarro na boca e um copo na mão
— E mais cem euros na conta por cada actuação.

Ofereceu a si mesma um jipe no aniversário
E cinco assoalhadas em regime hipotecário.
Vestia da Versace
E da Sonia Rykiel;
Sempre à la page,
Rescendia a Chanel.

A formiga, ao invés, era uma desgraçada:
Não tinha carro, não tinha tecto, não tinha nada.
Conseguiu o mestrado com basta canseira;
Ficou desempregada sem eira nem beira...
Um dia, após tanto penar,
A casa da outra quis ir desabafar:
"Ouve, cigarra,
O mundo é cão:
Tu na farra,
Eu sem tostão;
Tanta dor, tanto estudo
E estafa...
E depois disto tudo,
Nada...
Sinto que há na minha alma um vácuo imenso e fundo,
Já pensei suicidar-me, afastar-me do mundo..."

"Não chores a tristeza e menos a amargura,
O mundo é mesmo assim, a vida é sempre dura",
Explicou-lhe a cigarra em tom de afectuosa amizade
Como se fora um conto dos mil e um de Xerazade.
"Bem me pareceu no fim do 9.º ano
Que o ideal seria um futuro menos espartano...!
Perfilha o meu divino exemplo
E faz da noite um Templo.
Acredita, formiga:
Deus, quando abre à mulher as portas desta vida,
Ampara-a dia-a-dia, fá-la sua protegida,
Porque todas temos um dom"
(E aqui discretamente passou-lhe o bâton).
"Comecei no Ano Novo e, desde Janeiro,
Iluminou-me sempre o luar do dinheiro.
Antes quero ir assim construindo o meu Céu
Do que esperar pelo modelo social europeu.
Às vezes, é preciso olhar por cima do umbigo;
Se precisas de ajuda, podes vir comigo".

Dirigiram-se as duas para uma casa de alterne
E o primeiro cliente foi o senhor La Fontaine.

A CRISE EXPLICADA AOS INSECTOS

Num dia de inverno uma Cigarra esfomeada pediu a uma Formiga um pouco de comida que esta tinha armazenado.
— O quê? — disse a Formiga — Não trataste de armazenar alguma comida para ti, em vez de estares sempre a cantar?
— Assim fiz — respondeu a Cigarra —, assim fiz; mas as tuas amigas entraram por minha casa adentro e levaram-ma toda.

[Ambrose Bierce, Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas]

AMBROSE BIERCE

O escritor Ambrose Bierce, émulo de Mark Twain e H.L. Mencken, foi  um mestre do humor e do pessimismo. As suas fábulas apresentam simultaneamente um carácter alegórico, moral e  cínico. Polemista brilhante,  desapareceu sem deixar rasto em 1914. Escreveu o célebre Dicionário do Diabo, mas tem outras obras traduzidas para português, como Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek e Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas. É um autor para revisitar nos nossos dias.

OS BUFOS

O bobo medieval bracejou em tanta cópia que foi preciso dar nome às espécies. Surgiram o jogral, o truão, o arlequim, o palhaço e, por derradeiro, o humorista um sujeito que, dotado de talento motejador, faz rir o público e é aplaudido à gargalhada. Tais qualidades não o distinguem hoje do comum dos políticos e é decerto por isso que muito aspirante a humorista, para ganhar a vida, preferiu a política ao chiste.
Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira são exemplo dos que optaram pela política. A escolha é legítima mas deve prevenir-se o consumidor para que não compre gato por lebre. Os dois rapazes alapardaram-se em rubricas ditas de humor para esguichar o fel da ideologia. A diatribe do granjola de barba intonsa contra Margarida Rebelo Pinto é uma canalhice sem nome. Nem sequer humor fraquinho, mas apenas chuva de impropérios, cuspidos de enfiada e com voz irritante e desnatural. Ao denunciar a opinião da senhora, num burlesco de fundo ideológico, alcança um dos significados de bobo: o de bufo ou bufão. Raio de país em que os humoristas se dedicam à política e os políticos é que nos fazem rir.        
Já Ricardo Araújo Pereira e os outros gatos andam calados de humor porque se lhes deve ter esgotado o saco de piadas roubadas na estranja. Falsários geniais da piada postiça, montaram tenda de contrabando nos órgãos de comunicação. Dos genéricos aos textos, tudo lhes chega à socapa lá de fora. As piadas que aviam ao público português chegam já ressessas, em segunda mão, impróprias para consumo, entesouradas à sorrelfa do repertório alheio.
Humoristas oficiais do regime, são também eles um dos rostos da crise. Se tivessem consciência capaz de rebates, há muito teriam largado o ofício e, envergonhados, para se desemburrarem nas noções elementares do mister, deitavam-se a ver os vídeos do melhor humor contemporâneo, dos Monty Python ao Seinfeld e às criações de Ricky Gervais. E estudariam também a história do humor luso, que vem de Mestre Gil e Tomás de Noronha, visita o Eça e o André Brun e, por este andar, não há-de passar por eles. As próprias anotações de Leite de Vasconcelos sobre a matéria na sua Etnografia Portuguesa ainda agora merecem ser lidas.  
Um humorista travestido de político é sempre um falhado. Se é político e plagiário, pior. De toda a fancaria que grava hão-de ficar apenas os perdigotos gosmados pelo ódio ideológico. Dá vontade de chorar, não de rir. 

NORMA E NORMAN


Faz hoje seis anos que morreu Norman Mailer. Nunca percebi o menosprezo a que foi votado por alguns críticos. Certo que o homem era antipático e um tanto doidivanas. Casou-se cinco vezes, teve nove filhos, bebeu álcool e consumiu drogas à farta e ainda esfaqueou uma das ex-mulheres numa discussão. Tinha obsessões despropositadas e maníacas. Mas esse era o maluquinho fichado das biografias sensacionalistas. O Norman literário revela-se mais importante.
Boa parte da literatura norte-americana não é bem literatura, mas jornalismo vendido em livros. Norman Mailer insere-se na tendência, mas pelo menos escreve bom jornalismo, dentro da chamada não-ficção criativa, o new journalism, em que se distinguiram igualmente Truman Capote e Tom Wolfe. E, atrevo-me a dizê-lo, o próprio David Foster Wallace, não o dos contos e romances, mas o dos ensaios sobre David Lynch e sobre a língua inglesa, por exemplo.  
É neste quadro que Mailer merece ser estudado. A sua biografia de Marilyn Monroe, publicada em 1973, inculpa o FBI e a CIA na morte da actriz, devido ao suposto romance com o senador Robert Kennedy. A tese pode parecer arrevesada, mas se pensarmos que a CIA, por essa altura, elaborou planos para matar Patrice Lumumba, do Congo, Fidel Castro, de Cuba, Abdul Kassem, do Iraque, Rafael Trujillo, da República Dominicana, Ngo Dinh, do Vietname, e René Schneider, do Chile, não custa acreditar que também tivesse despachado uma loura frágil de 36 anos, encafuada a barbitúricos. Eu, nestas matérias, já de nada pasmo, tudo acho possível  e quanto mais absurdo, mais de acreditar.
Em O Fantasma de Harlot, já Mailer se tinha entranhado nos labirintos da CIA, uma teia de ambições, ardis, crimes e violência. Foi, no mínimo, um bom jornalista que escreveu bons livros. Merece ser lido.

AZAR

Precisou de 20 anos para descobrir que lhe faltava talento literário. Mas já era tarde: tinha-se tornado um escritor célebre.

MARX, FREUD E ERICA FONTES

Dois profetas dos tempos modernos, Marx e Freud, deixaram rasto não apenas no campo económico e clínico, mas também na área da literatura. Marxismo e freudismo apoderaram-se de tal modo da ficção que, por anos e anos, custou descobrir um romance em que as personagens não fossem vítimas da exploração económica ou da opressão da libido. Em certos volumes, acumulavam. O prosador sabia que, para obter a aprovação geral, preciso era apresentar a protagonista sob as garras do patrão explorador ou debaixo de um marmanjo lascivo.
Como o tema neo-realista passou um tanto de moda, perdurou o sexo. O problema é que não é fácil escrever sobre sexo. Por via de regra, a
s descrições são foleiras. Os brasileiros superam-nos de largo. Não encontro na literatura lusa a obscenidade estilística de um João Ubaldo Ribeiro ou a sensualidade matizada de um Rubem Fonseca. Por cá, abunda um registo de exageros e lugares-comuns. Os homens têm sempre "erecções gigantescas", "erecções colossais", por vezes ao primeiro olhar, e as mulheres, todos os dias "insinuantes" e "insaciáveis",  atingem "orgasmos sucessivos" e "violentos".
Por isso mergulhei com esperança na autobiografia de Erica Fontes, a nossa pornstar emigrada em Los Angeles. Não esperava dela, ou de quem escreveu o livro, um estilo elegante e primoroso, mas pelo menos algum realismo fisiológico e de costumes. Uma desilusão. Descobri logo, ao fim das primeiras páginas, que a miúda está é apaixonada pelo namorado. Há por ali passos melosos e quase poéticos da sua relação com o rapaz. Ora, para essas melopeias da paixão já 
tínhamos a Maria Teresa Horta. De uma actriz pornográfica, galardoada com um prémio XBIZ, que é uma espécie de óscar do género, esperava mais. A sério que esperava.

UMA AGULHA NO PALHEIRO

Se elegi Comme le Temps Passe como romance da juventude, dou lugar de relevo dentro do género a Uma Agulha no Palheiro [The Catcher in the Rye, no original, também traduzido como À Espera no Centeio], de J. D. Salinger. Um livro admirável, um grande romance, que começou por ser proibido nas bibliotecas públicas e acabou como leitura obrigatória nos currículos de liceu.
Sem atingir a dimensão mítica de Brasillach, o escritor norte-americano criou Holden Caulfield, uma personagem extraordinária de perspicácia e rebeldia: um herói juvenil que, depois de expulso do colégio caro que frequenta, expressa o seu desprezo pelo mundo falso e burguês dos adultos, enquanto vagueia por Nova Iorque. 
O sucesso de Uma Agulha no Palheiro fez que J. D. Salinger se mudasse de Manhattan para uma casa de campo no New Hampshire, onde viveu até à morte. Quando ia aos restaurantes locais, comia na cozinha, para evitar o contacto com as pessoas. Em vez de enfrentar o mundo, como o herói da sua ficção, escondeu-se do mundo. Há revoltas que só funcionam na literatura.

LIVROS & MULHERES (X)

CURSO DE NOIVOS

Nelson Mandela esteve preso quase 30 anos. Foi condenado a trabalhos forçados. Parece que chegou a ser torturado. Aguentou esse regime, década após década, sem um queixume ou fraqueza.
Em 1990, é libertado. Regressa a casa. E ao fim de seis meses com a mulher, diz: "I can't take this shit no more!"
Era deste modo que eu começaria aqueles cursos de noivos ministrados nas paróquias. Suporta-se o cárcere porque se vai já preparado para o sofrimento. De um sistema prisional espera-se sempre o pior. Mas o que condena irremediavelmente os homens livres é a ilusão da felicidade.

SAIA UM RENAUDOT PARA GABRIEL MATZNEFF

O escritor francês Gabriel Matzneff, de 76 anos, ganhou ontem o prestigiado Prémio Renaudot, na categoria de ensaio, com o livro Séraphin, c'est la fin! que reúne artigos e crónicas que escreveu em várias publicações de 1964 a 2012.
Amigo de Hergé e Cioran, conviveu também com o grande Henry de Montherlant, de quem espalhou as cinzas em 1972. Defendeu à outrance o mérito do Les Deux Étendards, de Lucien Rebatet, afastado das estantes por motivos pouco literários. Meio anarquista, dá-se bem com Alain de Benoist e colabora na revista Éléments
Os editores portugueses não o conhecem, mas Matzneff é um dos mais originais escritores da actualidade, com uma obra própria de cunho exclusivo, bem diferente daqueles recidivistas marcados da pirataria literária.
Mas a atribuição do prémio pode gerar polémica. É da sabença geral: no melhor pano cai a nódoa. Matzneff é um pedófilo notório, como se topa em obras como Les Moins de Seize Ans ou Mes Amours Décomposés — e ainda nas páginas dos seus diários, que narram aventuras de turismo sexual nas Filipinas, com jovens de 14 e 15 anos. Não perfilo na ala dos moralistas, criaturas sempre exigentes no cumprimento da virtude alheia, mas confesso não vou tão longe na liberalidade. Matzneff enfrenta o tema e diz que é precioso distinguir a violação de uma criança de 8 anos, que ele condena, do acto consentido de um jovem de 15. Haveria que distinguir entre pedofilia e efebofilia. Creio que, nestes ou noutros termos, a questão vai ser uma causa fracturante a ser debatida proximamente. A obra do francês serve de introdução ao tema.
A mancha não apeou André Gide ou Oscar Wilde do panteão da literatura. Nabokov continua a vender que nem ginjas. E a Matzneff é de conceder pelo menos o benefício da dúvida literária. Provocador, iconoclasta, grande estilista, talvez o maior entre os polígrafos franceses vivos, não merece que a obra seja empanada pelos vícios privados. Cuspir-lhe-ão decerto os epítetos infamantes, mas nisto da literatura os críticos ladram e o génio passa. 

UMA ESPÉCIE DE POSTAL DE SÉTIMO DIA


LIVROS & MULHERES (IX)

MORANGOS COM AÇÚCAR

O sucesso das séries juvenis tem uma explicação medicinal. As novas gerações não imaginam como era, há 30 anos, a pele da juventude portuguesa. Hoje, o acne desapareceu, não direi da crosta terrestre, mas pelo menos da epiderme lusa. Já não se vê, na cara de ninguém, uma única espinha. Ao primeiro sinal de inflamação, as mães levam as crias ao dermatologista, que lhes alisa a pele a poder de isotretinoína e outras drogas. Não há nada mais repelente do que beijar uma cara cheia de acne, com espinhas que rebentam ao contacto dos lábios apaixonados.
Esses êxitos televisivos com actores de 16 anos devem-se aos dermatologistas e às multinacionais farmacêuticas.  

O BISTURI, LÍDER FILOSÓFICO

Acaba de ser publicado entre nós o romance inacabado Tudo Passa, de Vassili Grossman, considerado com algum exagero um novo Tolstói, mas escritor de fôlego na arte de narrar a mediocridade e o sofrimento entre os homens.
O livro conta a história de um ex-preso político que regressa a Moscovo ao fim de trinta anos de trabalhos forçados na Sibéria. Na página 185, Grossman interroga-se se era verdadeiramente o amor à humanidade que movia os socialistas e responde que não:
"Um carácter assim comporta-se no meio da humanidade como um cirurgião nas enfermarias da clínica — o seu interesse pelos doentes, pelos seus pais, mulheres e mães, as suas brincadeiras, a sua luta contra o fenómeno da infância desamparada, a sua preocupação com os operários que chegaram à idade da reforma, tudo isso são insignificâncias, treta, casca. A alma do cirurgião está no seu bisturi.
A essência de semelhantes pessoas assenta na fé fanática na omnipotência da faca cirúrgica. O bisturi cirúrgico é um grande teórico, um líder filosófico do século vinte".

TOMÁS

Se o soubessem ler, Tomás de Figueiredo seria um escritor para o nosso tempo. A sua obra é flagrante de actualidade. Os sujeitos que fazem hoje as capas dos jornais estão lá todos, os banqueiros, os oportunistas, os burgueses hipócritas com suas "esposas sem par" a abichar cargos e dinheiro, administradores de não sei quantas empresas públicas, sempre disponíveis para mais um arranjinho.
No magnífico A Gata Borralheira, de 1961, avulta o Dr. Silvério Carvalhal, dilatado na sua mediocridade, com a estúpida da filha em redor: "Agora que o pai já estava em quatro companhias e bancos, director de todos, e que, assim, passava a ter mais tempo livre, menos obrigações e ralações, menos processos a ver à noite, iam finalmente comprar um automóvel (...)"
Se o soubessem ler, disse. Tomás apresenta um vocabulário opulento e castiço, uma prosa a vários títulos inovadora. É um grande mestre da língua, que renovou como poucos, um estilista primoroso, bem diferente da fancaria que por aí se vende agora e recebe prémios. Ele próprio, corrosivo, indicava a regra a seguir pelo romancista português, se pretende imprimir uns milheiros de exemplares e apurar uns cobres: "fuja da Língua Portuguesa, e fuja a toque de caixa". Melhor ainda será que saiba o menos possível do idioma. Não deve pretender que até ele suba o leitor; deve, sim, descer humildemente até às letras gordas do público.
Num tempo de escritores de reduzido vocabulário, resvés do básico, que se amanham com umas dúzias de expressões preguiçosas e já puídas, Tomás brilha e brilha. Ele sabia que escrever é mais do que contar uma história. É fazer do velho novo, esmerilhar a palavra certa, pesá-la sílaba a sílaba, compor vivo e nas quatro dimensões. Exige oficina e custa dezenas de anos.
Possível que um dia se estude a obra de Tomás como ela merece. Por enquanto, ainda é a hora dos promissores talentos analfabetos, dos que tropeçam nas preposições e concordâncias e dos que, num arremedo de consciência, grafam o nome em minúsculas para que fique proporcionado à dimensão literária da obra. 

LIVROS & MULHERES (VIII)