PARA SEMPRE

Prometeu amá-la para sempre mas sabia que para sempre nunca dura para sempre.

BARBEIRO E BRIOL

"Que barbeiro!", diz-se na minha terra nestes dias de nortada gélida. Barbeiro, sim, porque o vento rapa os queixos ao transeunte desprevenido. É esta a explicação que encontro. Não sei se haverá outra. Já o briol dos dias frios é um castelhanismo ligado à marinhagem, como tantos.

EFÉMERO

Cada vez mais a efeméride é a celebração do efémero.

VERNE QUE TE QUERO VERNE



Há uma relação íntima e misteriosa entre os títulos de Júlio Verne e os da chamada literatura erótica, que de literatura, nada, e de erotismo, idem. Espanta-me que não se hajam ainda lembrado das Vinte Mil Léguas Submarinas. Léguas, línguas... Submarinas? Sinto que podia sair daqui um livro memorável. 

LIVROS & MULHERES (XIII)

EXIGÊNCIA

Em português, há mil e uma maneiras de se exprimir uma ideia. Só a melhor é boa.

A MARTELO

Descobriram as editoras que os romances que se vendem bem andam pelas quatrocentas ou quinhentas páginas. Logo os escritores começaram a largar de si livros cada dia mais folhudos. Se já era difícil partejassem prosa de qualidade, será hoje um milagre que escrevam coisas de valor proporcionado ao número de páginas.
Os volumes saem das gráficas pesadíssimos, inchados, a arrastar os pés pelo chão e com capas do Cayatte para impressionar toda a cabeleireira alfabetizada. 
Isto dos romances de quilo foi uma grande ideia comercial. A leitora compra o Rodrigues dos Santos ou o Domingos Amaral por 20 euros e fica com literatura para o ano inteiro. É o mesmo princípio que levava dantes a gente a sortir-se de vinho com um garrafão de 5 litros para não ter que demandar a taberna todos os dias.  

STERNE

Faz hoje 300 anos que nasceu o escritor irlandês Laurence Sterne. É preciso alçapremar o homem para o galarim dos grandes génios, ao lado de Camões, Cervantes, Rabelais ou Shakespeare. Leiam Diário para Eliza ou A Vida e Opiniões de Tristram Shandy e descubram-lhe o talento extraordinário, a capacidade de inovação, os canais que ele abriu para que outros neles singrassem quase até aos nossos dias.  

OBRIGADINHO, PÁTRIA DE BURROS E DE ASSASSINOS

Embora impotente, protesto ante a humanidade em peso contra a ignomínia de que fui Cristo. Essa epopeia, de 6.000 decassílabos, é o meu grito de estertor.
Além dela, e tudo em quatro meses (!) escrevi um romance, um adiantado livro de memórias e 250 sonetos. Cheguei, numa tarde, a escrever 21, totalmente em transe, de mão automática e cérebro electrónico.
Nunca mais o abraçarei, meu querido amigo, eu, o tão apaixonado da Poesia, que tinha, depois da sua, a melhor colecção de Poesia de Portugal. Não, nunca mais. A Lisboa só voltarei quando seja para me asilar no manicómio, já para mim de tão pavorosa lembrança, e lá morrer, de lá sair na dantesca maca dos defuntos que frequente e de madrugada ouvia rodar à porta do quarto. Irei ouvir os uivos dos loucos e os gritos parvos do casal de pavões que lá heraldicamente passeia. Irei ser maltratado e achincalhado pelos criados de bata amarela, Salazares e Bérias do armazém. Digo que muito obrigado à Pátria. — Obrigadinho, Pátria de burros e de assassinos, de administradores da Sacor, de Faz-Tudos de barraca de feira que se honram de levar chulipas e bofetadas! Adeus, Pátria de governadores civis de Portalegre! Quis servir-te, de pé, e tu só aceitas lambedores cães de regaço, — Lésbia! Não gostas de homens!


[Tomás de Figueiredo, em carta inédita a João de Castro Osório, de 3 de Outubro de 1958]

ROADS


Oh, can't anybody see
We've got a war to fight
Never found our way
Regardless of what they say

How can it feel, this wrong
From this moment
How can it feel, this wrong

LADO B

Ela disse-lhe: "Acho que tenho um interior bonito". Ele percebeu que estava condenado a encontrar mulheres cujo lado melhor é o avesso.

NA VASSOURA PARA AS CARROÇAS

Neste país só faz estrondo o escândalo ou a chalaça. Um livro bem pensado e bem composto apenas impressiona os dez literatos inteligentes que por aí vivem lurados na sua obscuridade. O restante é a malta dos noticiaristas, gentio que os porteiros de Paris levariam na vassoura para as carroças.
 
[Camilo Castelo Branco, em carta para J. C. Vieira de Castro]

DO ATRASO PORTUGUÊS


O naturalista suíço Merveilleux, nas Memoires instructifs pour un voyageur dans les divers États de l'Europe, de 1738, conta que perguntou ao Marquês de Fronteira, Intendente-Geral da Moeda, da Fazenda e da Marinha, por que razão os teares da Covilhã estavam parados — e se desprezava tanto a indústria. Respondeu-lhe o velho político: Deus fez-nos donos do ouro que extraímos do Brasil sem quase ser necessário cavar.

ESCRITA CRIATIVA: LIÇÃO N.º 1 (POESIA)

Desde que os poetas trocaram a música pela metáfora, contra a recomendação de Verlaine,  toda a gente pode produzir poesia pós-experimental. E da boa. A primeira noção a assimilar é que o metaforismo em voga não transmite propriamente ideias e as composições raro se organizam em torno de uma mensagem.
Aviso prévio à turma: nada de estudar as leis da metrificação, da elisão rítmica ou da partição acentual. Esta cerrada matéria, sobre ser perda de tempo, pode dar cabo de uma carreira.
Assim, o poeta deve começar por seleccionar um conjunto de palavras, as suas palavras, uma espécie de vocabulário próprio que defina o seu registo. Por exemplo: espaço, árvore, voz, pedra, memória, murmúrio, vórtice, folhagem, frescura, azul, raiz, imagem, água, construção, nuvem, corpo. Dez a vinte palavras chegam e sobram para apontar às antologias contemporâneas. Como veremos adiante, todos os poemas do livro vão girar à volta dos vocábulos da lista.
A seguir, é preciso ligar as palavras seleccionadas de qualquer forma ou nem sequer as ligar mas aproximar apenas. Nunca, porém, no sentido comum ou corrente.
Aqui vai o início de um poema, com a lista de palavras mencionada:
 
A voz da pedra é nuvem
Construção do murmúrio no espaço
No vórtice da frescura onde a imagem treme
A água desta pedra na folhagem do azul
E a árvore do teu corpo na raiz da memória

Reparem que a ordem das palavras é secundária. O último verso, por exemplo, pode ser grafado de distintas maneiras: e a raiz do teu corpo na árvore da memória, ou e a memória do teu corpo na raiz da árvore, e assim por diante.
Há versos que podem transitar de um poema para outro sem deslustre. Se um esboço estiver a ficar comprido, extraem-se os versos demasiados, que se enxertam noutro poema.
Finalmente, após o lançamento, a opinião impressa há-de escrever qualquer coisa deste feitio: "Revelação do ano, a essência da sua poesia manifesta-se numa metalinguagem de herméticas metáforas, nimbadas de sensualidade expressiva. A liberdade na moderna linguagem poética exerce-se num espaço de arbitrariedade e pluralismo. A univocidade é asséptica, mas na sua poesia retorna a si mesma, à plenitude do significante". Ou seja, o crítico também não entendeu patavina. E isto, meus amigos, é essencial: que o público, a crítica e o próprio autor permaneçam nas trevas do entendimento é meio caminho andado para a glória literária. O resto é cunhas e contactos.

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Pediram-lhe um slogan para o Facebook e ele, quase sem pensar, respondeu: "Idiotas de todos os países, uni-vos!" Como recusassem a proposta, ele avançou com outro mais moderado: "Mil milhões de parvos não podem deixar de ter razão!"

OUTRO HOMEM

Havia um sujeito falho de orgulho próprio, inseguro, sempre hesitante, que dizia qualquer coisa assim: "Alguns homens, quando estão com uma mulher, pensam noutra mulher. Eu, quando estou com uma mulher, penso que sou outro homem".

LIVROS & MULHERES (XII)

OS CAFÉS


Parece que foi há 200 anos. Os cafés bem no centro da cidade, largos e luminosos, com mesas de tampo de mármore. Ainda não pegara a moda do mobiliário de plástico oferecido pelas marcas de bebidas, a troco de fidelização. Os empregados solenes, calças pretas, colete preto, camisa branca, a manejar bandejas numa perícia de décadas.
Os cafés e os clientes receberam ordem de despejo, ala que se faz tarde rumo ao progresso: os estabelecimentos banquerizados, alguns convertidos em supermercados, outros demolidos para construção de apartamentos. Desapareceu com eles um estilo de viver e conviver, de tertuliar e de passar o tempo: as conversas fúteis, os estudantes, os namorados, o engraxador, o pedinte, os malucos, sempre os malucos  e aquelas velhas sabidas que montavam na cadeira posto avançado de observação e presumiam a vida íntima da cidade. Era um zoo humano que servia torradas e galões, mais do que bichos. 

Nos dias de invernia, quando a chuva zimbrava às varreiradas sobre os passeios alagados, entravam ligeiros os clientes, como a acabar uma corrida. Depois de uma esfregadela de sapatos no tapete, enfiavam no bengaleiro o guarda-chuva, que ali ficava a chorar para o chão.
Esses "cafés da minha preguiça", como dizia o Mário de Sá-Carneiro, é que eram as verdadeiras redes sociais, ainda o doido do Zuckerberg não tinha nascido. Parece que foi há 200 anos. 

É DEMASIADO, DE FACTO


Proust explique beaucoup pour mon goût — 300 pages pour nous faire comprendre que Tutur encule Tatave c'est trop.
 
[Céline]

GANHAR A VIDA

Quando ouço os jovens escritores a falar das vendas, lembro-me sempre de Bernard Shaw: "Só porque sou um homem de letras, não se deve supor que nunca tentei ganhar a vida honestamente".

POSSE

Mato o que te prender, sem mim, à vida.
Sou a luz que te entrega e rouba a cor,
Exército, violências, investida,
Amar-te é destruir-te, meu amor.

 
Tua língua se estorce em minha boca
E o meu corpo raivoso esmaga o teu.
Numa esfera de sombra, imensa e oca,
Giramos, na loucura que nos deu.

 
Enrodilhados, somos um chicote
Silvando, pela noite, e a voar.
Um silêncio expectante. Um holofote,
Súbito, irrompe, descobrindo o mar.

 
Um instante: no espasmo, nós tocamos
A Morte, os astros, a unidade. Eleitos,
Vemos a face à Vida e ali ficamos
Suspensos, intangíveis e perfeitos.

 
Conheço que o teu corpo é, nesta luta,
Nossa realidade encarcerada.
E a voz do mar se esconde e espreita e escuta
Na gruta da tua carne e do teu nada
.


Teu corpo é o Absoluto estilhaçado
E, para o libertar e recompor,
Preciso de incluí-lo, renovado.
Amar-te é destruir-te, meu amor.
 

 
[Goulart Nogueira]

GOULART

A Gisela João, talvez a revelação discográfica do ano, gravou Madrugada sem Sono, um belíssimo poema de Goulart Nogueira. O lance merece desenvolvimento. Goulart Nogueira é um dos milagres da poesia portuguesa na segunda metade do século XX. A sua obra poética permanece em grande parte inédita, visto que só editou um livro de poesia, Barco Vazio em Rio de Sombra, em 1951.
Algumas wikipédias dão-no por morto. Está vivo, a caminho dos 90 anos, embora acamado e sem consciência de si há mais de uma década. Em 2008, pediram-me que ajudasse a coligir e organizar os seus inéditos, dispersos por mil e um papéis, envelopes e até pacotes de açúcar, tarefa que realizei com a paixão da descoberta. 
Sobressai na poesia de Goulart um talento chispante, revulsivo, com perscrutações semânticas, ontológicas e metafísicas, mas sempre numa linguagem pura além do escândalo da sua originalidade e dos temas. Jorge de Sena escreveu que "um amoralismo subterrâneo e dramático deu-lhe, todavia, sob a versificação brilhante, uma perturbadora vibração". Oxalá seja editado e depressa. 

MADRUGADA SEM SONO

 
Na solidão a esperar-te
Meu amor fora da lei
Mordi meus lábios sem beijos
Tive ciúmes, chorei

Despedi-me do teu corpo
E por orgulho fugi
Andei dum corpo a outro corpo
Só p'ra me esquecer de ti

Embriaguei-me, cantei
E busquei estrelas na lama
Naufraguei meu coração
Nas ondas loucas da cama

Ai abraços frios de raiva
Ai beijos de nojo e fome
Ai nomes que murmurei
Com a febre do teu nome

De madrugada sem sono
Sem luz, nem amor, nem lei
Mordi os brancos lençóis
Tive saudades, chorei

[Goulart Nogueira]

LIVROS & MULHERES (XI)

A CIGARRA E A FORMIGA

A cigarra passou o Verão a divertir-se
Sempre em bares de strip, a vestir-se, a despir-se,
O cigarro na boca e um copo na mão
— E mais cem euros na conta por cada actuação.

Ofereceu a si mesma um jipe no aniversário
E cinco assoalhadas em regime hipotecário.
Vestia da Versace
E da Sonia Rykiel;
Sempre à la page,
Rescendia a Chanel.

A formiga, ao invés, era uma desgraçada:
Não tinha carro, não tinha tecto, não tinha nada.
Conseguiu o mestrado com basta canseira;
Ficou desempregada sem eira nem beira...
Um dia, após tanto penar,
A casa da outra quis ir desabafar:
"Ouve, cigarra,
O mundo é cão:
Tu na farra,
Eu sem tostão;
Tanta dor, tanto estudo
E estafa...
E depois disto tudo,
Nada...
Sinto que há na minha alma um vácuo imenso e fundo,
Já pensei suicidar-me, afastar-me do mundo..."

"Não chores a tristeza e menos a amargura,
O mundo é mesmo assim, a vida é sempre dura",
Explicou-lhe a cigarra em tom de afectuosa amizade
Como se fora um conto dos mil e um de Xerazade.
"Bem me pareceu no fim do 9.º ano
Que o ideal seria um futuro menos espartano...!
Perfilha o meu divino exemplo
E faz da noite um Templo.
Acredita, formiga:
Deus, quando abre à mulher as portas desta vida,
Ampara-a dia-a-dia, fá-la sua protegida,
Porque todas temos um dom"
(E aqui discretamente passou-lhe o bâton).
"Comecei no Ano Novo e, desde Janeiro,
Iluminou-me sempre o luar do dinheiro.
Antes quero ir assim construindo o meu Céu
Do que esperar pelo modelo social europeu.
Às vezes, é preciso olhar por cima do umbigo;
Se precisas de ajuda, podes vir comigo".

Dirigiram-se as duas para uma casa de alterne
E o primeiro cliente foi o senhor La Fontaine.

A CRISE EXPLICADA AOS INSECTOS

Num dia de inverno uma Cigarra esfomeada pediu a uma Formiga um pouco de comida que esta tinha armazenado.
— O quê? — disse a Formiga — Não trataste de armazenar alguma comida para ti, em vez de estares sempre a cantar?
— Assim fiz — respondeu a Cigarra —, assim fiz; mas as tuas amigas entraram por minha casa adentro e levaram-ma toda.

[Ambrose Bierce, Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas]

AMBROSE BIERCE

O escritor Ambrose Bierce, émulo de Mark Twain e H.L. Mencken, foi  um mestre do humor e do pessimismo. As suas fábulas apresentam simultaneamente um carácter alegórico, moral e  cínico. Polemista brilhante,  desapareceu sem deixar rasto em 1914. Escreveu o célebre Dicionário do Diabo, mas tem outras obras traduzidas para português, como Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek e Esopo Emendado & Outras Fábulas Fantásticas. É um autor para revisitar nos nossos dias.

OS BUFOS

O bobo medieval bracejou em tanta cópia que foi preciso dar nome às espécies. Surgiram o jogral, o truão, o arlequim, o palhaço e, por derradeiro, o humorista um sujeito que, dotado de talento motejador, faz rir o público e é aplaudido à gargalhada. Tais qualidades não o distinguem hoje do comum dos políticos e é decerto por isso que muito aspirante a humorista, para ganhar a vida, preferiu a política ao chiste.
Bruno Nogueira e Ricardo Araújo Pereira são exemplo dos que optaram pela política. A escolha é legítima mas deve prevenir-se o consumidor para que não compre gato por lebre. Os dois rapazes alapardaram-se em rubricas ditas de humor para esguichar o fel da ideologia. A diatribe do granjola de barba intonsa contra Margarida Rebelo Pinto é uma canalhice sem nome. Nem sequer humor fraquinho, mas apenas chuva de impropérios, cuspidos de enfiada e com voz irritante e desnatural. Ao denunciar a opinião da senhora, num burlesco de fundo ideológico, alcança um dos significados de bobo: o de bufo ou bufão. Raio de país em que os humoristas se dedicam à política e os políticos é que nos fazem rir.        
Já Ricardo Araújo Pereira e os outros gatos andam calados de humor porque se lhes deve ter esgotado o saco de piadas roubadas na estranja. Falsários geniais da piada postiça, montaram tenda de contrabando nos órgãos de comunicação. Dos genéricos aos textos, tudo lhes chega à socapa lá de fora. As piadas que aviam ao público português chegam já ressessas, em segunda mão, impróprias para consumo, entesouradas à sorrelfa do repertório alheio.
Humoristas oficiais do regime, são também eles um dos rostos da crise. Se tivessem consciência capaz de rebates, há muito teriam largado o ofício e, envergonhados, para se desemburrarem nas noções elementares do mister, deitavam-se a ver os vídeos do melhor humor contemporâneo, dos Monty Python ao Seinfeld e às criações de Ricky Gervais. E estudariam também a história do humor luso, que vem de Mestre Gil e Tomás de Noronha, visita o Eça e o André Brun e, por este andar, não há-de passar por eles. As próprias anotações de Leite de Vasconcelos sobre a matéria na sua Etnografia Portuguesa ainda agora merecem ser lidas.  
Um humorista travestido de político é sempre um falhado. Se é político e plagiário, pior. De toda a fancaria que grava hão-de ficar apenas os perdigotos gosmados pelo ódio ideológico. Dá vontade de chorar, não de rir. 

NORMA E NORMAN


Faz hoje seis anos que morreu Norman Mailer. Nunca percebi o menosprezo a que foi votado por alguns críticos. Certo que o homem era antipático e um tanto doidivanas. Casou-se cinco vezes, teve nove filhos, bebeu álcool e consumiu drogas à farta e ainda esfaqueou uma das ex-mulheres numa discussão. Tinha obsessões despropositadas e maníacas. Mas esse era o maluquinho fichado das biografias sensacionalistas. O Norman literário revela-se mais importante.
Boa parte da literatura norte-americana não é bem literatura, mas jornalismo vendido em livros. Norman Mailer insere-se na tendência, mas pelo menos escreve bom jornalismo, dentro da chamada não-ficção criativa, o new journalism, em que se distinguiram igualmente Truman Capote e Tom Wolfe. E, atrevo-me a dizê-lo, o próprio David Foster Wallace, não o dos contos e romances, mas o dos ensaios sobre David Lynch e sobre a língua inglesa, por exemplo.  
É neste quadro que Mailer merece ser estudado. A sua biografia de Marilyn Monroe, publicada em 1973, inculpa o FBI e a CIA na morte da actriz, devido ao suposto romance com o senador Robert Kennedy. A tese pode parecer arrevesada, mas se pensarmos que a CIA, por essa altura, elaborou planos para matar Patrice Lumumba, do Congo, Fidel Castro, de Cuba, Abdul Kassem, do Iraque, Rafael Trujillo, da República Dominicana, Ngo Dinh, do Vietname, e René Schneider, do Chile, não custa acreditar que também tivesse despachado uma loura frágil de 36 anos, encafuada a barbitúricos. Eu, nestas matérias, já de nada pasmo, tudo acho possível  e quanto mais absurdo, mais de acreditar.
Em O Fantasma de Harlot, já Mailer se tinha entranhado nos labirintos da CIA, uma teia de ambições, ardis, crimes e violência. Foi, no mínimo, um bom jornalista que escreveu bons livros. Merece ser lido.

AZAR

Precisou de 20 anos para descobrir que lhe faltava talento literário. Mas já era tarde: tinha-se tornado um escritor célebre.