STERNE

Faz hoje 300 anos que nasceu o escritor irlandês Laurence Sterne. É preciso alçapremar o homem para o galarim dos grandes génios, ao lado de Camões, Cervantes, Rabelais ou Shakespeare. Leiam Diário para Eliza ou A Vida e Opiniões de Tristram Shandy e descubram-lhe o talento extraordinário, a capacidade de inovação, os canais que ele abriu para que outros neles singrassem quase até aos nossos dias.  

OBRIGADINHO, PÁTRIA DE BURROS E DE ASSASSINOS

Embora impotente, protesto ante a humanidade em peso contra a ignomínia de que fui Cristo. Essa epopeia, de 6.000 decassílabos, é o meu grito de estertor.
Além dela, e tudo em quatro meses (!) escrevi um romance, um adiantado livro de memórias e 250 sonetos. Cheguei, numa tarde, a escrever 21, totalmente em transe, de mão automática e cérebro electrónico.
Nunca mais o abraçarei, meu querido amigo, eu, o tão apaixonado da Poesia, que tinha, depois da sua, a melhor colecção de Poesia de Portugal. Não, nunca mais. A Lisboa só voltarei quando seja para me asilar no manicómio, já para mim de tão pavorosa lembrança, e lá morrer, de lá sair na dantesca maca dos defuntos que frequente e de madrugada ouvia rodar à porta do quarto. Irei ouvir os uivos dos loucos e os gritos parvos do casal de pavões que lá heraldicamente passeia. Irei ser maltratado e achincalhado pelos criados de bata amarela, Salazares e Bérias do armazém. Digo que muito obrigado à Pátria. — Obrigadinho, Pátria de burros e de assassinos, de administradores da Sacor, de Faz-Tudos de barraca de feira que se honram de levar chulipas e bofetadas! Adeus, Pátria de governadores civis de Portalegre! Quis servir-te, de pé, e tu só aceitas lambedores cães de regaço, — Lésbia! Não gostas de homens!


[Tomás de Figueiredo, em carta inédita a João de Castro Osório, de 3 de Outubro de 1958]

ROADS


Oh, can't anybody see
We've got a war to fight
Never found our way
Regardless of what they say

How can it feel, this wrong
From this moment
How can it feel, this wrong

LADO B

Ela disse-lhe: "Acho que tenho um interior bonito". Ele percebeu que estava condenado a encontrar mulheres cujo lado melhor é o avesso.

NA VASSOURA PARA AS CARROÇAS

Neste país só faz estrondo o escândalo ou a chalaça. Um livro bem pensado e bem composto apenas impressiona os dez literatos inteligentes que por aí vivem lurados na sua obscuridade. O restante é a malta dos noticiaristas, gentio que os porteiros de Paris levariam na vassoura para as carroças.
 
[Camilo Castelo Branco, em carta para J. C. Vieira de Castro]

DO ATRASO PORTUGUÊS


O naturalista suíço Merveilleux, nas Memoires instructifs pour un voyageur dans les divers États de l'Europe, de 1738, conta que perguntou ao Marquês de Fronteira, Intendente-Geral da Moeda, da Fazenda e da Marinha, por que razão os teares da Covilhã estavam parados — e se desprezava tanto a indústria. Respondeu-lhe o velho político: Deus fez-nos donos do ouro que extraímos do Brasil sem quase ser necessário cavar.

ESCRITA CRIATIVA: LIÇÃO N.º 1 (POESIA)

Desde que os poetas trocaram a música pela metáfora, contra a recomendação de Verlaine,  toda a gente pode produzir poesia pós-experimental. E da boa. A primeira noção a assimilar é que o metaforismo em voga não transmite propriamente ideias e as composições raro se organizam em torno de uma mensagem.
Aviso prévio à turma: nada de estudar as leis da metrificação, da elisão rítmica ou da partição acentual. Esta cerrada matéria, sobre ser perda de tempo, pode dar cabo de uma carreira.
Assim, o poeta deve começar por seleccionar um conjunto de palavras, as suas palavras, uma espécie de vocabulário próprio que defina o seu registo. Por exemplo: espaço, árvore, voz, pedra, memória, murmúrio, vórtice, folhagem, frescura, azul, raiz, imagem, água, construção, nuvem, corpo. Dez a vinte palavras chegam e sobram para apontar às antologias contemporâneas. Como veremos adiante, todos os poemas do livro vão girar à volta dos vocábulos da lista.
A seguir, é preciso ligar as palavras seleccionadas de qualquer forma ou nem sequer as ligar mas aproximar apenas. Nunca, porém, no sentido comum ou corrente.
Aqui vai o início de um poema, com a lista de palavras mencionada:
 
A voz da pedra é nuvem
Construção do murmúrio no espaço
No vórtice da frescura onde a imagem treme
A água desta pedra na folhagem do azul
E a árvore do teu corpo na raiz da memória

Reparem que a ordem das palavras é secundária. O último verso, por exemplo, pode ser grafado de distintas maneiras: e a raiz do teu corpo na árvore da memória, ou e a memória do teu corpo na raiz da árvore, e assim por diante.
Há versos que podem transitar de um poema para outro sem deslustre. Se um esboço estiver a ficar comprido, extraem-se os versos demasiados, que se enxertam noutro poema.
Finalmente, após o lançamento, a opinião impressa há-de escrever qualquer coisa deste feitio: "Revelação do ano, a essência da sua poesia manifesta-se numa metalinguagem de herméticas metáforas, nimbadas de sensualidade expressiva. A liberdade na moderna linguagem poética exerce-se num espaço de arbitrariedade e pluralismo. A univocidade é asséptica, mas na sua poesia retorna a si mesma, à plenitude do significante". Ou seja, o crítico também não entendeu patavina. E isto, meus amigos, é essencial: que o público, a crítica e o próprio autor permaneçam nas trevas do entendimento é meio caminho andado para a glória literária. O resto é cunhas e contactos.

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Pediram-lhe um slogan para o Facebook e ele, quase sem pensar, respondeu: "Idiotas de todos os países, uni-vos!" Como recusassem a proposta, ele avançou com outro mais moderado: "Mil milhões de parvos não podem deixar de ter razão!"

OUTRO HOMEM

Havia um sujeito falho de orgulho próprio, inseguro, sempre hesitante, que dizia qualquer coisa assim: "Alguns homens, quando estão com uma mulher, pensam noutra mulher. Eu, quando estou com uma mulher, penso que sou outro homem".

LIVROS & MULHERES (XII)

OS CAFÉS


Parece que foi há 200 anos. Os cafés bem no centro da cidade, largos e luminosos, com mesas de tampo de mármore. Ainda não pegara a moda do mobiliário de plástico oferecido pelas marcas de bebidas, a troco de fidelização. Os empregados solenes, calças pretas, colete preto, camisa branca, a manejar bandejas numa perícia de décadas.
Os cafés e os clientes receberam ordem de despejo, ala que se faz tarde rumo ao progresso: os estabelecimentos banquerizados, alguns convertidos em supermercados, outros demolidos para construção de apartamentos. Desapareceu com eles um estilo de viver e conviver, de tertuliar e de passar o tempo: as conversas fúteis, os estudantes, os namorados, o engraxador, o pedinte, os malucos, sempre os malucos  e aquelas velhas sabidas que montavam na cadeira posto avançado de observação e presumiam a vida íntima da cidade. Era um zoo humano que servia torradas e galões, mais do que bichos. 

Nos dias de invernia, quando a chuva zimbrava às varreiradas sobre os passeios alagados, entravam ligeiros os clientes, como a acabar uma corrida. Depois de uma esfregadela de sapatos no tapete, enfiavam no bengaleiro o guarda-chuva, que ali ficava a chorar para o chão.
Esses "cafés da minha preguiça", como dizia o Mário de Sá-Carneiro, é que eram as verdadeiras redes sociais, ainda o doido do Zuckerberg não tinha nascido. Parece que foi há 200 anos. 

É DEMASIADO, DE FACTO


Proust explique beaucoup pour mon goût — 300 pages pour nous faire comprendre que Tutur encule Tatave c'est trop.
 
[Céline]

GANHAR A VIDA

Quando ouço os jovens escritores a falar das vendas, lembro-me sempre de Bernard Shaw: "Só porque sou um homem de letras, não se deve supor que nunca tentei ganhar a vida honestamente".

POSSE

Mato o que te prender, sem mim, à vida.
Sou a luz que te entrega e rouba a cor,
Exército, violências, investida,
Amar-te é destruir-te, meu amor.

 
Tua língua se estorce em minha boca
E o meu corpo raivoso esmaga o teu.
Numa esfera de sombra, imensa e oca,
Giramos, na loucura que nos deu.

 
Enrodilhados, somos um chicote
Silvando, pela noite, e a voar.
Um silêncio expectante. Um holofote,
Súbito, irrompe, descobrindo o mar.

 
Um instante: no espasmo, nós tocamos
A Morte, os astros, a unidade. Eleitos,
Vemos a face à Vida e ali ficamos
Suspensos, intangíveis e perfeitos.

 
Conheço que o teu corpo é, nesta luta,
Nossa realidade encarcerada.
E a voz do mar se esconde e espreita e escuta
Na gruta da tua carne e do teu nada
.


Teu corpo é o Absoluto estilhaçado
E, para o libertar e recompor,
Preciso de incluí-lo, renovado.
Amar-te é destruir-te, meu amor.
 

 
[Goulart Nogueira]

GOULART

A Gisela João, talvez a revelação discográfica do ano, gravou Madrugada sem Sono, um belíssimo poema de Goulart Nogueira. O lance merece desenvolvimento. Goulart Nogueira é um dos milagres da poesia portuguesa na segunda metade do século XX. A sua obra poética permanece em grande parte inédita, visto que só editou um livro de poesia, Barco Vazio em Rio de Sombra, em 1951.
Algumas wikipédias dão-no por morto. Está vivo, a caminho dos 90 anos, embora acamado e sem consciência de si há mais de uma década. Em 2008, pediram-me que ajudasse a coligir e organizar os seus inéditos, dispersos por mil e um papéis, envelopes e até pacotes de açúcar, tarefa que realizei com a paixão da descoberta. 
Sobressai na poesia de Goulart um talento chispante, revulsivo, com perscrutações semânticas, ontológicas e metafísicas, mas sempre numa linguagem pura além do escândalo da sua originalidade e dos temas. Jorge de Sena escreveu que "um amoralismo subterrâneo e dramático deu-lhe, todavia, sob a versificação brilhante, uma perturbadora vibração". Oxalá seja editado e depressa. 

MADRUGADA SEM SONO

 
Na solidão a esperar-te
Meu amor fora da lei
Mordi meus lábios sem beijos
Tive ciúmes, chorei

Despedi-me do teu corpo
E por orgulho fugi
Andei dum corpo a outro corpo
Só p'ra me esquecer de ti

Embriaguei-me, cantei
E busquei estrelas na lama
Naufraguei meu coração
Nas ondas loucas da cama

Ai abraços frios de raiva
Ai beijos de nojo e fome
Ai nomes que murmurei
Com a febre do teu nome

De madrugada sem sono
Sem luz, nem amor, nem lei
Mordi os brancos lençóis
Tive saudades, chorei

[Goulart Nogueira]

LIVROS & MULHERES (XI)

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra passou o Verão a divertir-se
Sempre em bares de strip, a vestir-se, a despir-se,
O cigarro na boca e um copo na mão
— E mais cem euros na conta por cada actuação.

Ofereceu a si mesma um jipe no aniversário
E cinco assoalhadas em regime hipotecário.
Vestia da Versace
E da Sonia Rykiel;
Sempre à la page,
Rescendia a Chanel.

A formiga, ao invés, era uma desgraçada:
Não tinha carro, não tinha tecto, não tinha nada.
Conseguiu o mestrado com basta canseira;
Ficou desempregada sem eira nem beira...
Um dia, após tanto penar,
A casa da outra quis ir desabafar:
"Ouve, cigarra,
O mundo é cão:
Tu na farra,
Eu sem tostão;
Tanta dor, tanto estudo
E estafa...
E depois disto tudo,
Nada...
Sinto que há na minha alma um vácuo imenso e fundo,
Já pensei suicidar-me, afastar-me do mundo..."

"Não chores a tristeza e menos a amargura,
O mundo é mesmo assim, a vida é sempre dura",
Explicou-lhe a cigarra em tom de afectuosa amizade
Como se fora um conto dos mil e um de Xerazade.
"Bem me pareceu no fim do 9.º ano
Que o ideal seria um futuro menos espartano...!
Perfilha o meu divino exemplo
E faz da noite um Templo.
Acredita, formiga:
Deus, quando abre à mulher as portas desta vida,
Ampara-a dia-a-dia, fá-la sua protegida,
Porque todas temos um dom"
(E aqui discretamente passou-lhe o bâton).
"Comecei no Ano Novo e, desde Janeiro,
Iluminou-me sempre o luar do dinheiro.
Antes quero ir assim construindo o meu Céu
Do que esperar pelo modelo social europeu.
Às vezes, é preciso olhar por cima do umbigo;
Se precisas de ajuda, podes vir comigo".

Dirigiram-se as duas para uma casa de alterne
E o primeiro cliente foi o senhor La Fontaine.

A CRISE EXPLICADA AOS INSECTOS

Num dia de inverno uma Cigarra esfomeada pediu a uma Formiga um pouco de comida que esta tinha armazenado.
— O quê? — disse a Formiga — Não trataste de armazenar alguma comida para ti, em vez de estares sempre a cantar?
— Assim fiz — respondeu a Cigarra —, assim fiz; mas as tuas amigas entraram por minha casa adentro e levaram-ma toda.

[Ambrose Bierce, Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas]

AMBROSE BIERCE

O escritor Ambrose Bierce, émulo de Mark Twain e H.L. Mencken, foi  um mestre do humor e do pessimismo. As suas fábulas apresentam simultaneamente um carácter alegórico, moral e  cínico. Polemista brilhante,  desapareceu sem deixar rasto em 1914. Escreveu o célebre Dicionário do Diabo, mas tem outras obras traduzidas para português, como Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek e Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas. É um autor para revisitar nos nossos dias.

OS BUFOS

O bobo medieval bracejou em tanta cópia que foi preciso dar nome às espécies. Surgiram o jogral, o truão, o arlequim, o palhaço e, por derradeiro, o humorista um sujeito que, dotado de talento motejador, faz rir o público e é aplaudido à gargalhada. Tais qualidades não o distinguem hoje do comum dos políticos e é decerto por isso que muito aspirante a humorista, para ganhar a vida, preferiu a política ao chiste.
Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira são exemplo dos que optaram pela política. A escolha é legítima mas deve prevenir-se o consumidor para que não compre gato por lebre. Os dois rapazes alapardaram-se em rubricas ditas de humor para esguichar o fel da ideologia. A diatribe do granjola de barba intonsa contra Margarida Rebelo Pinto é uma canalhice sem nome. Nem sequer humor fraquinho, mas apenas chuva de impropérios, cuspidos de enfiada e com voz irritante e desnatural. Ao denunciar a opinião da senhora, num burlesco de fundo ideológico, alcança um dos significados de bobo: o de bufo ou bufão. Raio de país em que os humoristas se dedicam à política e os políticos é que nos fazem rir.        
Já Ricardo Araújo Pereira e os outros gatos andam calados de humor porque se lhes deve ter esgotado o saco de piadas roubadas na estranja. Falsários geniais da piada postiça, montaram tenda de contrabando nos órgãos de comunicação. Dos genéricos aos textos, tudo lhes chega à socapa lá de fora. As piadas que aviam ao público português chegam já ressessas, em segunda mão, impróprias para consumo, entesouradas à sorrelfa do repertório alheio.
Humoristas oficiais do regime, são também eles um dos rostos da crise. Se tivessem consciência capaz de rebates, há muito teriam largado o ofício e, envergonhados, para se desemburrarem nas noções elementares do mister, deitavam-se a ver os vídeos do melhor humor contemporâneo, dos Monty Python ao Seinfeld e às criações de Ricky Gervais. E estudariam também a história do humor luso, que vem de Mestre Gil e Tomás de Noronha, visita o Eça e o André Brun e, por este andar, não há-de passar por eles. As próprias anotações de Leite de Vasconcelos sobre a matéria na sua Etnografia Portuguesa ainda agora merecem ser lidas.  
Um humorista travestido de político é sempre um falhado. Se é político e plagiário, pior. De toda a fancaria que grava hão-de ficar apenas os perdigotos gosmados pelo ódio ideológico. Dá vontade de chorar, não de rir. 

NORMA E NORMAN


Faz hoje seis anos que morreu Norman Mailer. Nunca percebi o menosprezo a que foi votado por alguns críticos. Certo que o homem era antipático e um tanto doidivanas. Casou-se cinco vezes, teve nove filhos, bebeu álcool e consumiu drogas à farta e ainda esfaqueou uma das ex-mulheres numa discussão. Tinha obsessões despropositadas e maníacas. Mas esse era o maluquinho fichado das biografias sensacionalistas. O Norman literário revela-se mais importante.
Boa parte da literatura norte-americana não é bem literatura, mas jornalismo vendido em livros. Norman Mailer insere-se na tendência, mas pelo menos escreve bom jornalismo, dentro da chamada não-ficção criativa, o new journalism, em que se distinguiram igualmente Truman Capote e Tom Wolfe. E, atrevo-me a dizê-lo, o próprio David Foster Wallace, não o dos contos e romances, mas o dos ensaios sobre David Lynch e sobre a língua inglesa, por exemplo.  
É neste quadro que Mailer merece ser estudado. A sua biografia de Marilyn Monroe, publicada em 1973, inculpa o FBI e a CIA na morte da actriz, devido ao suposto romance com o senador Robert Kennedy. A tese pode parecer arrevesada, mas se pensarmos que a CIA, por essa altura, elaborou planos para matar Patrice Lumumba, do Congo, Fidel Castro, de Cuba, Abdul Kassem, do Iraque, Rafael Trujillo, da República Dominicana, Ngo Dinh, do Vietname, e René Schneider, do Chile, não custa acreditar que também tivesse despachado uma loura frágil de 36 anos, encafuada a barbitúricos. Eu, nestas matérias, já de nada pasmo, tudo acho possível  e quanto mais absurdo, mais de acreditar.
Em O Fantasma de Harlot, já Mailer se tinha entranhado nos labirintos da CIA, uma teia de ambições, ardis, crimes e violência. Foi, no mínimo, um bom jornalista que escreveu bons livros. Merece ser lido.

AZAR

Precisou de 20 anos para descobrir que lhe faltava talento literário. Mas já era tarde: tinha-se tornado um escritor célebre.

MARX, FREUD E ERICA FONTES

Dois profetas dos tempos modernos, Marx e Freud, deixaram rasto não apenas no campo económico e clínico, mas também na área da literatura. Marxismo e freudismo apoderaram-se de tal modo da ficção que, por anos e anos, custou descobrir um romance em que as personagens não fossem vítimas da exploração económica ou da opressão da libido. Em certos volumes, acumulavam. O prosador sabia que, para obter a aprovação geral, preciso era apresentar a protagonista sob as garras do patrão explorador ou debaixo de um marmanjo lascivo.
Como o tema neo-realista passou um tanto de moda, perdurou o sexo. O problema é que não é fácil escrever sobre sexo. Por via de regra, a
s descrições são foleiras. Os brasileiros superam-nos de largo. Não encontro na literatura lusa a obscenidade estilística de um João Ubaldo Ribeiro ou a sensualidade matizada de um Rubem Fonseca. Por cá, abunda um registo de exageros e lugares-comuns. Os homens têm sempre "erecções gigantescas", "erecções colossais", por vezes ao primeiro olhar, e as mulheres, todos os dias "insinuantes" e "insaciáveis",  atingem "orgasmos sucessivos" e "violentos".
Por isso mergulhei com esperança na autobiografia de Erica Fontes, a nossa pornstar emigrada em Los Angeles. Não esperava dela, ou de quem escreveu o livro, um estilo elegante e primoroso, mas pelo menos algum realismo fisiológico e de costumes. Uma desilusão. Descobri logo, ao fim das primeiras páginas, que a miúda está é apaixonada pelo namorado. Há por ali passos melosos e quase poéticos da sua relação com o rapaz. Ora, para essas melopeias da paixão já 
tínhamos a Maria Teresa Horta. De uma actriz pornográfica, galardoada com um prémio XBIZ, que é uma espécie de óscar do género, esperava mais. A sério que esperava.

UMA AGULHA NO PALHEIRO

Se elegi Comme le Temps Passe como romance da juventude, dou lugar de relevo dentro do género a Uma Agulha no Palheiro [The Catcher in the Rye, no original, também traduzido como À Espera no Centeio], de J. D. Salinger. Um livro admirável, um grande romance, que começou por ser proibido nas bibliotecas públicas e acabou como leitura obrigatória nos currículos de liceu.
Sem atingir a dimensão mítica de Brasillach, o escritor norte-americano criou Holden Caulfield, uma personagem extraordinária de perspicácia e rebeldia: um herói juvenil que, depois de expulso do colégio caro que frequenta, expressa o seu desprezo pelo mundo falso e burguês dos adultos, enquanto vagueia por Nova Iorque. 
O sucesso de Uma Agulha no Palheiro fez que J. D. Salinger se mudasse de Manhattan para uma casa de campo no New Hampshire, onde viveu até à morte. Quando ia aos restaurantes locais, comia na cozinha, para evitar o contacto com as pessoas. Em vez de enfrentar o mundo, como o herói da sua ficção, escondeu-se do mundo. Há revoltas que só funcionam na literatura.

LIVROS & MULHERES (X)

CURSO DE NOIVOS

Nelson Mandela esteve preso quase 30 anos. Foi condenado a trabalhos forçados. Parece que chegou a ser torturado. Aguentou esse regime, década após década, sem um queixume ou fraqueza.
Em 1990, é libertado. Regressa a casa. E ao fim de seis meses com a mulher, diz: "I can't take this shit no more!"
Era deste modo que eu começaria aqueles cursos de noivos ministrados nas paróquias. Suporta-se o cárcere porque se vai já preparado para o sofrimento. De um sistema prisional espera-se sempre o pior. Mas o que condena irremediavelmente os homens livres é a ilusão da felicidade.

SAIA UM RENAUDOT PARA GABRIEL MATZNEFF

O escritor francês Gabriel Matzneff, de 76 anos, ganhou ontem o prestigiado Prémio Renaudot, na categoria de ensaio, com o livro Séraphin, c'est la fin! que reúne artigos e crónicas que escreveu em várias publicações de 1964 a 2012.
Amigo de Hergé e Cioran, conviveu também com o grande Henry de Montherlant, de quem espalhou as cinzas em 1972. Defendeu à outrance o mérito do Les Deux Étendards, de Lucien Rebatet, afastado das estantes por motivos pouco literários. Meio anarquista, dá-se bem com Alain de Benoist e colabora na revista Éléments
Os editores portugueses não o conhecem, mas Matzneff é um dos mais originais escritores da actualidade, com uma obra própria de cunho exclusivo, bem diferente daqueles recidivistas marcados da pirataria literária.
Mas a atribuição do prémio pode gerar polémica. É da sabença geral: no melhor pano cai a nódoa. Matzneff é um pedófilo notório, como se topa em obras como Les Moins de Seize Ans ou Mes Amours Décomposés — e ainda nas páginas dos seus diários, que narram aventuras de turismo sexual nas Filipinas, com jovens de 14 e 15 anos. Não perfilo na ala dos moralistas, criaturas sempre exigentes no cumprimento da virtude alheia, mas confesso não vou tão longe na liberalidade. Matzneff enfrenta o tema e diz que é precioso distinguir a violação de uma criança de 8 anos, que ele condena, do acto consentido de um jovem de 15. Haveria que distinguir entre pedofilia e efebofilia. Creio que, nestes ou noutros termos, a questão vai ser uma causa fracturante a ser debatida proximamente. A obra do francês serve de introdução ao tema.
A mancha não apeou André Gide ou Oscar Wilde do panteão da literatura. Nabokov continua a vender que nem ginjas. E a Matzneff é de conceder pelo menos o benefício da dúvida literária. Provocador, iconoclasta, grande estilista, talvez o maior entre os polígrafos franceses vivos, não merece que a obra seja empanada pelos vícios privados. Cuspir-lhe-ão decerto os epítetos infamantes, mas nisto da literatura os críticos ladram e o génio passa.