Que os governantes aprendam de vez que a expressão ajuda externa é sempre um paradoxo. Ou somos nós, ou nunca seremos.
MARIDOS
A gente cria o costume e gosta mais
por costume que por outra coisa. Que outra coisa é que podia ser. Depois, a
gente afeiçoa-se, mas afeiçoa-se já doutra maneira, e são uns filhos grandes
que casam connosco.
Outros acham que a gente há-de gostar deles
por isto ou por aquilo. Ora! A gente nem sabe porque gosta […]
Sempre o mesmo homem, senhor juiz — o mesmo
homem todos os dias, com o mesmo corpo e a mesma maneira! Todas as noites,
senhor juiz, e na mesma cama — nem a cama muda ao menos. E aquilo ao fim de
tempo já não era viver, nem coisa que se parecesse — era uma coisa entre comer
para não ter fome e fazer o serviço da casa... Se os homem soubessem o que custa
a aturar! Se soubessem o nojo que a gente tem por eles cá dentro quando está
encostada a eles!
E eu, senhor juiz, não tinha outro
remédio senão matá-lo para estar bem com a minha consciência e com a Igreja.
Foi por isto, senhor juiz e senhores jurados,
que eu matei o meu marido.
[Fernando Pessoa, O Mendigo e Outros
Contos]
LISBOA, CAPITAL DO LIXO

Lisboa merece, sem favor, o título de
capital mais porca da Europa. A Torre Eiffel está para Paris como para Lisboa o
lixo a pontapé nas ruas e os grafitos nas paredes. A fama vem de longe. Contam
os olissipógrafos que era Portugal senhor do mundo e Lisboa recortava-se um dédalo de ruas estreitas e fedorentas, com os dejectos
lançados das janelas, os cavalos a patinhar na lama imunda, picados de
mosquitos e polvilhados de moscas — e as escravas negras em largada pela Rua do
Conde abaixo, levando na cabeça os baldes de porcaria que despejavam no rio. Mais
tarde, já no século XVIII, o Chiado só se fez Chiado depois que Pina Manique
encanou as caleiras dos dejectos públicos que deslizavam a céu aberto do Alecrim
para as praias da Ribeira.
Mantém-se, nos nossos dias, o fétido
cenário, que atrai e diverte a turistada europeia. É mais barato voar para
Lisboa do que para Nova Deli. E a comida melhorzinha, graças a Deus — mais saborosa e menos
picante.
A greve transformou a cidade numa
lixeira nauseabunda, ante a inércia da autarquia. Nestas condições, normal seria
que a jornalice espaventasse o escândalo, matéria de higiene urbana e saúde
pública. Dorme, porém, descansado o presidente da Câmara. O homenzinho ajunta
ser socialista a ser monhé, duas qualidades fundamentais que lhe garantem a
imunidade jornalenga.
O nosso porquinho-da-Índia não denota,
na verdade, o mínimo melindre. É preciso relativizar estas coisas. Ele sabe que,
no que toca a limpeza, Bombaim ainda é pior. Embalde pedem, pois, os munícipes
responsabilidades. A imprensa não quer enfarruscar as ambições políticas do
cavalheiro. Lisboa já lhe fica curta nas
mangas e inodora nas narinas. Tarde ou cedo, há-de perfumar de lixo o país inteiro.
GOULD E BACH
Nesta quadra, ofereço aos meus leitores a arte de dois génios: Glenn Gould a tocar o Concerto n.º 1 para piano de Bach. Ambos certificam a existência de Deus.
Feliz Natal!
ALCIDES E O BURRO
Alcides era um velho pastor beirão. Desde
que enviuvara, havia dez anos, vivia acompanhado de Moreno, um jumento fiel. Dez
anos assim. Alcides e o burro, o burro e Alcides. Adoravam-se. Fora amor à
primeira vista. O pastor gostava de rememorar o dia em que se encontraram um
com o outro — e os dois com a vida. O animal retribuía-lhe o afecto. Lembrava-se
embevecido de que Alcides, na feira de gado, o distinguira no meio de um
regimento de azémolas e lhe dera uma palmada rija no lombo (Belo animal! Quanto
custa o jerico?) Ah!... A mão suave de Alcides. Nem comparação tinha com a de
Tadeu, o vendedor, que se lhe escanchava em cima e o chicoteava continuamente
com a soga da rabeira. Que diferença! Por Alcides, nem sabia o que era um estábulo. Nunca lhe batia: o castigo
era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma interjeição mal-humorada.
Entendiam-se pelo olhar, como qualquer casal moderno e de boas avenças.
Um ano passou, outros anos passaram. E
entre os dois a paixão foi crescendo — a ponto de se tornarem inseparáveis. Habitavam
a mesma casa, dividiam a mesma mesa, dormiam no mesmo leito. E isto se
bacorejava aldeia fora, nas conversas intriguistas dos vizinhos e das beatas:
Alcides e o burro viviam em união de facto. Por isso, e muito justamente, o
pastor lamuriava-se de não poder deduzir os gastos de Moreno, alimentado a pão-de-ló,
nas contas anuais do IRS. Tal discriminação indignava-o. E indignado ficou
também o burro quando internaram o dono no hospital da
vila (maldita cirrose…) e lhe interditaram — a ele, bicho fidelíssimo — o acesso
à enfermaria. Ao pobre animal, doía-lhe no peito que não tivesse os mesmos
direitos de visita que o marido ou a mulher de outro doente. Dias depois, como
o pastor morresse, chegou de Lisboa uma parentela ignota que, a dois tempos,
tratou do funeral e das partilhas — sem que o bicho amantíssimo pudesse herdar
o casebre ou a horta. Seria o mínimo,
depois de uma vida a dois.
Errou o jumento, choroso, pelas ruelas
da terra, alijando a dor da perda. Dobaram-se os meses, mas nunca conseguiu
voltar a casa. Olhou com indiferença as luzes festivas e um burro de gesso no presépio da
praça. Tresnoitou-se de lameiro em
lameiro, contemplando as estrelas — companheiras leais dos solitários. Não passou
fome, tanto que se alimentava dos tojos que despontavam no monte, mas definhou
consideravelmente. Quando entrou o Inverno, frio e chuvoso, Moreno estava um
palito. Na noite de Natal, apareceu morto no adro da igreja. Ainda agora
se diz na aldeia que morreu de amor.
LIVROS & MULHERES (XVII)
Marguerite Yourcenar a ler em casa, em 1986, um ano antes da sua morte.
A secção Livros & Mulheres costuma reincidir por gosto e vocação em mulheres mais novas e menos enrugadas. Abre hoje excepção para a escritora belga de expressão francesa, que morreu neste dia há 26 anos.
Na sua obra, avulta o livro Memórias de Adriano, um
romance histórico magnífico, quer como documento, quer como monumento de
arte literária.
A Obra ao Negro oferece-nos um espantoso
fresco da Europa do século XVI e O Golpe de Misericórdia conta-nos de forma
magistral um singularíssimo triângulo psicológico, constituído por Eric, Sophie
e Conrad, com um desfecho cem por cento patético e nobilitantemente trágico,
na melhor linha da nobreza intrínseca daquelas personagens.
Yourcenar revelou-se também uma ensaísta erudita e profunda. Vale a pena ler, neste domínio, Mishima ou a Visão do Vazio, A Benefício de Inventário e O Tempo, Esse Grande Escultor.
Muito azar teve a autora nos tradutores que lhe
calharam em sorte para verter (ou antes: subverter) a vasta obra para português.
Com a excepção de Rafael Gomes Filipe, os tradutores lusos — de Maria Lamas a
António Ramos Rosa — nunca conseguiram transmitir o brilhantismo, o estilo, o
fulgor da sua escrita.
FICAR DE PÉ
De hoje ao revelhão, haverá greves na Casa da Moeda, CP, Metro, Carris, SATA,
EasyJet e outros transportes (trenós puxados por renas não contam). Param também
os professores, os enfermeiros e os homens da recolha de lixo.
Indiferente a estas manifestações de protesto, recolho-me à intimidade de casa. Conheço a fita de cor e salteado. Tudo se resolverá, como de costume, com o chamado rotativismo democrático, isto é, a alternância de cabos partidários e suas clientelas. Sairão uns, entrarão outros — e far-se-á uma festarola ruidosa em frente à sede do vencedor, com discurso e bandeirinhas.
Esse folclore deixa-me indolente. Recolho-me à família, aos livros, à música que engrandece. Aprendemos sozinhos que a felicidade não existe: a vida é uma soma de perdas e desilusões. Mas acalentamos ingenuamente a esperança de que em manada, com dez mil pessoas a berrar na rua, as coisas talvez possam mudar. Prefiro seguir a velha lição que nos ensina a ficar de pé no meio de um mundo em ruínas.
Indiferente a estas manifestações de protesto, recolho-me à intimidade de casa. Conheço a fita de cor e salteado. Tudo se resolverá, como de costume, com o chamado rotativismo democrático, isto é, a alternância de cabos partidários e suas clientelas. Sairão uns, entrarão outros — e far-se-á uma festarola ruidosa em frente à sede do vencedor, com discurso e bandeirinhas.
Esse folclore deixa-me indolente. Recolho-me à família, aos livros, à música que engrandece. Aprendemos sozinhos que a felicidade não existe: a vida é uma soma de perdas e desilusões. Mas acalentamos ingenuamente a esperança de que em manada, com dez mil pessoas a berrar na rua, as coisas talvez possam mudar. Prefiro seguir a velha lição que nos ensina a ficar de pé no meio de um mundo em ruínas.
ONDE, O NATAL?
O presépio cedeu o lugar à árvore e o Menino Jesus foi substituído por um velho ridículo de barbas brancas.
ANTÓNIO JOSÉ FORTE
Ninguém se lembrará decerto que faz hoje 25 anos que morreu António José Forte. Membro da famosa tertúlia do Café Gelo, com Mário Cesariny e Herberto Helder, revelou-se um dos bons poetas do surrealismo português. Sempre achei que é na sua obra que se topa com mais clareza o que foi a aventura literária, revolucionária e até anarquizante daquela escola. O Poeta em Lisboa tem lugar cativo na minha antologia poética pessoal.
O POETA EM LISBOA
Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.
Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.
Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha — numa música secreta, inaudível.
Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.
Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.
Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.
Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.
Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.
Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.
[António José Forte, Uma Faca nos Dentes]
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.
Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.
Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha — numa música secreta, inaudível.
Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.
Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.
Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.
Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.
Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.
Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.
[António José Forte, Uma Faca nos Dentes]
OLIVEIRA
Manuel de Oliveira, que celebra hoje 105 aninhos, é um dos equívocos da crítica nacional. O João Marchante, que sabe do ofício, inscreve o velho cineasta "na genealogia espiritual e identitária que tem as suas profundas raízes em Luiz Vaz de Camões, o seu sólido tronco no Padre António Vieira e os seus criativos ramos em Fernando Pessoa". O certo é que, por décadas a fio, ninguém ligou peva a Oliveira. Quando estreou Amor de Perdição, em 1979, tinha o mestre dobrado já o cabo dos setenta, os críticos portugueses, supondo que fosse o seu último filme, quiseram lavrar-lhe um elogio quase póstumo. Correu-lhes mal o plano. O homem estava aí praticamente a começar a carreira. Depois de Amor de Perdição, realizou uma trintada de filmes bem contados. E por cada um deles os críticos foram obrigados a repetir os elogios anteriores. Por cada fita, tiveram que engolir mais um sapo, comida forçada de periodistas. Depois habituaram-se.
Enquanto Oliveira ia trazendo prémios de Cannes e Veneza, enriquecia-se o anedotário luso com a suposta monotonia e lentidão dos seus filmes. Isto lembra-me sempre aquele aforismo de Ramón Gómez de la Serna: como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores. Assim também o velho cineasta: como realiza fitas lentas, dura-lhe mais a carreira.
Agora aqui entre nós, caro Manuel, vamos ao que interessa: antes do próximo, qual é o filme que se segue?
EMPLASTROS
Num concelho do Minho, põem-me de orador sobre urbanismo. Noto as filas dianteiras colonizadas pelo senhor presidente da Câmara, respectivos assessores e assistentes, os vereadores, os presidentes das juntas e outras figuras do poder local. É vício português esta omnipresença dos autarcas na vida da chamada sociedade civil. As cidades organizam-se em torno do senhor presidente da Câmara.
No jornal da terra, o homem mostra a fuça todas as semanas. O pavilhão ostenta a inevitável placa a informar que "o complexo desportivo foi inaugurado por S. Exa." Na procissão, logo atrás do pálio e do padre, lá vai todos os anos o senhor presidente da Câmara, acolitado por vezes da vereação em peso. Não há aniversário de associação recreativa ou de clube desportivo que não conte com a presença desinteressada do senhor presidente da Câmara, para dizer umas poucas de palavras sobre a instituição.
O senhor presidente da Câmara encontra-se por todo o lado. A esta forma de infernizar a vida dos munícipes chama-se, no jargão eleitoral, "política de proximidade". Se na vossa terra algum candidato prometer uma "política de proximidade", fujam do gajo a passo estugado. Se o
elegerem, nunca mais se livram dele. O autarca da "política de proximidade" assiste
às conferências, cumprimenta nos passeios, discursa nas associações, conversa
nas esquinas, inaugura rotundas, visita as escolas, passeia com os velhinhos, concede
entrevistas, vai à bola — e nas horas vagas, para se distrair de cuidados, gere
a autarquia. Temo que um dia comece a entrar pelas casas adentro para dar a beijar a Cruz no Domingo de Páscoa.
Estes autarcas arremedam nos seus concelhos aquele maluco do Porto que aparece sempre por trás dos entrevistados a fazer caretas na televisão. Emplastros, é o termo.
OS IDIOTAS (IV)
O Saavedra [o presidente da Câmara] ia inaugurar um planetário. Tinha-o construído com fundos externos e agora ia ter de o deixar a apanhar pó por falta de verbas para o seu funcionamento e manutenção. Mas ia inaugurá-lo, fosse como fosse. A obra estava pronta, não estava? Sem equipamentos nem mobiliário, era certo. Estava pronta a construção [...]
A cidade não precisava de um planetário. Bastava que um tipo se afastasse algumas centenas de metros do centro e o céu oferecia-se-nos sem segredos [...]
A cidade não precisava de um planetário e ele não ia funcionar — mas o Saavedra ia inaugurá-lo, com pompa, circunstância e a admiração imbecil do povo.
[Rui Ângelo Araújo, Os Idiotas, pp. 168-169]
OS IDIOTAS (III)
Em todo o caso, o Saavedra [o presidente da Câmara] usava
medalhas. Usava o 'pin' com a bandeira nacional e usava a menos discreta
medalha de mérito que um dia outorgara a si próprio, por interposta Assembleia
Municipal. Não havia muito pudor naqueles paços do município. Havia salamaleques,
protocolo, circuito interno de TV, serviços de espionagem, bufos, mas não havia
pudor. Havia um gabinete de toponímia de fraca produtividade: ainda só
atribuíra o nome do Saavedra a uma avenida, duas ruas, uma praça, um
gimnodesportivo e um viaduto. Havia um serviço de segurança que competia com o
do Vaticano, em números e discrição. Se andassem de ceroulas coloridas e
capacete emplumado, os guarda-costas do presidente não dariam mais nas vistas.
[Rui Ângelo Araújo, Os Idiotas, pp. 163-164]
PINEAPPLE THE WOOD
Os programas e concursos de culinária podem molestar os estômagos mais sensíveis. Em certas refeições caseiras, sofremos a influência das experimentações de chefs australianos, concorrentes ingleses ou gastrónomos suecos. É certo que foi na cozinha que o homem civilizado apurou a imaginação, mais do que na guerra e no amor. Nestas duas actividades físicas, após a magia das primeiras semanas, a coisa tende para a repetição mecânica de certos gestos. Mas a inovação culinária carece de ser entendida como uma disciplina própria, com algumas regras. Até porque sem boa cozinha não há salvação, nem neste mundo nem no outro.
Em Portugal, os apetites vão de modas. Primeiro foram os restaurantes chineses, depois os brasileiros, com os seus rodízios e a caipirinha, a seguir a mania do fondue (para poupar nos cozinheiros) e agora o sushi e outras porcarias.
De permeio, tentaram impingir-nos a manteiga de alho, as couvinhas de Bruxelas, o tomate-cereja e restantes bodegas. A cozinha tradicional cedeu à novidade pela novidade. Os produtos levados à mesa resultam menos do paladar dos clientes do que das negociatas com os fornecedores.
Em Portugal, os apetites vão de modas. Primeiro foram os restaurantes chineses, depois os brasileiros, com os seus rodízios e a caipirinha, a seguir a mania do fondue (para poupar nos cozinheiros) e agora o sushi e outras porcarias.
De permeio, tentaram impingir-nos a manteiga de alho, as couvinhas de Bruxelas, o tomate-cereja e restantes bodegas. A cozinha tradicional cedeu à novidade pela novidade. Os produtos levados à mesa resultam menos do paladar dos clientes do que das negociatas com os fornecedores.
De entrada, por iniciativa de algum produtor mais abispado, apresentam-nos agora aqueles pratinhos de azeite para demolhar o pão, modinha imbecil que passará como todas sem deixar rasto nem saudades.
No que toca aos pratos principais, é uma pançada de inovação criadora. Quinhentos anos depois de chegar à Índia, o País descobriu em êxtase o porco preto, com os seus famosos secretos, que de tão secretos andaram escondidos por séculos e séculos, se não desde a Batalha de S. Mamede, pelo menos desde a Bula Manifestis Probatum.
E para servir as sobremesas, o gastrónomo actualizado procede desta guisa: apresenta-as em pratos enormes, do tamanho de pneus, com a tarte a um canto e o prato decorado com quatro riscos paralelos e perpendiculares de um molho avermelhado e enjoativo.
No que toca aos pratos principais, é uma pançada de inovação criadora. Quinhentos anos depois de chegar à Índia, o País descobriu em êxtase o porco preto, com os seus famosos secretos, que de tão secretos andaram escondidos por séculos e séculos, se não desde a Batalha de S. Mamede, pelo menos desde a Bula Manifestis Probatum.
E para servir as sobremesas, o gastrónomo actualizado procede desta guisa: apresenta-as em pratos enormes, do tamanho de pneus, com a tarte a um canto e o prato decorado com quatro riscos paralelos e perpendiculares de um molho avermelhado e enjoativo.
Com uma ou outra excepção, o serviço dos restaurantes deveras
piorou nos últimos anos. Será má gestão, a crise, o IVA e o diabo a quatro. Num dos
estabelecimentos da minha terra, por sinal um dos melhores, já não sobra
dinheiro sequer para cuidar da ementa dos turistas estrangeiros. Para poupar a bolsa, recorre
a gerência ao saber do Google e o Ananás ao Madeira é retrovertido como Pineapple the wood. A crise, de tão moderna, escreve-se em inglês técnico.
OS IDIOTAS (II)
É claro que na adolescência temos uma particular obsessão
com sermos estúpidos [...] Quando abandonamos o universo relativamente instintivo e
genuíno de uma escola primária entramos naquilo que se poderia designar de 'máquina
de fazer estúpidos'. É talvez uma das características da sociedade capitalista:
tirando a ganância — domínio onde a competitividade e a insaciabilidade são
estimuladas —, em nenhuma outra área nos é pedido que nos distingamos da
carneirada. Nos restantes aspectos da existência humana a sugestão implícita é
a submissão à bitola em vigor [...]
Bem, quero dizer com este paleio estéril que quando frequentamos
um liceu passamos o tempo a tentar ser um estudante medíocre como os outros. Há
um exame oficioso em que queremos ser aprovados: o da opinião pública [...]
Os imbecis que temos por colegas tentam por todos os meios fazer-nos desistir de nós mesmos, com a ajuda da maioria dos professores [...] Podemos ser um cabrão de um génio, mas se não soubermos levantar a merda do braço e participar nas tagarelices da turma não levamos nota máxima. Talvez não levemos sequer uma boa nota, caso a nossa existência seja reveladora da miséria dos alunos e dos professores. O liceu não se limita a avaliar o nosso saber — vigia o nosso comportamento desviante.
Os imbecis que temos por colegas tentam por todos os meios fazer-nos desistir de nós mesmos, com a ajuda da maioria dos professores [...] Podemos ser um cabrão de um génio, mas se não soubermos levantar a merda do braço e participar nas tagarelices da turma não levamos nota máxima. Talvez não levemos sequer uma boa nota, caso a nossa existência seja reveladora da miséria dos alunos e dos professores. O liceu não se limita a avaliar o nosso saber — vigia o nosso comportamento desviante.
[Rui Ângelo Araújo, Os Idiotas, pp. 43-45]
OS IDIOTAS
O Rui Ângelo Araújo, rapaz da minha criação e antigo director da revista
Periférica, publicou o seu primeiro romance, Os Idiotas. Numa época em que os
jovens literatos editam livrinhos de botar a fugir, já lhe enviei os
meus parabéns sinceros.
Em Os Idiotas, o autor revela capacidade de efabular e astúcia narrativa, plena de imaginação. Lúcio Peixe, velho rockabilly desintegrado, é uma das grandes personagens do romance português contemporâneo. O livro forceja no tom humorístico, mas é mais sério do que parece ao primeiro exame. Vale sobretudo pelas descrições de Lúcio e respectiva roda de amigos, as suas peripécias sexuais, os seus fracassos e a divertida crítica da corrupção do poder local na figura portentosa do autarca Saavedra.
Este volume inicial ainda apresenta certas falhas de estilo e merecia revisão mais cuidada, mas constitui estreia promissora. Venham os outros.
Em Os Idiotas, o autor revela capacidade de efabular e astúcia narrativa, plena de imaginação. Lúcio Peixe, velho rockabilly desintegrado, é uma das grandes personagens do romance português contemporâneo. O livro forceja no tom humorístico, mas é mais sério do que parece ao primeiro exame. Vale sobretudo pelas descrições de Lúcio e respectiva roda de amigos, as suas peripécias sexuais, os seus fracassos e a divertida crítica da corrupção do poder local na figura portentosa do autarca Saavedra.
Este volume inicial ainda apresenta certas falhas de estilo e merecia revisão mais cuidada, mas constitui estreia promissora. Venham os outros.
CEIFEIRAS
Sempre que releio Wordsworth,
mais me convenço de que a sua obra influenciou vários poetas de primeira
plana quase até aos nossos dias. Apesar de inscrever-se
na escola romântica, com certos devaneios à natureza e o gosto do sobrenatural,
a sua poesia é moderna pelo estilo correntio, quanto possível coloquial, sem se
eximir, porém, a certa nobreza de tom.
O conhecido poema de Pessoa Ela Canta, Pobre Ceifeira filia-se
directamente no célebre The Solitary Reaper [A Ceifeira
Solitária]: "Behold her, single in the field, / Yon solitary Highland Lass! / Reaping
and singing by herself; / Stop here, or gently pass! / Alone she cuts and binds
the grain, / And sings a melancholy strain..."
Já houve ensaístas que apontaram as analogias, mas ninguém
relevou este dado essencial: no seu poema, Pessoa mantém os octossílabos
lânguidos e vagarosos, os versos de oito sílabas métricas da composição de Wordsworth. E ninguém parece reparar porque a tradução de Jorge de
Sena verteu o poema para a nossa língua com versos de sete sílabas. Por vezes, na tradução de poesia, para se garantir toda a estrutura do original, é preciso transmitir simultaneamente a fidelidade do pensamento e a
forma musical.
FÉRIAS (II)
Para mim, que recuso ir de férias, desde há décadas só me desloco se o trabalho a
isso obriga, o simples pensamento das tuas viagens, e das dos milhões de
indivíduos que constantemente percorrem o globo com o único fito de ver e de
«viver», basta para me perturbar. Não apenas pela repulsa que nutro pelo
turismo, a grande quimera do nosso tempo, mas pela entranhada certeza de que no
mundo em que vivemos, e passada certa idade, o anseio de viajar é sintoma de uma
inquietante perturbação.
[J. Rentes de Carvalho, Mazagran, p. 152]
FÉRIAS
As férias dos adultos são a consagração das suas neuroses. Sendo assim, escolhemos para as férias um livro que não lemos, traçamos um plano que nos fatiga, compramos coisas que não nos interessam, achamos admiráveis as paisagens que mais dispensamos. E por fim aborrecemos os outros dizendo-lhes como nos divertimos; porque a alegria não se transacciona, e toda a gente sabe isso. Está dito que eu não gosto de férias.
[Agustina Bessa-Luís, Caderno de Significados, p. 49]
DEPUTADOS
Ignoro se a função do deputado é sagrada, como sustenta Assunção Esteves. Mas há dois tipos de parlamentares que há muito acolchetei na minha admiração íntima: o contemplativo, que assiste aos trabalhos sempre nas últimas filas, sem abrir a boca; e o narcoléptico, que adormece no plenário. Ambos inofensivos e fofinhos, representam o povo na sua placidez proverbial. Perigosos e arteiros são os que trabalham. Quer nas sessões, quer nas comissões da especialidade, incomoda-me a imagem de um
deputado activo. Nesse estado de excitação, tende a produzir propostas, fazer discursos, redigir leis. E todos nós lhe sofremos as consequências.
Mesmo que não sejam sagrados, os contemplativos e os narcolépticos são os meus ídolos parlamentares. Que ninguém os incomode, se faz favor. Durmam, fofinhos, durmam.
KISS ME
Kiss me out of the bearded barley
Nightly, beside the green, green grass
Swing, swing, swing the spinning step
You wear those shoes and I will wear that dress
Oh, kiss me beneath the milky twilight
Lead me out on the moonlit floor
Lift your open hand
Strike up the band and make the fireflies dance
Silver moon's sparkling
So kiss me
Nightly, beside the green, green grass
Swing, swing, swing the spinning step
You wear those shoes and I will wear that dress
Oh, kiss me beneath the milky twilight
Lead me out on the moonlit floor
Lift your open hand
Strike up the band and make the fireflies dance
Silver moon's sparkling
So kiss me
ACTIVIDADE SEM LEI ESPECIAL
Fui
à secretaria judicial solicitar um certificado de registo criminal. A burocracia
não perdoa. Mete logo o bedelho administrativo e exige saber o fim a que se
destina o papelinho.
Pergunta a funcionária:
— Para que efeito é?
Resolvo brincar:
— É para efeito de relação amorosa.
A carcaça esgalgada observa-me, rígida e suspicaz, por cima dos óculos. Digo-lhe baixinho:
— Ela pretende saber se já fui condenado por violência doméstica, maus-tratos e outras agressões.
A senhora, depois de folhear um volumoso manual de procedimentos, regouga em calão técnico:
— Isso não está previsto na tabela oficial de fins. Só se puser actividade sem lei especial, nos termos da Lei n.º 57/98...
— Óptimo! Actividade sem lei especial parece-me lindamente. Ponha qualquer coisa, mas não me estrague o fim-de-semana.
Pergunta a funcionária:
— Para que efeito é?
Resolvo brincar:
— É para efeito de relação amorosa.
A carcaça esgalgada observa-me, rígida e suspicaz, por cima dos óculos. Digo-lhe baixinho:
— Ela pretende saber se já fui condenado por violência doméstica, maus-tratos e outras agressões.
A senhora, depois de folhear um volumoso manual de procedimentos, regouga em calão técnico:
— Isso não está previsto na tabela oficial de fins. Só se puser actividade sem lei especial, nos termos da Lei n.º 57/98...
— Óptimo! Actividade sem lei especial parece-me lindamente. Ponha qualquer coisa, mas não me estrague o fim-de-semana.
Quando estava já assente entre nós que uma relação
amorosa é actividade sem lei especial, nos termos da Lei n.º 57/98, interveio
outra funcionária, mais experimentada de cidadãos. A fulana, que escutava a
conversa desde início com diligência pública, aconselhou a atendedora:
— Não
pode ser actividade sem lei especial porque não se trata de uma profissão. Na finalidade
do pedido, tens de pôr acesso ao respectivo registo, sem mais.
Assim
ficou: acesso ao respectivo registo. Já tenho o certificado. Custou 5 euros.
ACTA DO CONGRESSO
Quando tudo corria bem éramos europeístas. Agora que tudo corre mal somos patriotas.
DOIS COMBATENTES
Avanço sobre ti, dispo-te a farda,
apago a luz do quarto à revelia
e oiço o som agreste da espingarda
que pauta desta luta o dia-a-dia.
Gememos frente a frente o prazer mater
apago a luz do quarto à revelia
e oiço o som agreste da espingarda
que pauta desta luta o dia-a-dia.
Gememos frente a frente o prazer mater
de sangue, sal, suor e sonhos sãos;
usas de dia o riso, por carácter,
e à noite, por vestido, as minhas mãos.
Estreito-te no estreito da cintura,
teu corpo marcial lanço por terra;
estudo-te perfil, pele e pintura,
e apronto uma estratégia para a guerra.
Abafo com a minha a tua boca
e, numa acção heróica de soldado,
invisto sobre ti, deixo-te louca,
a modos de mancebo amancebado.
Murmuras evasivas entre dentes,
eu nego um armistício que te valha:
somos rivais, amor, dois combatentes,
e a cama é o nosso campo de batalha.
usas de dia o riso, por carácter,
e à noite, por vestido, as minhas mãos.
Estreito-te no estreito da cintura,
teu corpo marcial lanço por terra;
estudo-te perfil, pele e pintura,
e apronto uma estratégia para a guerra.
Abafo com a minha a tua boca
e, numa acção heróica de soldado,
invisto sobre ti, deixo-te louca,
a modos de mancebo amancebado.
Murmuras evasivas entre dentes,
eu nego um armistício que te valha:
somos rivais, amor, dois combatentes,
e a cama é o nosso campo de batalha.
O CONSERVADOR
O conservador lembra comida de conserva, enlatada; e intoxica. O
conservador possui uma boa escrita, contabiliza; muito previdente, não se
arrisca a perder nem se vota a sonhos e grandes empreendimentos de alma.
O conservador pensa na arca e na barriga. O conservador, como o porco, defende a gamela e, se tem ambições, é a de uma gamela maior. Burocrata, administrador, tecnocrata, aí o vemos sempre sensato. Detesta qualquer espécie de loucura. Teme, despreza, censura e combate os apaixonados, os idealistas, os desmedidos.
O conservador quer a tranquilidade e a segurança — e para isso venderá a alma ao diabo e acabará enterrando na adega quantos ideais houver. Não admite é sobressaltos, violências, extremismos. Mas se a coisa vier docemente, empantufada, com flores e por aliciantes arroios — com boas maneiras, sim! —, já o caso muda de figura. O conservador fica a escutar violinos, ao canto da lareira, a ver televisão ou ronronando, tolera, fecha os olhos, abranda, deglute o bolo às migalhas e acaba por se habituar. Sobressaltos, violências, extremismos é que não!
[Goulart Nogueira, adaptado por B.O.S.]
O conservador pensa na arca e na barriga. O conservador, como o porco, defende a gamela e, se tem ambições, é a de uma gamela maior. Burocrata, administrador, tecnocrata, aí o vemos sempre sensato. Detesta qualquer espécie de loucura. Teme, despreza, censura e combate os apaixonados, os idealistas, os desmedidos.
O conservador quer a tranquilidade e a segurança — e para isso venderá a alma ao diabo e acabará enterrando na adega quantos ideais houver. Não admite é sobressaltos, violências, extremismos. Mas se a coisa vier docemente, empantufada, com flores e por aliciantes arroios — com boas maneiras, sim! —, já o caso muda de figura. O conservador fica a escutar violinos, ao canto da lareira, a ver televisão ou ronronando, tolera, fecha os olhos, abranda, deglute o bolo às migalhas e acaba por se habituar. Sobressaltos, violências, extremismos é que não!
[Goulart Nogueira, adaptado por B.O.S.]
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