ENTREVISTA COM EÇA DE QUEIRÓS


Que o traz de volta a Lisboa?
De cem em cem anos, gosto de passar por cá. É o bastante, de cem em cem anos, porque isto está sempre tudo na mesma. Gosto de passear pelo Chiado e admirar, tão comovido como o Cruges, o arvoredo que ainda subsiste, os meus cafés, as minhas ruas, os meus restaurantes.
Como encara a literatura portuguesa contemporânea?
Encaro-a de soslaio. O senhor é crítico?
Não, felizmente não sou crítico: sou criticável. Mas olhe que críticos de Eça é o que não falta por aí...
Eu sei. Ando na peugada de dois ou três que escrevem os maiores disparates sobre mim e a minha obra. Quero dar-lhes umas bengaladas. O senhor saberá porventura onde mora a D. Maria Filomena Mónica?
Não sei.
E o Carlos Reis?
Também não. Lamento.
Não lamenta mais do que eu…
Aqui entre nós, que ninguém nos ouve: o Ega, de Os Maias, é o Eça?
Que disparate! Onde colheu tal ideia estapafúrdia? O João da Ega nem as Memórias de Um Átomo conseguiu terminar. Eu, felizmente, deixei obra publicada. Se alguma das minhas personagens tem muito do que eu fui e bastante do que eu desejaria ter sido é o Gonçalo Mendes Ramires. Logo no início da Ilustre Casa vêmo-lo em torturas de escritor na velha livraria da Torre, clara e larga. Mais adiante, aí o temos afeiçoado às ceias e bacalhoadas festivas, que eu tanto apreciei e tanto mal me fizeram. O pobre era obrigado a recorrer à água alcalina, que eu tive de beber toda a vida. Quando o Gonçalo, sempre à court d’argent, combina o arrendamento da Torre com o tremendo José Casco e, depois, sucumbindo à tentação de mais dinheiro, acaba por arrendá-la ao abastado Pereira da Riosa, acredite que aí temos um belo exemplo de como eu reagiria em situação idêntica reflexo natural das horrendas angústias financeiras que me atormentaram algumas vezes. É certo que o João Gouveia aparece no fim do livro com aquele estúpida tirada em que compara o Gonçalo a Portugal. Foi o bastante para a crítica fantasiar sobre o significado alegórico de cada palavra e gesto do fidalgo. Se o Gonçalo tem feições retintamente portuguesas é porque eu também as tenho de facto. Foi uma estupidez, aquele final.
Também não foi muito inteligente, porque inverosímil, armar de repente em colono africano um senhor que padecia do fígado e tinha de recorrer com frequência a sais de frutos e água de Vidago.
Tem razão, meu caro amigo, tem mil vezes razão.
A sua galeria de personagens, contudo, é uma das mais notáveis, talvez mesmo a mais notável da ficção portuguesa. O Gonçalo Ramires, o Teodoro, o Jacinto, o Ega, o Dâmaso…
Ah, o Dâmaso… Era um grande patife! Mas olhe que muitas das figuras de hoje vestem pelo figurino do Dâmaso.
Prosseguindo na sua vasta galeria de personagens: o País está atulhado de Acácios, não acha?
Concordo consigo. Foi personagem ineficaz, o meu Conselheiro Acácio. Completamente ineficaz. Ninguém retirou dele ensinamento algum. Estes tipos estudaram-no, esmiuçaram-lhe o moral e o físico, as ideias e os gestos, mas de facto não reparam que é dele, sem tirar nem pôr, a seriedade compenetrada com que distribuem honras e títulos uns aos outros e a todo o momento. Nunca assistiu a uma cerimónia do 10 de Junho? Meus Deus, quantos comendadores! E todos de uma mediocridade rara. Há dias até um praticante do football foi condecorado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Acredite, o meu Acácio ao pé desta gente bota figura.
E vários políticos actuais parece serem a reprodução fiel do seu Alípio Abranhos…
O Conde d’Abranhos só foi publicado na década de 20 do século passado. O Ramalho Ortigão enviara anos antes de falecer o manuscrito da obra ao meu filho José Maria, que depois a reviu e mandou publicar. Dizia o meu filho, acertadamente, que o livro fora urdido pela imaginação do pai mas que, por aqueles tempos, três ou quatro décadas volvidas, a realidade se arriscava a ultrapassar a ficção. Por isso, apressou-se em editá-lo. Antes que fosse tarde. Escrito hoje, nem ficção seria!
Talvez fosse a biografia não autorizada de quantos sardanápalos infestam os ministérios e o Parlamento.
Talvez. O Parlamento, então, é local horroroso. Uma corja a linguajar politiquice. Tanta palavra despendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido, tantos suores, tantos gritos, tantos copos de água disparatados, para ficar sempre tudo igual. E o público, que vai ele fazer para as galerias? Não compreendo essas pessoas: uma multidão desocupada e ociosa, que não vai lá pelo gosto da política, nem pelos interesses patrióticos. Vai apenas para desfrutar os contendores, rir-se deles, apupá-los e, o que é pior, perverter-se e desmoralizar-se no contacto da corrupção. Vai ver a maledicência dilacerar as reputações, como as feras nos circos romanos dilaceravam os mártires.
Ou como os bons costumes são dilacerados nos seus romances, carregadinhos de vício, adultério e incesto.
Eu sei. Arrependo-me de ter mergulhado tão fundo no lodaçal realista. Pintei a Amélia, de O Crime do Padre Amaro, e a Luísa, de O Primo Basílio, com a paleta de cores que me chegava de França. Ficaram criaturas medíocres.
Por que razão nunca se aventurou nos domínios da poesia e do teatro?
Nunca tive talento poético. E quanto a teatro, embora haja tentado alguma coisa, é arte que em Portugal nunca se viu. Ontem como hoje, vai-se ao teatro passar um pouco a noite, vai-se para se poder dizer que se foi ou, quando há um drama pungente, para rir e se ficar de bom humor. Não há, nem nunca houve bons dramaturgos só maus tradutores. E desde logo moços que ficaram reprovados no exame de Francês, traduzem. Onde está vous põem V. Exa., e este esforço prodigioso de invenção consumiu em Portugal a força de várias gerações literárias. Além disso, a malta do teatro é toda bon chic, bon genre.
Verifico que continua a insistir nos francesismos.
Às vezes, é por blague (Lá está, mais um...) Mas, por dentro, acredite que sou um português de sete costados. Mais português do que muitos contemporâneos seus que, apesar de me criticarem os francesismos, ficaram em três ou quatro lustros completamente inglesados. Só falam de hardware e de software, fazendo os devidos backups; aplicam no rosto after shave, vestem sportswear e compram carros com airbag. Dizem-se marketeers, brokers e branch managers. Olhe que os cartões de visita do Dâmaso nunca chegaram a tanto!
Já leu o Acordo Ortográfico?
Não me irrite, meu caro amigo. Isso não me interessa para nada. Meia dúzia de académicos a babarem-se de vaidade e aí temos uma língua nova.
Como vê o futuro de Portugal?
O País também não me interessa. Isto sempre foi um sítio, nunca chegou a ser um País, muito menos uma Nação. Portugal, politicamente, não tem hoje lugar na civilização. Está desempregado. Vive de esmolas, de subsídios, de fundos chamados estruturais. Os nossos deputados europeus, em Estrasburgo, não têm nada para fazer, nem podem fazer nada. Entretêm-se a escrever blogues para não morrer de tédio e sensaboria. Como eu, outrora em Havana, em Newcastle, em Bristol, em Paris. Sobretudo em Paris, onde fiz uma vida, não direi de cenobita, mas de petit bourgeois retiré.
Perante um quadro tão pessimista, que recomenda às mais jovens gerações de Portugal?
Sigam o exemplo que eu e o Ramalho demos com As Farpas. No estado em que se encontra o País, os homens inteligentes não devem instruí-lo, nem doutriná-lo, nem discutir com ele devem farpeá-lo. As Farpas foram isso mesmo: a pilhéria, a ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote postos ao serviço da revolução.  

LIVROS & MULHERES (XX)

WALLACE STEVENS

A poesia é sempre uma forma de solidão. Wallace Stevens levou uma vida pacata de administrador de uma seguradora em Hartford, no Connecticut. Integrou o lote daqueles literatos discretos e de fato escuro, com Kaváfis e Pessoa, empregado de escritório na Moutinho & Almeida. Embora cada um a seu modo, todos eles foram homens solitários.
De Stevens não abundam registos de vida social. Só quando morreu, em 1955, é que os colegas descobriram que naquele gabinete trabalhara um dos maiores poetas modernistas do século XX.
 
The Place of the Solitaires

Let the place of the solitaires
Be a place of perpetual undulation.

Whether it be in mid-sea
On the dark, green water-wheel,
Or on the beaches,
There must be no cessation
Of motion, or of the noise of motion,
The renewal of noise
And manifold continuation;

And, most, of the motion of thought
And its restless iteration,

In the place of the solitaires,
Which is to be a place of perpetual undulation.

O Lugar dos Solitários

Que o lugar dos solitários
Seja um lugar de perpétua ondulação.

Quer seja em pleno mar,
Na escura e verde nora
Ou nas praias,
Que nunca cesse
O movimento, ou o som do movimento,
A sucessão desse som
E o seu múltiplo prolongamento.

E, sobretudo, do movimento das ideias
E da sua incansável iteração,

No lugar dos solitários,
Que há-de ser um lugar de perpétua ondulação.

[versão B.O.S.]

TEÓFILO BRAGA, OUTRO "BLUFF"

Escrevo estes textos, não por embirração, mas apenas para distinguir entre a genialidade e a fancaria. Separar o trigo do joio é a tarefa. A cultura nacional perde por nivelar valores desiguais. Teófilo Braga, por exemplo, embora alçado a grande talento, é um dos maiores bluffs da academia portuguesa. Não é de estranhar. Em Portugal a mediocridade recompensa-se com faustos e laudatórios. Mas impressiona hoje ver com nome imaculado este tipo tão medíocre, intrujão das dúzias e zote genial da literatura postiça.  
Poeta medíocre e ficcionista falhado, para desgraça dele e nossa meteu-se a historiador da literatura. Foi mau e burlão em tudo e sempre numa prosa reles, deslavada e caótica. Agarrou-se ao positivismo e ai de quem não perfilhasse as suas positivices. Como o Grande Oriente faz milagres, chegou a Presidente da República.  
Entre os seus contemporâneos, gozava da mais sólida reputação de apropriador dos bens alheios para os seus incontáveis livros. Quiseram endireitá-lo, a tempo e horas. De tudo usaram, do bom conselho à crítica justa, e nada lograram refinou. Herculano em 1869 classificava já o mal de insanável prognóstico de sábio. E Camilo, quando a tortura da doença lhe dava os últimos sacões, chegou a levar a mão à cabeça com gesto trémulo e exclamar: "Meu Deus! Sinto a cabeça vazia como a do Teófilo Braga".
Quem lhe descobriu a careca em livro foi Ricardo Jorge, esse sim, um dos grandes prosadores portugueses, além de médico consagrado, a quem Teófilo surripiou páginas e páginas. Quando quis escrever o perfil biográfico e crítico de Francisco Rodrigues Lobo foi-se ao trabalho de Ricardo Jorge e não teve mais que estender a mão e deitar na abada. Fontes, datas, dados, citações, todo um material penosamente carreado e lavrado ao longo de anos de estudo árduo, estava ali às ordens. Levou o que quis e lhe conveio. Teófilo nunca cita o título nem o autor do trabalho expropriado. Não admira. De plágios e contrafacções destas se fez a obra inteira do grande republicano.
Mas não roubava só em Portugal. Nisso de esbulhar tinha ele uma vocação universal e irredentista. Ao escritor e crítico brasileiro Sílvio Romero plagiou e falsificou boa parte dos Contos Populares do Brasil, o que fez explodir a vítima num protesto formidando, publicado em 1887, sob o título Uma Esperteza: Os Cantos e Contos Populares do Brasil e o Sr. Teófilo Braga.  
O lusófilo inglês Aubrey Bell, que lhe topou o engenhoso método de criação, lavra crítica certeira: "It would be indeed a miracle if Dr. Theophilo’s Braga works were as accurate and as valuable as they are voluminous". ("Seria na verdade um milagre que as obras do Dr. Teófilo Braga fossem tão cuidadas e valiosas como são volumosas.")  
Trindade Coelho, talento de primor moderno e alma antiga de espartano, apresenta este rasgo: "(…) o sr. Teófilo [Braga] tem propagado nos seus livros tantas verdades como mentiras (é favor), e que pelo toca a intenções de trabalho crítico, todo o seu desejo é atirar com os outros ao meio do chão… a fim de ficar em evidência apenas ele (...)"
Assim foi Teófilo. Oliveira Martins, Antero, Camilo, Junqueiro a todos abocanhou porcamente, por não reconhecerem a sua primazia. Sonhou-se estatuificado como Camões, com uma roda de oitocentistas na peanha.
Crítico medíocre e arlequim das letras, o seu bota-abaixo atingiu Vieira e Bernardes, que trata abaixo de cão. Apruma-se de braço togado a proferir o julgamento do jesuíta, que para ele não passa de um "retórico vazio" um homem que não "cooperou" nas "grandes sínteses filosóficas" do seu século, "o Baconismo e o Cartesianismo". Tal qual. Deprecia, como untuoso e monótono, o estilo de Bernardes. E zurze os dois por terem exercitado a linguagem sobretudo em assuntos religiosos. Eis o crime, como se num quadro de Rafael ou de Rubens a qualidade mística empanasse o brilho da pintura.
Fora o que é roubado, a sua obra constitui a mais vasta enfiada de asneiras e mentiras. Procure-se em qualquer página. Cada cavadela, cada minhoca. Erra datas, deturpa documentos, anacroniza factos, confunde personagens, chorrilha desconchavos: os pés pelas mãos e as mãos pelos pés cruzam-se acelerados nesse tear de sandices.  
A teofilíssima criatura, mestrão das letras, chega a confundir Francisco Rodrigues Lobo com Fernão Rodrigues Lobo, o Soropita. Por pouco que escrevesse, seria sempre de mais. Certo dia encontrou num jornal uma fantasiada epístola do helenista Aires Barbosa, escrita de Esgueira na primeira metade do século XVI. A frase era à légua e sem disfarce de linguagem moderna, com uma crítica aos galicismos em voga no século XIX. Pois escarrou-a no prelo como autêntica, servindo-a logo com aquele sabido molho de pedantaria. Um asno completo. Repousa, com toda a justiça, no Panteão Nacional.  

LAVOURA MODERNA

Depois de nos dizer que o País ainda em crise precisa de massa cinzenta e de investimento como de pão para a boca, o ex-governante sabido dá de frosques para o FMI ou o Goldman Sachs. Lembra-me aquele lavrador que, entre a vaca e a mulher, ambas em trabalho de parto, largou do quarto para o estábulo porque a vaca sempre lhe dava algum rendimento.

A ESCOLINHA

Corre por aí um debate morno sobre a escolaridade obrigatória. Como de costume, ninguém tem razão. À uma, escapa aos proponentes que a caixa de velocidades do progresso não admite marcha-atrás. Não entendem, à outra, os seus opositores que isso de ser obrigatório o exercício da liberdade revela uma contradição nos termos.   
Desde que se inculcou a ideia de que pela Educação (com maiúscula, como eles gostam) é que vamos, o caminho ficou definido. A Educação (lá está, com E grande) transformou-se em desígnio nacional, meta do regime, a paixão de Guterres e dos homens sábios.  Ninguém quer discutir a velha questão de saber se aprendemos porque somos ricos e livres ou se, pelo contrário, somos ricos e livres por termos aprendido. Adoptámos, quase sem exame, a tese de que a base do desenvolvimento é a escolinha, a Educação (com maiúscula, s.f.f.), a escolaridade obrigatória, ontem 9 anos, hoje 12, amanhã talvez 15, a seguir 20, depois 30 ou 40, que isto do progresso nunca pára e não queremos ficar aquém da Alemanha e da França, isso nunca.   
Sabemos, desde Aristóteles, que a sabedoria não é condição da liberdade, mas consequência. O homem não se liberta pela sabedoria: procura a sabedoria porque é livre. Esta não é promessa, mas exercício de liberdade. A sabedoria é, pois, o horizonte mais nobre de expressão da liberdade humana.
Enfim, o contrário exacto da linha vigente. Quem quiser debater o assunto com profundidade filosófica e rigor metafísico, pode começar por aqui. Quem quiser apenas ganhar votos, ter o nome limpo nas redes sociais e ser considerado inteligente, deve defender a escolinha obrigatória, a Educação (com maiúscula, sempre com maiúscula), o ensino cívico e dos "valores da cidadania". O progresso, meus amigos, é um autocarro sem travões leva tudo à frente.

TEENAGE LOBOTOMY

EGAS MONIZ, UM "BLUFF"

Em século e pico, o génio nacional arrecadou um Nobel e meio. Inteiriço e completo é o de Saramago. O meio resultou do prémio dividido entre o vencedor português e um fisiologista suíço. O nosso chamava-se António Caetano de Abreu Freire. Assim o registaram de nome completo. Isso de Egas Moniz foi a alcunha que o neurologista colou com cuspo ao apelido, para convencer o populacho de que descendia em linha directa do aio de D. Afonso Henriques.
É de andar aos tombos a justificação genealógica que apresenta em A Nossa Casa. Qualquer genealogista só de fim-de-semana, meia hora de leitura após o almoço dominical, se rirá a bandeiras despregadas das pretensões fidalgas do facultativo.   
A tese mais verosímil adianta que o homem, quando estudante, fez no Teatro Académico de Coimbra o papel de Egas Moniz. Deram os colegas a chamar-lhe Egas Moniz. Ele gostou e adoptou-o, chamou-lhe um figo e pôs-se a imaginar uma linhagem varonil que vinha, pelos séculos fora, de Entre-Douro-e-Minho até à freguesia de Avanca.
Como é costume em Portugal, foi tentado pela política. Durante a Grande Guerra exerceu de Embaixador em Espanha, o destino mais seguro para o falso neto de Egas Moniz. Foi bem recebido. Nem precisou de se apresentar descalço e de corda ao pescoço.    
Pioneiro da sexologia lusitana, editou A Vida Sexual, livrinho pedagógico e recomendável onde aplica à intimidade de homens e mulheres o que observava nos bovinos da Beira Litoral. E como um mal nunca vem só, inventou a leucotomia, técnica bárbara que a ele lhe deu fama e aos doentes sofrimento e morte. Quando, em 1949, recebeu a metade do prémio já estava paralítico, de cinco tiros que levara de um paciente que discordaria decerto do júri sueco quanto ao valor daqueles métodos curativos.   
Conta Tomás de Figueiredo, então notário em Estarreja, que aí por meados da década de 40 do século passado se entreviu com o Abreu Freire, que pretendia um documento oficial, que por páginas e páginas minutara, num estilo calisto e medíocre. Acrescentava Tomás que lhe ficou do neurologista a maior figuração que é possível da vaidade feita carne. E antes do meio Nobel! Pretendia ele lavrar um testamento, mas propunha condições impossíveis à luz do Direito e do bom senso. Deixava de raiz, e a herdeira podia assim vender ou gerir como quisesse, mas por morte dela a herança teria aplicações que impunha, destinando cadeira por cadeira, caco por caco.
A casa ficaria para museu. E regulamentava o museu, o seu funcionamento, os horários, o preço dos bilhetes. Diz Tomás de Figueiredo que não fez tal testamento, por nulo, mas houve quem o fizesse, vergado pela autoridade, de rabinho entre as pernas.
Mais tarde, já inchado pela meia dose de Nobel, promove ele, até por cartas, que em Avanca lhe alcem um monumento. E lá ficou ele todo, inteiro e majestático, na Quinta do Marinheiro o porte altivo, a cabeça de bronze, o capachinho. Um dos grandes bluffs da cultura portuguesa. 

PANTERA AO PANTEÃO

Almeida Garrett, Amália Rodrigues, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, João de Deus, Manuel Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais, Teófilo Braga. Já os contei: são dez. Ora, o Eusébio tem lugar em qualquer onze

A NOITE (QUASE EPITÁFIO)

Amo a noite, toda a noite,
desde as dez à alvorada. 
Amo a noite, sim, a noite,
amante, amiga e amada. 
Amo os dias só à noite
e quando, enfim, me extinguir,
hei-de sumir-me na noite
prà noite me consumir.
 

UM PAÍS DE EXCEPÇÃO

A PÁTRIA EM CHUTEIRAS


 
O meu sentido da Europa e de Portugal é distinto do comum. A minha Europa não é a comunidade económica nem a união política. Das teses correntes sobre Portugal digo o mesmo.
A minha ligação à Europa vem dos poemas de Homero e da tragédia antiga, funda-se no pessimismo heróico nascido nas margens do Egeu e nas lendas dos ciclos indo-europeus, prossegue no espírito das Cruzadas e nos romances da Bretanha, e vive também nas histórias de amor e guerra, grandeza e morte, que foram contadas por Shakespeare, Calderón de la Barca e Corneille.    
Do mesmo modo, a minha ligação a Portugal, uma ligação física, carnal, palpável,  tem a ver com a espada do Rei-Fundador, a abóbada da Batalha, o horizonte de Sagres, as páginas de Vieira, Bernardes e Camilo, a voz da Amália e o Eusébio.   
Eis os signos. Pode parecer estranho, mas as actuais problemáticas, como dizem os parvinhos, têm o condão de me reduzir à mais completa indiferença. Saber se a tróica fica ou vai embora, discutir o modelo social europeu e a dimensão do Estado, polemizar entre esquerda e direita, serão actividades seríssimas e estimulantes  mas só as pratico por dever social, como quem fala do tempo com a vizinha de baixo. Sou europeu da cabeça aos sapatos e português de uma só peça. Mas, nascido  assim com feitio enviesado e de certa telha anarquista, nunca admiti por símbolos nacionais o hino horroroso e ainda menos o trapo verde e tinto, bandeira a martelo de um país de bêbados.
Foram sempre outros os meus símbolos. Ora, a julgar pelas declarações de ontem e hoje, pouca gente entendeu a dimensão de Eusébio. Para uns, parece que foi um futebolista extraordinário  e entretêm-se em comparações disparatadas. Certo tolinho, movido de inveja, capitula-o de homem bom, mas inculto. Tem razão. Faltou-lhe certamente ciência para criar a Fundação Eusébio e ficar a viver por conta do Estado, sentado de babete à mesa do Orçamento. Houve outros, mais chegados à verdade, que o classificaram de imortal. Mas imortal já ele era havia muito, estatuificado em vida, o que é raro entre nós. Eusébio corporizou um daqueles mitos que as nações históricas geram para assegurar a sua existência. Foi a última grande figura portuguesa. Depois dele, quem?

UM DESEJO PARA 2014

Que os governantes aprendam de vez que a expressão ajuda externa é sempre um paradoxo. Ou somos nós, ou nunca seremos.

LIVROS & MULHERES (XVIII)

MARIDOS

A gente cria o costume e gosta mais por costume que por outra coisa. Que outra coisa é que podia ser. Depois, a gente afeiçoa-se, mas afeiçoa-se já doutra maneira, e são uns filhos grandes que casam connosco.
Outros acham que a gente há-de gostar deles por isto ou por aquilo. Ora! A gente nem sabe porque gosta […]
Sempre o mesmo homem, senhor juiz — o mesmo homem todos os dias, com o mesmo corpo e a mesma maneira! Todas as noites, senhor juiz, e na mesma cama — nem a cama muda ao menos. E aquilo ao fim de tempo já não era viver, nem coisa que se parecesse — era uma coisa entre comer para não ter fome e fazer o serviço da casa... Se os homem soubessem o que custa a aturar! Se soubessem o nojo que a gente tem por eles cá dentro quando está encostada a eles!
E eu, senhor juiz, não tinha outro remédio senão matá-lo para estar bem com a minha consciência e com a Igreja.
Foi por isto, senhor juiz e senhores jurados, que eu matei o meu marido.  
 
[Fernando Pessoa, O Mendigo e Outros Contos]

LISBOA, CAPITAL DO LIXO


 
Lisboa merece, sem favor, o título de capital mais porca da Europa. A Torre Eiffel está para Paris como para Lisboa o lixo a pontapé nas ruas e os grafitos nas paredes. A fama vem de longe. Contam os olissipógrafos que era Portugal senhor do mundo e Lisboa recortava-se um  dédalo de ruas estreitas e fedorentas, com os dejectos lançados das janelas, os cavalos a patinhar na lama imunda, picados de mosquitos e polvilhados de moscas e as escravas negras em largada pela Rua do Conde abaixo, levando na cabeça os baldes de porcaria que despejavam no rio. Mais tarde, já no século XVIII, o Chiado só se fez Chiado depois que Pina Manique encanou as caleiras dos dejectos públicos que deslizavam a céu aberto do Alecrim para as praias da Ribeira.
Mantém-se, nos nossos dias, o fétido cenário, que atrai e diverte a turistada europeia. É mais barato voar para Lisboa do que para Nova Deli. E a comida melhorzinha, graças a Deus  mais saborosa e menos picante.  
A greve transformou a cidade numa lixeira nauseabunda, ante a inércia da autarquia. Nestas condições, normal seria que a jornalice espaventasse o escândalo, matéria de higiene urbana e saúde pública. Dorme, porém, descansado o presidente da Câmara. O homenzinho ajunta ser socialista a ser monhé, duas qualidades fundamentais que lhe garantem a imunidade jornalenga.
O nosso porquinho-da-Índia não denota, na verdade, o mínimo melindre. É preciso relativizar estas coisas. Ele sabe que, no que toca a limpeza, Bombaim ainda é pior. Embalde pedem, pois, os munícipes responsabilidades. A imprensa não quer enfarruscar as ambições políticas do cavalheiro. Lisboa já lhe fica curta nas mangas e inodora nas narinas. Tarde ou cedo, há-de perfumar de lixo o país inteiro.

GOULD E BACH


Nesta quadra, ofereço aos meus leitores a arte de dois génios: Glenn Gould a tocar o Concerto n.º 1 para piano de Bach. Ambos certificam a existência de Deus.

Feliz Natal!

ALCIDES E O BURRO

Alcides era um velho pastor beirão. Desde que enviuvara, havia dez anos, vivia acompanhado de Moreno, um jumento fiel. Dez anos assim. Alcides e o burro, o burro e Alcides. Adoravam-se. Fora amor à primeira vista. O pastor gostava de rememorar o dia em que se encontraram um com o outro e os dois com a vida. O animal retribuía-lhe o afecto. Lembrava-se embevecido de que Alcides, na feira de gado, o distinguira no meio de um regimento de azémolas e lhe dera uma palmada rija no lombo (Belo animal! Quanto custa o jerico?) Ah!... A mão suave de Alcides. Nem comparação tinha com a de Tadeu, o vendedor, que se lhe escanchava em cima e o chicoteava continuamente com a soga da rabeira. Que diferença! Por Alcides, nem sabia o que era um estábulo. Nunca lhe batia: o castigo era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma interjeição mal-humorada. Entendiam-se pelo olhar, como qualquer casal moderno e de boas avenças.
Um ano passou, outros anos passaram. E entre os dois a paixão foi crescendo a ponto de se tornarem inseparáveis. Habitavam a mesma casa, dividiam a mesma mesa, dormiam no mesmo leito. E isto se bacorejava aldeia fora, nas conversas intriguistas dos vizinhos e das beatas: Alcides e o burro viviam em união de facto. Por isso, e muito justamente, o pastor lamuriava-se de não poder deduzir os gastos de Moreno, alimentado a pão-de-ló, nas contas anuais do IRS. Tal discriminação indignava-o. E indignado ficou também o burro quando internaram o dono no hospital da vila (maldita cirrose…) e lhe interditaram a ele, bicho fidelíssimo o acesso à enfermaria. Ao pobre animal, doía-lhe no peito que não tivesse os mesmos direitos de visita que o marido ou a mulher de outro doente. Dias depois, como o pastor morresse, chegou de Lisboa uma parentela ignota que, a dois tempos, tratou do funeral e das partilhas sem que o bicho amantíssimo pudesse herdar o casebre  ou a horta. Seria o mínimo, depois de uma vida a dois.
Errou o jumento, choroso, pelas ruelas da terra, alijando a dor da perda. Dobaram-se os meses, mas nunca conseguiu voltar a casa. Olhou com indiferença as luzes festivas e um burro de gesso no presépio da praça. Tresnoitou-se de lameiro em lameiro, contemplando as estrelas companheiras leais dos solitários. Não passou fome, tanto que se alimentava dos tojos que despontavam no monte, mas definhou consideravelmente. Quando entrou o Inverno, frio e chuvoso, Moreno estava um palito. Na noite de Natal, apareceu morto no adro da igreja. Ainda agora se diz na aldeia que morreu de amor.

LIVROS & MULHERES (XVII)


Marguerite Yourcenar a ler em casa, em 1986, um ano antes da sua morte.

A secção Livros & Mulheres costuma reincidir por gosto e vocação em mulheres mais novas e menos enrugadas. Abre hoje excepção para a escritora belga de expressão francesa, que morreu neste dia há 26 anos.
Na sua obra, avulta o livro Memórias de Adriano, um romance histórico magnífico, quer como documento, quer como monumento de arte literária.
A Obra ao Negro oferece-nos um espantoso fresco da Europa do século XVI e O Golpe de Misericórdia conta-nos de forma magistral um singularíssimo triângulo psicológico, constituído por Eric, Sophie e Conrad, com um desfecho cem por cento patético e nobilitantemente trágico, na melhor linha da nobreza intrínseca daquelas personagens.
Yourcenar revelou-se também uma ensaísta erudita e profunda. Vale a pena ler, neste domínio, Mishima ou a Visão do Vazio, A Benefício de InventárioO Tempo, Esse Grande Escultor.    
Muito azar teve a autora nos tradutores que lhe calharam em sorte para verter (ou antes: subverter) a vasta obra para português. Com a excepção de Rafael Gomes Filipe, os tradutores lusos de Maria Lamas a António Ramos Rosa nunca conseguiram transmitir o brilhantismo, o estilo, o fulgor da sua escrita.  

FICAR DE PÉ

De hoje ao revelhão, haverá greves na Casa da Moeda, CP, Metro, Carris, SATA, EasyJet e outros transportes (trenós puxados por renas não contam). Param também os professores, os enfermeiros e os homens da recolha de lixo.
Indiferente a estas manifestações de protesto, recolho-me à intimidade de casa. Conheço a fita de cor e salteado. Tudo se resolverá, como de costume, com o chamado rotativismo democrático, isto é, a alternância de cabos partidários e suas clientelas. Sairão uns, entrarão outros e far-se-á uma festarola ruidosa em frente à sede do vencedor, com discurso e bandeirinhas.
Esse folclore deixa-me indolente. Recolho-me à família, aos livros, à música que engrandece. Aprendemos sozinhos que a felicidade não existe: a vida é uma soma de perdas e desilusões. Mas acalentamos ingenuamente a esperança de que em manada, com dez mil pessoas a berrar na rua, as coisas talvez possam mudar. Prefiro seguir a velha lição que nos ensina a ficar de pé no meio de um mundo em ruínas.

ONDE, O NATAL?

O presépio cedeu o lugar à árvore e o Menino Jesus foi substituído por um velho ridículo de barbas brancas.

ANTÓNIO JOSÉ FORTE

Ninguém se lembrará decerto que faz hoje 25 anos que morreu António José Forte. Membro da famosa tertúlia do Café Gelo, com Mário Cesariny e Herberto Helder, revelou-se um dos bons poetas do surrealismo português. Sempre achei que é na sua obra que se topa com mais clareza o que foi a aventura literária, revolucionária e até anarquizante daquela escola. O Poeta em Lisboa tem lugar cativo na minha antologia poética pessoal. 

O POETA EM LISBOA

Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.


Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos.
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.


[António José Forte, Uma Faca nos Dentes]

OLIVEIRA

Manuel de Oliveira, que celebra hoje 105 aninhos, é um dos equívocos da crítica nacional. O João Marchante, que sabe do ofício, inscreve o velho cineasta "na genealogia espiritual e identitária que tem as suas profundas raízes em Luiz Vaz de Camões, o seu sólido tronco no Padre António Vieira e os seus criativos ramos em Fernando Pessoa". O certo é que, por décadas a fio, ninguém ligou peva a Oliveira. Quando estreou Amor de Perdição, em 1979, tinha o mestre dobrado já o cabo dos setenta, os críticos portugueses, supondo que fosse o seu último filme, quiseram lavrar-lhe um elogio quase póstumo. Correu-lhes mal o plano. O homem estava aí praticamente a começar a carreira. Depois de Amor de Perdição, realizou uma trintada de filmes bem contados. E por cada um deles os críticos foram obrigados a repetir os elogios anteriores. Por cada fita, tiveram que engolir mais um sapo, comida forçada de periodistas. Depois habituaram-se.
Enquanto Oliveira ia trazendo prémios de Cannes e Veneza, enriquecia-se o anedotário luso com a suposta monotonia e lentidão dos seus filmes. Isto lembra-me sempre aquele aforismo de Ramón Gómez de la Serna: como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores. Assim também o velho cineasta: como realiza fitas lentas, dura-lhe mais a carreira.
Agora aqui entre nós, caro Manuel, vamos ao que interessa: antes do próximo, qual é o filme que se segue?

EMPLASTROS

Num concelho do Minho, põem-me de orador sobre urbanismo. Noto as filas dianteiras colonizadas pelo senhor presidente da Câmara, respectivos assessores e assistentes, os vereadores, os presidentes das juntas e outras figuras do poder local. É vício português esta omnipresença dos autarcas na vida da chamada sociedade civil. As cidades organizam-se em torno do senhor presidente da Câmara.
No jornal da terra, o homem mostra a fuça todas as semanas. O pavilhão ostenta a inevitável placa a informar que "o complexo desportivo foi inaugurado por S. Exa." Na procissão, logo atrás do pálio e do padre, lá vai todos os anos o senhor presidente da Câmara, acolitado por vezes da vereação em peso. Não há aniversário de associação recreativa ou de clube desportivo que não conte com a presença desinteressada do senhor presidente da Câmara, para dizer umas poucas de palavras sobre a instituição.
O senhor presidente da Câmara encontra-se por todo o lado. A esta forma de infernizar a vida dos munícipes chama-se, no jargão eleitoral, "política de proximidade". Se na vossa terra algum candidato prometer uma "política de proximidade", fujam do gajo a passo estugado. Se o elegerem, nunca mais se livram dele. O autarca da "política de proximidade" assiste às conferências, cumprimenta nos passeios, discursa nas associações, conversa nas esquinas, inaugura rotundas, visita as escolas, passeia com os velhinhos, concede entrevistas, vai à bola — e nas horas vagas, para se distrair de cuidados, gere a autarquia. Temo que um dia comece a entrar pelas casas adentro para dar a beijar a Cruz no Domingo de Páscoa.
Estes autarcas arremedam nos seus concelhos aquele maluco do Porto que aparece sempre por trás dos entrevistados a fazer caretas na televisão. Emplastros, é o termo.

OS IDIOTAS (IV)

O Saavedra [o presidente da Câmara] ia inaugurar um planetário. Tinha-o construído com fundos externos e agora ia ter de o deixar a apanhar pó por falta de verbas para o seu funcionamento e manutenção. Mas ia inaugurá-lo, fosse como fosse. A obra estava pronta, não estava? Sem equipamentos nem mobiliário, era certo. Estava pronta a construção [...]
A cidade não precisava de um planetário. Bastava que um tipo se afastasse algumas centenas de metros do centro e o céu oferecia-se-nos sem segredos [...]
A cidade não precisava de um planetário e ele não ia funcionar — mas o Saavedra ia inaugurá-lo, com pompa, circunstância e a admiração imbecil do povo. 
 
[Rui Ângelo Araújo, Os Idiotas, pp. 168-169]