O meu conselho aos jovens candidatos a romancistas: antes
de escrever livros, leiam pelo menos um.
O BES EM TRÊS ACTOS
I.
A saga da
família Espírito Santo dava uma belíssima fita. Conta a história oficial que o
patriarca e fundador do grupo nasceu por 1850 em Lisboa, filho de pais
incógnitos. Abandonado numa igreja, baptizaram-no de José, por ser o
nome do pai de Cristo; de Maria, por ter sido Nossa Senhora a
madrinha; do Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade; e
finalmente de Silva, por motivos ainda não completamente explicados, mas
talvez por ser um dos apelidos do progenitor.
Existem
documentos suficientes para estabelecer a filiação de José Maria do Espírito
Santo Silva. O rapaz era filho de Simão da Silva Ferraz de Lima e Castro, Conde
de Rendufe. Isto explica que Zezinho, filho de pais incógnitos, sem meios de
fortuna, se tivesse estabelecido logo aos 19 anos como cambista na praça
lisboeta. O conde, que entretanto morrera, deixou-lhe dinheiro bastante e umas
cunhas aos amigos para que amparassem o rapaz enjeitado.
II.
A saga da
família repete desde aí nos altos e baixos a vida do Conde de Rendufe. Esperto
e essencialmente venal, familiarizado com o meio dos negócios, o conde granjeou
grossa fortuna ao relacionar-se com todos os regimes.
Em 1823,
quando D. Miguel estava por cima, Simão da Silva apoiou a Vilafrancada, o que
lhe valeu ser nomeado Intendente-Geral da Polícia. Mas os defensores do trono e
do altar sucumbiram. A onda liberal subverteu o Portugal velho. Derrancaram-se
as almas com a invasão de francesias dissolventes, eivadoras de racionalismo e
irreligiosidade. A juventude foi grimpando em conceitos novos, positivando-se
em Comte e materializando-se em Büchner. Antes disso, já o Rendufe era liberal
convicto.
Foi uma
vez detido pelo risco de destruição de documentos comprometedores, tal como o
seu trineto Ricardo Salgado. Foi noutra ocasião encarcerado sem culpa formada e
sujeito a um fuzilamento simulado, tal como alguns dos seus bisnetos durante o
PREC, em 1975.
III.
Rendufe
enxergou cedo que, para singrar nos negócios em Portugal, é preciso meter a mão
no Estado. Desembarcou no Mindelo com os liberais e fez-se eleger deputado e
par do reino.
Pisou,
como embaixador e ministro plenipotenciário, praticamente todos os países onde
o Grupo Espírito Santo viria a desenvolver a sua actividade. Assinou tratados
de comércio com o Reino da Saxónia. Trabalhou em Madrid, antes de ser nomeado
para o Rio de Janeiro, no Império do Brasil. Foi Ministro de Portugal em Paris.
Em 1849,
casou-se em Bruxelas com Emerencie de Boudry. Não lhe dava jeito nenhum — já
barão a caminho de conde — perfilhar logo no ano seguinte um miúdo nascido dos
amores clandestinos com uma lisboeta do Bairro Alto.
Está por
descobrir a importância do Bairro Alto no desenvolvimento económico e
financeiro do País. Fontes Pereira de Melo vivia lá, com sonhos de estradas e
ferrovias. O Grupo Espírito Santo também nasceu ali, naquele dédalo de ruas
estreitas e abafadiças, num colchão de palha, entre o labor dos carvoeiros e os
pregões estridentes das varinas.
PRAÇA DA REVOLUÇÃO
Os turcos revoltaram-se na Praça Taksim, em Istambul. Os egípcios na Praça Tahrir, no Cairo. E chegou agora a vez dos ucranianos, que fazem a revolução na Praça da Independência, em Kiev.
As
sublevações modernas fazem-se nas praças. A primeira medida de qualquer regime
que aspire sobreviver é acabar com as praças, rotundas e avenidas — a cidade transformada num dédalo de ruas
estreitas e abafadiças. Sem praças, ninguém consegue fazer hoje uma revolução. É preciso espaço para
que os oponentes se vejam, se insultem, bebam um copo e, de vez em quando, para
combater o frio, arremessem o seu cocktail molotov.
Vai-se hoje para a revolução como dantes se ia à discoteca: para ver e ser visto. As praças são locais in. A multidão alinhada e a cantar, com bandeiras e cartazes, semelha a espaços o Rock in Rio, com palco e aparelhagem de som. Em dias de revolta, aparecem as cadeias internacionais de TV. As pessoas gostam daquela ideia chique de "fazer parte da História" e, por isso, perseguem nestes dias dois objectivos fundamentais: primeiro, tirar uma selfie para o Facebook, com as chamas em fundo, e depois, se for possível, mudar o regime — nem que seja para que tudo fique na mesma, como naquela máxima consagrada do Príncipe de Salina, personagem de Lampedusa.
Vai-se hoje para a revolução como dantes se ia à discoteca: para ver e ser visto. As praças são locais in. A multidão alinhada e a cantar, com bandeiras e cartazes, semelha a espaços o Rock in Rio, com palco e aparelhagem de som. Em dias de revolta, aparecem as cadeias internacionais de TV. As pessoas gostam daquela ideia chique de "fazer parte da História" e, por isso, perseguem nestes dias dois objectivos fundamentais: primeiro, tirar uma selfie para o Facebook, com as chamas em fundo, e depois, se for possível, mudar o regime — nem que seja para que tudo fique na mesma, como naquela máxima consagrada do Príncipe de Salina, personagem de Lampedusa.
Nós,
se quisermos pôr Portugal no mapa, não vamos lá com surfistas e canhões da Nazaré.
Precisamos de fazer também a nossa revolução. Talvez no Terreiro do Paço. Se
não pudermos desunir os manifestantes em pró-russos e pró-ocidentais, dividimo-los
em solteiros e casados, como nos jogos de futebol amador. O que importa é que a
CNN cubra o espectáculo.
IDEIAS INOVADORAS
Há mais de 50 anos, o governador do Estado brasileiro do Paraná, Moisés Lupion,
criou uma campanha para aumento da receita fiscal chamada "Seu Talão Vale um
Milhão". Os contribuintes eram incentivados a pedir as facturas para se
habilitarem a um sorteio de um milhão de cruzeiros.
A campanha provocou o famoso episódio da Guerra do Pente. Um tenente da polícia
de Curitiba comprou um pente de quinze cruzeiros e exigiu a factura ao
comerciante libanês Ahmed Najar. Os dois discutiram (ou melhor, brigaram) e o
comerciante partiu uma perna ao cliente. Foi o início do conflito. Dezenas de
lojas de árabes e judeus foram vandalizadas. Ainda o primeiro sorteio não se
havia realizado e já a iniciativa inovadora rendera alguns mortos, feridos,
lojas destruídas e os tanques do exército nas ruas.
E perguntam vocês: onde militava Moisés Lupion, esse génio da inovação tributária? Ora, ora, que pergunta mais parva. Militava no PSD (Partido Social Democrático), fundado logo após a II Guerra Mundial sob a influência de Getúlio Vargas.
Lupion acabou os seus dias no Rio de Janeiro, desenganado da política, mas queimado do Sol e de umas acusações de corrupção e desvio de dinheiros públicos. Acontece aos melhores.
E perguntam vocês: onde militava Moisés Lupion, esse génio da inovação tributária? Ora, ora, que pergunta mais parva. Militava no PSD (Partido Social Democrático), fundado logo após a II Guerra Mundial sob a influência de Getúlio Vargas.
Lupion acabou os seus dias no Rio de Janeiro, desenganado da política, mas queimado do Sol e de umas acusações de corrupção e desvio de dinheiros públicos. Acontece aos melhores.
A DESGRAÇA DA EMIGRAÇÃO
No tropel de estrangeiros que tombou sobre Londres,
Paris, Luanda e outras cidades, os nossos patrícios entraram de inscrever-se
numa quota desmarcada. Nos últimos anos, trilharam de roldão vários países: uma
vaga tão alta como as que têm ameaçado a nossa costa.
A emigração é sempre dolorosa. Não há "emigrações boas" e "emigrações más", nem "emigrantes qualificados" e "emigrantes desqualificados". Toda a emigração é uma perda, uma incerteza, uma lágrima de despedida, um vazio deixado por quem parte — uma saudade de pedra.
A emigração dos últimos anos, agravada pela crise demográfica, é um derrame sem retorno. Muitos dos novos emigrantes partem de vez. São jovens, hão-de casar por lá, ter filhos, chamar a outra rua a sua rua — passam bem sem o fadinho e o bacalhau. De crianças já viam a MTV e comiam sushi. E quem cresce a ver a MTV e a comer sushi adapta-se a qualquer país e porcaria.
Na mão, a colher de pedreiro ou o diploma universitário, por vezes ambos — e aí vai a nova leva lusitana, numa imitação dos avoengos, que demandaram as sete partidas do mundo, fiados na força do braço e na coragem de afrontar a vida onde quer que seja. O trabalhador português encasou-se por toda a parte: cavou nas granjas, mourejou nas fábricas, construiu nas obras, serviu nos hotéis e restaurantes. A fita prossegue ainda agora, com malas de cartão ou tróleis da Samsonite, para júbilo dos adeptos do determinismo. É triste que um português para safar-se tenha de buscar outra terra. E que, por vezes, se exceda lá fora no empenho que lhe minguava em casa. Já o exprimia com observação certeira D. Francisco Manuel de Melo: "Isto têm os portugueses que fora da sua pátria se estremam até mais não".
Os comentadores modernos, para amenizar o drama, enroupam o fenómeno de uns agasalhos eufemísticos. Chegam a descobrir vantagens no êxodo. Asseguram-nos que, no regresso, os emigrantes vêm melhores. Parece que agora já saem "qualificados" e regressam, então, polidíssimos e carregadinhos de saber. A tese imbecil assenta na ideia de que um bruto, ao emigrar, melhora. De bruto, passa a demiurgo, sobretudo se amealhar umas massas. Troca a sardinhada pelo foie gras de pato. Vai de bigode e pêlos no peito, mas regressa depilado — e a cheirar às fragrâncias do Faubourg Saint-Honoré. Para esses palermas, o dinheiro é a pedra filosofal que, ao simples toque, transforma o patego em pensador. Assim, um bruto com dinheiro é melhor que um bruto sem dinheiro. Quem não estiver bem, mude-se, emigre — porque emigrar faz bem ao bolso e ao espírito.
A emigração é sempre dolorosa. Não há "emigrações boas" e "emigrações más", nem "emigrantes qualificados" e "emigrantes desqualificados". Toda a emigração é uma perda, uma incerteza, uma lágrima de despedida, um vazio deixado por quem parte — uma saudade de pedra.
A emigração dos últimos anos, agravada pela crise demográfica, é um derrame sem retorno. Muitos dos novos emigrantes partem de vez. São jovens, hão-de casar por lá, ter filhos, chamar a outra rua a sua rua — passam bem sem o fadinho e o bacalhau. De crianças já viam a MTV e comiam sushi. E quem cresce a ver a MTV e a comer sushi adapta-se a qualquer país e porcaria.
Na mão, a colher de pedreiro ou o diploma universitário, por vezes ambos — e aí vai a nova leva lusitana, numa imitação dos avoengos, que demandaram as sete partidas do mundo, fiados na força do braço e na coragem de afrontar a vida onde quer que seja. O trabalhador português encasou-se por toda a parte: cavou nas granjas, mourejou nas fábricas, construiu nas obras, serviu nos hotéis e restaurantes. A fita prossegue ainda agora, com malas de cartão ou tróleis da Samsonite, para júbilo dos adeptos do determinismo. É triste que um português para safar-se tenha de buscar outra terra. E que, por vezes, se exceda lá fora no empenho que lhe minguava em casa. Já o exprimia com observação certeira D. Francisco Manuel de Melo: "Isto têm os portugueses que fora da sua pátria se estremam até mais não".
Os comentadores modernos, para amenizar o drama, enroupam o fenómeno de uns agasalhos eufemísticos. Chegam a descobrir vantagens no êxodo. Asseguram-nos que, no regresso, os emigrantes vêm melhores. Parece que agora já saem "qualificados" e regressam, então, polidíssimos e carregadinhos de saber. A tese imbecil assenta na ideia de que um bruto, ao emigrar, melhora. De bruto, passa a demiurgo, sobretudo se amealhar umas massas. Troca a sardinhada pelo foie gras de pato. Vai de bigode e pêlos no peito, mas regressa depilado — e a cheirar às fragrâncias do Faubourg Saint-Honoré. Para esses palermas, o dinheiro é a pedra filosofal que, ao simples toque, transforma o patego em pensador. Assim, um bruto com dinheiro é melhor que um bruto sem dinheiro. Quem não estiver bem, mude-se, emigre — porque emigrar faz bem ao bolso e ao espírito.
Como sou um tipo de má índole e feitio pessimista,
acho precisamente o contrário. Um patego com dinheiro é ainda pior que um
patego sem dinheiro. Onde havia um pobre parolo passa a haver um parolo de
Porsche e Rolex. A riqueza amplia a dimensão da parolice. Já o topara Camilo,
quando escreveu que em Portugal os pobres de espirito são todos ricos de
matéria.
O que está em curso é a desagregação do país e do seu tecido social. Os emigrantes das gerações anteriores, coitados, trouxeram-nos o azulejo amarelo das moradias, os cães de loiça nas portadas e um sem-número de ideias que aprenderam lá fora — e que logo nos recomendaram para salvação da Pátria em risco. Mas, apesar de tais tolices, eram e nunca deixaram de ser portugueses. Já os que partem agora, duvido que o sejam hoje, quanto mais no regresso, se houver regresso. Somos a única nação que assiste indiferente ao seu próprio fim. De formato rectangular, temos o feitio exacto de um caixão. Nada de flores, que eu não gosto.
O que está em curso é a desagregação do país e do seu tecido social. Os emigrantes das gerações anteriores, coitados, trouxeram-nos o azulejo amarelo das moradias, os cães de loiça nas portadas e um sem-número de ideias que aprenderam lá fora — e que logo nos recomendaram para salvação da Pátria em risco. Mas, apesar de tais tolices, eram e nunca deixaram de ser portugueses. Já os que partem agora, duvido que o sejam hoje, quanto mais no regresso, se houver regresso. Somos a única nação que assiste indiferente ao seu próprio fim. De formato rectangular, temos o feitio exacto de um caixão. Nada de flores, que eu não gosto.
A LINGUAGEM INCLUSIVA
Os meus amigos insistem em enviar-me mensagens de conteúdo pornográfico. A última trazia em anexo o Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública. Ganchou-me desta vez a curiosidade e pus-me a lê-lo com quatro olhos e raciocínio a dobrar. É um documento afectado e ridículo, trinta páginas a encastelar asneiras sobre asneiras.
Propõe que
se escreva "pai e mãe" em vez de "pais", e
"trabalhadores e trabalhadoras" em vez de apenas
"trabalhadores". Incentiva o emprego de barras para economizar
espaço: "o/a doente", "o/a estudante", "o/a
funcionário/a". Chega ao disparate de sugerir se escreva "a pessoa
que requer" em vez de "o requerente". (Desconheço a autora. Sei
que, na fúria de regulamentar o progressismo, deslembrou à senhora que isso de
escrever "pais e mães" em vez de "pais" discrimina os gays co-adoptantes.)
Por mim, aceito desde já que se passe a utilizar sempre o género gramatical
feminino para designar o conjunto dos homens e mulheres. Prefiro isso a mutilar
a língua com golpes de parênteses, barras e excreções.
Deixem o idioma em paz! Abundem na co-adopção, no défice, nas praxes académicas e nos 85 Mirós. Desempenhem-se lá dessas magnas questões com o brilhantismo habitual, mas deixem sossegada uma língua velha de séculos, que sobreviveu precisamente por não ter de cangar-se ao peso de regulamentos, comissões e guias.
Deixem o idioma em paz! Abundem na co-adopção, no défice, nas praxes académicas e nos 85 Mirós. Desempenhem-se lá dessas magnas questões com o brilhantismo habitual, mas deixem sossegada uma língua velha de séculos, que sobreviveu precisamente por não ter de cangar-se ao peso de regulamentos, comissões e guias.
Tanto patriotismo aí todos os dias se desbarata em génios e comentadores, e
nenhum se move em favor da língua materna. Um ror de movimentos, até do foro
político, para defesa dos animais em perigo — e ninguém acode à língua
maltratada e às palavras em vias de extinção. Digam-me em verdade se há algum
país do mundo, do Vietname à Islândia, onde assim se tripudie sobre o idioma.
De dia para dia se sente a introdução de mais uma barbaridade, dentro em pouco
repetida por todas as bocas e martelada em todos os teclados. E no meio deste
desconcerto glótico, andaram estes zeros nomeados milhões a escrever um Guia
para a "linguagem inclusiva" [sic]. Temos um idioma que ignoramos,
talvez o mais rico e opulento, reduzido agora a 200 vocábulos mal-amanhados. O
que se ouve nas televisões e lê nos jornais há muito deixou de ser português. É
uma mixórdia mal servida. O português verdadeiro é riquíssimo. Isso de não
há palavras que descrevam é muleta de quantos ignoram o manancial da
língua. Não sei o que pensam os meus amigos destes guias. Razoáveis talvez lhes
pareçam, mas eu não me fico. Maltratar a língua dói-me e, assim doído, raivo da
ignorância geral que a mutila.
ENTREVISTA COM EÇA DE QUEIRÓS
De
cem em cem anos, gosto de passar por cá. É o bastante, de cem em cem anos,
porque isto está sempre tudo na mesma. Gosto de passear pelo Chiado e admirar,
tão comovido como o Cruges, o arvoredo que ainda subsiste, os meus cafés, as
minhas ruas, os meus restaurantes.
Como
encara a literatura portuguesa contemporânea?
Encaro-a
de soslaio. O senhor é crítico?
Não,
felizmente não sou crítico: sou criticável. Mas olhe que críticos de Eça é o
que não falta por aí...
Eu
sei. Ando na peugada de dois ou três que escrevem os maiores disparates sobre
mim e a minha obra. Quero dar-lhes umas bengaladas. O senhor saberá porventura onde
mora a D. Maria Filomena Mónica?
Não
sei.
E o
Carlos Reis?
Também
não. Lamento.
Não
lamenta mais do que eu…
Aqui
entre nós, que ninguém nos ouve: o Ega, de Os Maias, é o Eça?
Que
disparate! Onde colheu tal ideia estapafúrdia? O João da Ega nem as Memórias de
Um Átomo conseguiu terminar. Eu, felizmente, deixei obra publicada. Se alguma das
minhas personagens tem muito do que eu fui e bastante do que eu desejaria ter
sido é o Gonçalo Mendes Ramires. Logo no início da Ilustre Casa vêmo-lo em
torturas de escritor na velha livraria da Torre, clara e larga. Mais adiante,
aí o temos afeiçoado às ceias e bacalhoadas festivas, que eu tanto apreciei e
tanto mal me fizeram. O pobre era obrigado a recorrer à água alcalina, que eu
tive de beber toda a vida. Quando o Gonçalo, sempre à court d’argent, combina
o arrendamento da Torre com o tremendo José Casco e, depois, sucumbindo à
tentação de mais dinheiro, acaba por arrendá-la ao abastado Pereira da Riosa,
acredite que aí temos um belo exemplo de como eu reagiria em situação idêntica —
reflexo natural das horrendas angústias financeiras que me atormentaram algumas
vezes. É certo que o João Gouveia aparece no fim do livro com aquele estúpida
tirada em que compara o Gonçalo a Portugal. Foi o bastante para a crítica
fantasiar sobre o significado alegórico de cada palavra e gesto do fidalgo. Se
o Gonçalo tem feições retintamente portuguesas é porque eu também as tenho de
facto. Foi uma estupidez, aquele final.
Também
não foi muito inteligente, porque inverosímil, armar de repente em colono
africano um senhor que padecia do fígado e tinha de recorrer com frequência a
sais de frutos e água de Vidago.
Tem
razão, meu caro amigo, tem mil vezes razão.
A sua
galeria de personagens, contudo, é uma das mais notáveis, talvez mesmo a
mais notável da ficção portuguesa. O Gonçalo Ramires, o Teodoro, o Jacinto, o
Ega, o Dâmaso…
Ah,
o Dâmaso… Era um grande patife! Mas olhe que muitas das figuras de hoje vestem
pelo figurino do Dâmaso.
Prosseguindo
na sua vasta galeria de personagens: o País está atulhado de Acácios, não acha?
Concordo
consigo. Foi personagem ineficaz, o meu Conselheiro Acácio. Completamente
ineficaz. Ninguém retirou dele ensinamento algum. Estes tipos estudaram-no,
esmiuçaram-lhe o moral e o físico, as ideias e os gestos, mas de facto não
reparam que é dele, sem tirar nem pôr, a seriedade compenetrada com que
distribuem honras e títulos uns aos outros e a todo o momento. Nunca assistiu a
uma cerimónia do 10 de Junho? Meus Deus, quantos comendadores! E todos de uma
mediocridade rara. Há dias até um praticante do football foi condecorado com o
grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Acredite, o meu
Acácio ao pé desta gente bota figura.
E vários
políticos actuais parece serem a reprodução fiel do seu Alípio Abranhos…
O
Conde d’Abranhos só foi publicado na década de 20 do século passado. O Ramalho
Ortigão enviara anos antes de falecer o manuscrito da obra ao meu filho José
Maria, que depois a reviu e mandou publicar. Dizia o meu filho, acertadamente,
que o livro fora urdido pela imaginação do pai mas que, por aqueles tempos, três
ou quatro décadas volvidas, a realidade se arriscava a ultrapassar a ficção. Por
isso, apressou-se em editá-lo. Antes que fosse tarde. Escrito hoje, nem ficção
seria!
Talvez
fosse a biografia não autorizada de quantos sardanápalos infestam os
ministérios e o Parlamento.
Talvez.
O Parlamento, então, é local horroroso. Uma corja a linguajar politiquice. Tanta
palavra despendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido, tantos
suores, tantos gritos, tantos copos de água disparatados, para ficar sempre
tudo igual. E o público, que vai ele fazer para as galerias? Não compreendo essas
pessoas: uma multidão desocupada e ociosa, que não vai lá pelo gosto da
política, nem pelos interesses patrióticos. Vai apenas para desfrutar os
contendores, rir-se deles, apupá-los e, o que é pior,
perverter-se e desmoralizar-se no contacto da corrupção. Vai ver a maledicência
dilacerar as reputações, como as feras nos circos romanos dilaceravam os
mártires.
Ou como
os bons costumes são dilacerados nos seus romances, carregadinhos de vício,
adultério e incesto.
Eu sei.
Arrependo-me de ter mergulhado tão fundo no lodaçal realista. Pintei a Amélia,
de O Crime do Padre Amaro, e a Luísa, de O Primo Basílio, com a paleta de cores
que me chegava de França. Ficaram criaturas medíocres.
Por que
razão nunca se aventurou nos domínios da poesia e do teatro?
Nunca
tive talento poético. E quanto a teatro, embora haja tentado alguma coisa, é
arte que em Portugal nunca se viu. Ontem como hoje, vai-se ao teatro passar um
pouco a noite, vai-se para se poder dizer que se foi ou, quando há um drama pungente,
para rir e se ficar de bom humor. Não há, nem nunca houve bons dramaturgos — só
maus tradutores. E desde logo moços que ficaram reprovados no exame de Francês,
traduzem. Onde está vous põem V. Exa., e este esforço prodigioso de invenção
consumiu em Portugal a força de várias gerações literárias. Além disso, a malta
do teatro é toda bon chic, bon genre.
Verifico
que continua a insistir nos francesismos.
Às vezes,
é por blague (Lá está, mais um...) Mas, por dentro, acredite que sou um português
de sete costados. Mais português do que muitos contemporâneos seus que, apesar
de me criticarem os francesismos, ficaram em três ou quatro lustros completamente inglesados.
Só falam de hardware e de software, fazendo os devidos backups; aplicam no
rosto after shave, vestem sportswear e compram carros com airbag. Dizem-se
marketeers, brokers e branch managers. Olhe que os cartões de visita do
Dâmaso nunca chegaram a tanto!
Já leu o Acordo Ortográfico?
Já leu o Acordo Ortográfico?
Não me irrite, meu caro amigo. Isso não me interessa para nada. Meia dúzia de académicos a babarem-se de vaidade — e aí temos uma língua nova.
Como vê o futuro de Portugal?
Como vê o futuro de Portugal?
O País
também não me interessa. Isto sempre foi um sítio, nunca chegou a ser um País, muito menos
uma Nação. Portugal, politicamente, não tem hoje lugar na civilização. Está desempregado.
Vive de esmolas, de subsídios, de fundos chamados estruturais. Os nossos
deputados europeus, em Estrasburgo, não têm nada para fazer, nem podem fazer
nada. Entretêm-se a escrever blogues para não morrer de tédio e sensaboria. Como
eu, outrora — em Havana, em Newcastle, em Bristol, em Paris. Sobretudo em
Paris, onde fiz uma vida, não direi de cenobita, mas de petit bourgeois retiré.
Perante
um quadro tão pessimista, que recomenda às mais jovens gerações de Portugal?
Sigam
o exemplo que eu e o Ramalho demos com As Farpas. No estado em que se encontra
o País, os homens inteligentes não devem instruí-lo, nem doutriná-lo, nem
discutir com ele — devem farpeá-lo. As Farpas foram isso mesmo: a pilhéria, a
ironia, o epigrama, o ferro em brasa, o chicote — postos ao serviço da
revolução.
WALLACE STEVENS
A poesia é sempre uma forma de solidão. Wallace Stevens levou uma vida pacata de administrador de uma seguradora em
Hartford, no Connecticut. Integrou o lote daqueles literatos
discretos e de fato escuro, com Kaváfis e Pessoa,
empregado de escritório na Moutinho & Almeida. Embora cada um
a seu modo, todos eles foram homens solitários.
De
Stevens não abundam registos de vida social. Só quando morreu, em 1955, é que os
colegas descobriram que naquele gabinete trabalhara um dos maiores poetas modernistas
do século XX.
The Place of the Solitaires
Let the place of the solitaires
Be a place of perpetual undulation.
Whether it be in mid-sea
On the dark, green water-wheel,
Or on the beaches,
There must be no cessation
Of motion, or of the noise of motion,
The renewal of noise
And manifold continuation;
And, most, of the motion of thought
And its restless iteration,
In the place of the solitaires,
Which is to be a place of perpetual undulation.
On the dark, green water-wheel,
Or on the beaches,
There must be no cessation
Of motion, or of the noise of motion,
The renewal of noise
And manifold continuation;
And, most, of the motion of thought
And its restless iteration,
In the place of the solitaires,
Which is to be a place of perpetual undulation.
O Lugar dos Solitários
Que o lugar dos solitários
Seja um lugar de perpétua ondulação.
Quer seja em pleno mar,
Na escura e verde nora
Ou nas praias,
Que nunca cesse
O movimento, ou o som do movimento,
A sucessão desse som
E o seu múltiplo prolongamento.
E, sobretudo, do movimento das ideias
E da sua incansável iteração,
No lugar dos solitários,
Que há-de ser um lugar de perpétua ondulação.
[versão B.O.S.]
TEÓFILO BRAGA, OUTRO "BLUFF"
Escrevo estes textos, não por embirração, mas apenas para distinguir entre a genialidade e a fancaria. Separar o trigo do joio — é a tarefa. A cultura nacional perde por nivelar valores desiguais. Teófilo Braga, por exemplo, embora alçado a grande talento,
é um dos maiores bluffs da academia portuguesa. Não é de estranhar. Em Portugal a mediocridade recompensa-se com
faustos e laudatórios. Mas impressiona hoje ver com nome imaculado este tipo tão
medíocre, intrujão das dúzias e zote genial da literatura postiça.
Poeta medíocre
e ficcionista falhado, para desgraça dele e nossa meteu-se a historiador da
literatura. Foi mau e burlão em tudo — e sempre numa prosa reles, deslavada e
caótica. Agarrou-se ao positivismo — e ai de quem não perfilhasse as suas
positivices. Como o Grande Oriente faz milagres, chegou a Presidente da República.
Entre os
seus contemporâneos, gozava da mais sólida reputação de apropriador dos bens
alheios para os seus incontáveis livros. Quiseram endireitá-lo, a tempo e
horas. De tudo usaram, do bom conselho à crítica justa, e nada lograram — refinou. Herculano em 1869 classificava já o mal de insanável — prognóstico de sábio. E Camilo, quando a tortura da doença lhe dava
os últimos sacões, chegou a levar a mão à cabeça com gesto trémulo e exclamar: "Meu
Deus! Sinto a cabeça vazia como a do Teófilo Braga".
Quem lhe descobriu
a careca em livro foi Ricardo Jorge, esse sim, um dos grandes prosadores portugueses,
além de médico consagrado, a quem Teófilo surripiou páginas e páginas. Quando quis escrever o perfil biográfico e crítico de Francisco
Rodrigues Lobo foi-se ao trabalho de Ricardo Jorge e não teve mais que estender
a mão e deitar na abada. Fontes, datas, dados, citações, todo um material
penosamente carreado e lavrado ao longo de anos de estudo árduo, estava ali às
ordens. Levou o que quis e lhe conveio. Teófilo nunca cita o título nem o autor
do trabalho expropriado. Não admira. De plágios e contrafacções destas se fez a obra
inteira do grande republicano.
Mas não
roubava só em Portugal. Nisso de esbulhar tinha ele uma vocação universal e irredentista. Ao escritor e crítico brasileiro Sílvio Romero plagiou e falsificou
boa parte dos Contos Populares do Brasil, o que fez explodir a vítima num
protesto formidando, publicado em 1887, sob o título Uma Esperteza: Os Cantos e
Contos Populares do Brasil e o Sr. Teófilo Braga.
O lusófilo inglês
Aubrey Bell, que lhe topou o engenhoso método de criação, lavra crítica certeira: "It
would be indeed a miracle if Dr. Theophilo’s Braga works were as accurate and
as valuable as they are voluminous". ("Seria na verdade um milagre que as obras
do Dr. Teófilo Braga fossem tão cuidadas e valiosas como são volumosas.")
Trindade Coelho,
talento de primor moderno e alma antiga de espartano, apresenta este rasgo: "(…) o
sr. Teófilo [Braga] tem propagado nos seus livros tantas verdades como mentiras
(é favor), e que pelo toca a intenções de trabalho crítico, todo o seu desejo é
atirar com os outros ao meio do chão… a fim de ficar em evidência apenas ele (...)"
Assim foi
Teófilo. Oliveira Martins, Antero, Camilo, Junqueiro — a todos abocanhou
porcamente, por não reconhecerem a sua primazia. Sonhou-se estatuificado como
Camões, com uma roda de oitocentistas na peanha.
Crítico medíocre e arlequim das letras, o seu bota-abaixo atingiu Vieira e Bernardes, que
trata abaixo de cão. Apruma-se de braço togado a proferir o julgamento do jesuíta, que para ele não passa de um "retórico vazio" — um homem que não "cooperou"
nas "grandes sínteses filosóficas" do seu século, "o Baconismo e o
Cartesianismo". Tal qual. Deprecia, como untuoso e monótono, o estilo de
Bernardes. E zurze os dois por terem exercitado a linguagem sobretudo em assuntos
religiosos. Eis o crime, como se num quadro de Rafael ou de Rubens a qualidade mística
empanasse o brilho da pintura.
Fora o que é
roubado, a sua obra constitui a mais vasta enfiada de asneiras e mentiras. Procure-se
em qualquer página. Cada cavadela, cada minhoca. Erra datas, deturpa documentos,
anacroniza factos, confunde personagens, chorrilha desconchavos: os pés pelas mãos e as mãos pelos pés cruzam-se acelerados nesse tear de
sandices.
A teofilíssima
criatura, mestrão das letras, chega a confundir Francisco Rodrigues Lobo com Fernão
Rodrigues Lobo, o Soropita. Por pouco
que escrevesse, seria sempre de mais. Certo dia encontrou num jornal uma
fantasiada epístola do helenista Aires Barbosa, escrita de Esgueira na primeira
metade do século XVI. A frase era à légua e sem disfarce de linguagem moderna,
com uma crítica aos galicismos em voga no século XIX. Pois escarrou-a no prelo
como autêntica, servindo-a logo com aquele sabido molho de pedantaria. Um asno completo.
Repousa, com toda a justiça, no Panteão Nacional.
LAVOURA MODERNA
Depois de nos dizer que o País ainda em crise precisa de massa cinzenta e de investimento como de pão para a boca, o ex-governante sabido dá de frosques para
o FMI ou o Goldman Sachs. Lembra-me aquele lavrador que, entre a vaca e
a mulher, ambas em trabalho de parto, largou do quarto para o estábulo porque a
vaca sempre lhe dava algum rendimento.
A ESCOLINHA
Corre por aí
um debate morno sobre a escolaridade obrigatória. Como de costume, ninguém tem
razão. À uma, escapa aos proponentes que a caixa de velocidades do progresso não
admite marcha-atrás. Não entendem, à outra, os seus opositores que isso de ser obrigatório
o exercício da liberdade revela uma contradição nos termos.
Desde que se
inculcou a ideia de que pela Educação (com maiúscula, como eles gostam) é que
vamos, o caminho ficou definido. A Educação (lá está, com E grande) transformou-se em desígnio nacional, meta do regime, a paixão de Guterres e dos homens sábios. Ninguém quer discutir a velha questão de saber
se aprendemos porque somos ricos e livres ou se, pelo contrário, somos ricos e
livres por termos aprendido. Adoptámos, quase sem exame, a tese de
que a base do desenvolvimento é a escolinha, a Educação (com maiúscula, s.f.f.), a
escolaridade obrigatória, ontem 9 anos, hoje 12, amanhã talvez 15, a seguir 20,
depois 30 ou 40, que isto do progresso nunca pára — e não queremos ficar aquém
da Alemanha e da França, isso nunca.
Sabemos,
desde Aristóteles, que a sabedoria não é condição da liberdade, mas consequência.
O homem não se liberta pela sabedoria: procura a sabedoria porque é livre. Esta
não é promessa, mas exercício de liberdade. A sabedoria é, pois, o horizonte
mais nobre de expressão da liberdade humana.
Enfim, o
contrário exacto da linha vigente. Quem quiser debater o assunto com
profundidade filosófica e rigor metafísico, pode começar por aqui. Quem quiser
apenas ganhar votos, ter o nome limpo nas redes sociais e ser considerado inteligente,
deve defender a escolinha obrigatória, a Educação (com maiúscula, sempre com
maiúscula), o ensino cívico e dos "valores da cidadania". O progresso, meus amigos,
é um autocarro sem travões — leva tudo à frente.
EGAS MONIZ, UM "BLUFF"
Em século e
pico, o génio nacional arrecadou um Nobel e meio. Inteiriço e completo é o de
Saramago. O meio resultou do prémio dividido entre o vencedor português e um fisiologista suíço.
O nosso chamava-se António Caetano de
Abreu Freire. Assim o registaram de nome completo. Isso de Egas Moniz foi a alcunha
que o neurologista colou com cuspo ao apelido, para convencer o populacho de que descendia
em linha directa do aio de D. Afonso Henriques.
É de andar
aos tombos a justificação genealógica que apresenta em A Nossa Casa. Qualquer genealogista
só de fim-de-semana, meia hora de leitura após o almoço dominical, se rirá a bandeiras
despregadas das pretensões fidalgas do facultativo.
A tese mais
verosímil adianta que o homem, quando estudante, fez no Teatro Académico de
Coimbra o papel de Egas Moniz. Deram os colegas a chamar-lhe Egas Moniz. Ele
gostou e adoptou-o, chamou-lhe um figo e pôs-se a imaginar uma linhagem varonil
que vinha, pelos séculos fora, de Entre-Douro-e-Minho até à freguesia de
Avanca.
Como é costume em Portugal, foi tentado pela política. Durante a Grande Guerra exerceu de Embaixador em Espanha, o destino mais seguro para o falso neto de Egas Moniz. Foi bem recebido. Nem precisou de se apresentar descalço e de corda ao pescoço.
Como é costume em Portugal, foi tentado pela política. Durante a Grande Guerra exerceu de Embaixador em Espanha, o destino mais seguro para o falso neto de Egas Moniz. Foi bem recebido. Nem precisou de se apresentar descalço e de corda ao pescoço.
Pioneiro da
sexologia lusitana, editou A Vida Sexual, livrinho pedagógico e recomendável onde
aplica à intimidade de homens e mulheres o que observava nos bovinos da Beira
Litoral. E como um mal nunca vem só, inventou a leucotomia, técnica bárbara que
a ele lhe deu fama e aos doentes sofrimento e morte. Quando, em 1949, recebeu a
metade do prémio já estava paralítico, de cinco tiros que levara de um paciente
que discordaria decerto do júri sueco quanto ao valor daqueles métodos curativos.
Conta Tomás
de Figueiredo, então notário em Estarreja, que aí por meados da década de 40 do
século passado se entreviu com o Abreu Freire, que pretendia um documento
oficial, que por páginas e páginas minutara, num estilo calisto e medíocre. Acrescentava
Tomás que lhe ficou do neurologista a maior figuração que é possível da vaidade
feita carne. E antes do meio Nobel! Pretendia ele lavrar um testamento, mas
propunha condições impossíveis à luz do Direito e do bom senso. Deixava de
raiz, e a herdeira podia assim vender ou gerir como quisesse, mas por morte
dela a herança teria aplicações que impunha, destinando cadeira por cadeira,
caco por caco.
A casa
ficaria para museu. E regulamentava o museu, o seu funcionamento, os horários, o
preço dos bilhetes. Diz Tomás de Figueiredo que não fez tal testamento, por
nulo, mas houve quem o fizesse, vergado pela autoridade, de rabinho entre as
pernas.
Mais tarde,
já inchado pela meia dose de Nobel, promove ele, até por cartas, que em Avanca
lhe alcem um monumento. E lá ficou ele todo, inteiro e majestático, na Quinta
do Marinheiro — o porte altivo, a cabeça de bronze, o capachinho. Um dos
grandes bluffs da cultura portuguesa.
PANTERA AO PANTEÃO
Almeida Garrett, Amália Rodrigues, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro, Humberto Delgado, João de Deus, Manuel Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais, Teófilo Braga. Já os contei: são dez. Ora, o Eusébio tem lugar em qualquer onze.
SEBASTIANISMO
O mito sebástico foi definitivamente ultrapassado. O que o
povo espera em pulgas é a retoma, ou lá o que é.
A NOITE (QUASE EPITÁFIO)
Amo a noite, toda a noite,
desde as dez à alvorada.
Amo a noite, sim, a noite,
amante, amiga e amada.
Amo os dias só à noite
e quando, enfim, me extinguir,
hei-de sumir-me na noite
prà noite me consumir.
desde as dez à alvorada.
Amo a noite, sim, a noite,
amante, amiga e amada.
Amo os dias só à noite
e quando, enfim, me extinguir,
hei-de sumir-me na noite
prà noite me consumir.
A PÁTRIA EM CHUTEIRAS
O meu
sentido da Europa e de Portugal é distinto do comum. A minha Europa não é a comunidade
económica nem a união política. Das teses correntes sobre Portugal digo o
mesmo.
A minha ligação
à Europa vem dos poemas de Homero e da tragédia antiga, funda-se no pessimismo
heróico nascido nas margens do Egeu e nas lendas dos ciclos indo-europeus,
prossegue no espírito das Cruzadas e nos romances da Bretanha, e vive também nas
histórias de amor e guerra, grandeza e morte, que foram contadas por
Shakespeare, Calderón de la Barca e Corneille.
Do mesmo
modo, a minha ligação a Portugal, uma ligação física, carnal, palpável, tem a ver com a espada do Rei-Fundador, a abóbada
da Batalha, o horizonte de Sagres, as páginas de Vieira,
Bernardes e Camilo, a voz da Amália — e o Eusébio.
Eis os signos. Pode parecer estranho, mas as actuais problemáticas, como dizem os parvinhos, têm o condão de me reduzir à mais completa indiferença. Saber se a tróica fica ou vai embora, discutir o modelo social europeu e a dimensão do Estado, polemizar entre esquerda e direita, serão actividades seríssimas e estimulantes — mas só as pratico por dever social, como quem fala do tempo com a vizinha de baixo. Sou europeu da cabeça aos sapatos e português de uma só peça. Mas, nascido assim com feitio enviesado e de certa telha anarquista, nunca admiti por símbolos nacionais o hino horroroso — e ainda
menos o trapo verde e tinto, bandeira a martelo de um país de bêbados.
Foram sempre outros os meus símbolos. Ora, a julgar pelas
declarações de ontem e hoje, pouca gente entendeu a dimensão de Eusébio. Para uns,
parece que foi um futebolista extraordinário — e entretêm-se em comparações
disparatadas. Certo tolinho, movido de inveja, capitula-o de homem bom, mas inculto. Tem razão. Faltou-lhe certamente ciência para criar a
Fundação Eusébio — e ficar a viver por conta do Estado, sentado de babete à mesa do Orçamento. Houve
outros, mais chegados à verdade, que o classificaram de imortal. Mas imortal já
ele era havia muito, estatuificado em vida, o que é raro entre nós. Eusébio corporizou um daqueles mitos que as nações históricas geram para assegurar a sua existência. Foi a última
grande figura portuguesa. Depois dele, quem?
UM DESEJO PARA 2014
Que os governantes aprendam de vez que a expressão ajuda externa é sempre um paradoxo. Ou somos nós, ou nunca seremos.
MARIDOS
A gente cria o costume e gosta mais
por costume que por outra coisa. Que outra coisa é que podia ser. Depois, a
gente afeiçoa-se, mas afeiçoa-se já doutra maneira, e são uns filhos grandes
que casam connosco.
Outros acham que a gente há-de gostar deles
por isto ou por aquilo. Ora! A gente nem sabe porque gosta […]
Sempre o mesmo homem, senhor juiz — o mesmo
homem todos os dias, com o mesmo corpo e a mesma maneira! Todas as noites,
senhor juiz, e na mesma cama — nem a cama muda ao menos. E aquilo ao fim de
tempo já não era viver, nem coisa que se parecesse — era uma coisa entre comer
para não ter fome e fazer o serviço da casa... Se os homem soubessem o que custa
a aturar! Se soubessem o nojo que a gente tem por eles cá dentro quando está
encostada a eles!
E eu, senhor juiz, não tinha outro
remédio senão matá-lo para estar bem com a minha consciência e com a Igreja.
Foi por isto, senhor juiz e senhores jurados,
que eu matei o meu marido.
[Fernando Pessoa, O Mendigo e Outros
Contos]
LISBOA, CAPITAL DO LIXO

Lisboa merece, sem favor, o título de
capital mais porca da Europa. A Torre Eiffel está para Paris como para Lisboa o
lixo a pontapé nas ruas e os grafitos nas paredes. A fama vem de longe. Contam
os olissipógrafos que era Portugal senhor do mundo e Lisboa recortava-se um dédalo de ruas estreitas e fedorentas, com os dejectos
lançados das janelas, os cavalos a patinhar na lama imunda, picados de
mosquitos e polvilhados de moscas — e as escravas negras em largada pela Rua do
Conde abaixo, levando na cabeça os baldes de porcaria que despejavam no rio. Mais
tarde, já no século XVIII, o Chiado só se fez Chiado depois que Pina Manique
encanou as caleiras dos dejectos públicos que deslizavam a céu aberto do Alecrim
para as praias da Ribeira.
Mantém-se, nos nossos dias, o fétido
cenário, que atrai e diverte a turistada europeia. É mais barato voar para
Lisboa do que para Nova Deli. E a comida melhorzinha, graças a Deus — mais saborosa e menos
picante.
A greve transformou a cidade numa
lixeira nauseabunda, ante a inércia da autarquia. Nestas condições, normal seria
que a jornalice espaventasse o escândalo, matéria de higiene urbana e saúde
pública. Dorme, porém, descansado o presidente da Câmara. O homenzinho ajunta
ser socialista a ser monhé, duas qualidades fundamentais que lhe garantem a
imunidade jornalenga.
O nosso porquinho-da-Índia não denota,
na verdade, o mínimo melindre. É preciso relativizar estas coisas. Ele sabe que,
no que toca a limpeza, Bombaim ainda é pior. Embalde pedem, pois, os munícipes
responsabilidades. A imprensa não quer enfarruscar as ambições políticas do
cavalheiro. Lisboa já lhe fica curta nas
mangas e inodora nas narinas. Tarde ou cedo, há-de perfumar de lixo o país inteiro.
GOULD E BACH
Nesta quadra, ofereço aos meus leitores a arte de dois génios: Glenn Gould a tocar o Concerto n.º 1 para piano de Bach. Ambos certificam a existência de Deus.
Feliz Natal!
ALCIDES E O BURRO
Alcides era um velho pastor beirão. Desde
que enviuvara, havia dez anos, vivia acompanhado de Moreno, um jumento fiel. Dez
anos assim. Alcides e o burro, o burro e Alcides. Adoravam-se. Fora amor à
primeira vista. O pastor gostava de rememorar o dia em que se encontraram um
com o outro — e os dois com a vida. O animal retribuía-lhe o afecto. Lembrava-se
embevecido de que Alcides, na feira de gado, o distinguira no meio de um
regimento de azémolas e lhe dera uma palmada rija no lombo (Belo animal! Quanto
custa o jerico?) Ah!... A mão suave de Alcides. Nem comparação tinha com a de
Tadeu, o vendedor, que se lhe escanchava em cima e o chicoteava continuamente
com a soga da rabeira. Que diferença! Por Alcides, nem sabia o que era um estábulo. Nunca lhe batia: o castigo
era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma interjeição mal-humorada.
Entendiam-se pelo olhar, como qualquer casal moderno e de boas avenças.
Um ano passou, outros anos passaram. E
entre os dois a paixão foi crescendo — a ponto de se tornarem inseparáveis. Habitavam
a mesma casa, dividiam a mesma mesa, dormiam no mesmo leito. E isto se
bacorejava aldeia fora, nas conversas intriguistas dos vizinhos e das beatas:
Alcides e o burro viviam em união de facto. Por isso, e muito justamente, o
pastor lamuriava-se de não poder deduzir os gastos de Moreno, alimentado a pão-de-ló,
nas contas anuais do IRS. Tal discriminação indignava-o. E indignado ficou
também o burro quando internaram o dono no hospital da
vila (maldita cirrose…) e lhe interditaram — a ele, bicho fidelíssimo — o acesso
à enfermaria. Ao pobre animal, doía-lhe no peito que não tivesse os mesmos
direitos de visita que o marido ou a mulher de outro doente. Dias depois, como
o pastor morresse, chegou de Lisboa uma parentela ignota que, a dois tempos,
tratou do funeral e das partilhas — sem que o bicho amantíssimo pudesse herdar
o casebre ou a horta. Seria o mínimo,
depois de uma vida a dois.
Errou o jumento, choroso, pelas ruelas
da terra, alijando a dor da perda. Dobaram-se os meses, mas nunca conseguiu
voltar a casa. Olhou com indiferença as luzes festivas e um burro de gesso no presépio da
praça. Tresnoitou-se de lameiro em
lameiro, contemplando as estrelas — companheiras leais dos solitários. Não passou
fome, tanto que se alimentava dos tojos que despontavam no monte, mas definhou
consideravelmente. Quando entrou o Inverno, frio e chuvoso, Moreno estava um
palito. Na noite de Natal, apareceu morto no adro da igreja. Ainda agora
se diz na aldeia que morreu de amor.
LIVROS & MULHERES (XVII)
Marguerite Yourcenar a ler em casa, em 1986, um ano antes da sua morte.
A secção Livros & Mulheres costuma reincidir por gosto e vocação em mulheres mais novas e menos enrugadas. Abre hoje excepção para a escritora belga de expressão francesa, que morreu neste dia há 26 anos.
Na sua obra, avulta o livro Memórias de Adriano, um
romance histórico magnífico, quer como documento, quer como monumento de
arte literária.
A Obra ao Negro oferece-nos um espantoso
fresco da Europa do século XVI e O Golpe de Misericórdia conta-nos de forma
magistral um singularíssimo triângulo psicológico, constituído por Eric, Sophie
e Conrad, com um desfecho cem por cento patético e nobilitantemente trágico,
na melhor linha da nobreza intrínseca daquelas personagens.
Yourcenar revelou-se também uma ensaísta erudita e profunda. Vale a pena ler, neste domínio, Mishima ou a Visão do Vazio, A Benefício de Inventário e O Tempo, Esse Grande Escultor.
Muito azar teve a autora nos tradutores que lhe
calharam em sorte para verter (ou antes: subverter) a vasta obra para português.
Com a excepção de Rafael Gomes Filipe, os tradutores lusos — de Maria Lamas a
António Ramos Rosa — nunca conseguiram transmitir o brilhantismo, o estilo, o
fulgor da sua escrita.
FICAR DE PÉ
De hoje ao revelhão, haverá greves na Casa da Moeda, CP, Metro, Carris, SATA,
EasyJet e outros transportes (trenós puxados por renas não contam). Param também
os professores, os enfermeiros e os homens da recolha de lixo.
Indiferente a estas manifestações de protesto, recolho-me à intimidade de casa. Conheço a fita de cor e salteado. Tudo se resolverá, como de costume, com o chamado rotativismo democrático, isto é, a alternância de cabos partidários e suas clientelas. Sairão uns, entrarão outros — e far-se-á uma festarola ruidosa em frente à sede do vencedor, com discurso e bandeirinhas.
Esse folclore deixa-me indolente. Recolho-me à família, aos livros, à música que engrandece. Aprendemos sozinhos que a felicidade não existe: a vida é uma soma de perdas e desilusões. Mas acalentamos ingenuamente a esperança de que em manada, com dez mil pessoas a berrar na rua, as coisas talvez possam mudar. Prefiro seguir a velha lição que nos ensina a ficar de pé no meio de um mundo em ruínas.
Indiferente a estas manifestações de protesto, recolho-me à intimidade de casa. Conheço a fita de cor e salteado. Tudo se resolverá, como de costume, com o chamado rotativismo democrático, isto é, a alternância de cabos partidários e suas clientelas. Sairão uns, entrarão outros — e far-se-á uma festarola ruidosa em frente à sede do vencedor, com discurso e bandeirinhas.
Esse folclore deixa-me indolente. Recolho-me à família, aos livros, à música que engrandece. Aprendemos sozinhos que a felicidade não existe: a vida é uma soma de perdas e desilusões. Mas acalentamos ingenuamente a esperança de que em manada, com dez mil pessoas a berrar na rua, as coisas talvez possam mudar. Prefiro seguir a velha lição que nos ensina a ficar de pé no meio de um mundo em ruínas.
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